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  As novas traições ao Brasil

Revista Caros Amigos , fevereiro de 2000


O país está sendo enganado pelo noticiário da imprensa que, periodicamente, diz que há um richa no governo Fernando Henrique Cardoso, com uma ala nacionalista e desenvolvimentista de um lado, e de outro a ala entreguista, subordinada à política recessiva do FMI. É tudo encenação maquiavélica, para iludir a opinião pública e continuar com a política arrasa-Brasil. Exemplos recentes e gritantes dessa farsa envolveram o presidente do BNDES, Andrea Calabi, numa operação sobre a Light e a Eletropaulo, o ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, com novos prêmios para quem importar e destruir a indústria nacional, e o genro do presidente da República, David Zylberzstajn, que muito lucrou com o vazamento de óleo da Petrobrás, na baía de Guanabara.

Viva a Light! Morte à Petrobrás!

O noticiário enganador que os próprios partidos governistas passaram a criticar as distorções no processo de venda das empresas estatais pelo governo FHC. Dois pontos, principalmente, deveriam ser mudados a partir de agora. Primeiro, haveria venda de ações a milhões de brasileiros, e não “doação” a grupos privilegiados, sobretudo multinacionais, isto é, seria adotado o modelo de pulverização das ações, exatamente como foi feito até na Inglaterra de Margaret Thatcher. Além disso, o governo, através do BNDES, deixaria de financiar os grupos estrangeiros desejosos de aumentar seu controle sobre empresas estatais, por um motivo altamente preocupante: quanto maior a fatia de capital que as multinacionais passam a possuir, maior a remessa de lucros e dividendos para as matrizes, isto é, maior a remessa de dólares, levando o Brasil a um beco sem saída, a médio prazo. Essas mudanças foram indiretamente confirmadas pelo presidente do BNDES, Andrea Calabi, em entrevista à Folha de S. Paulo, na qual ele anunciava prioridade para os empréstimos a empresas nacionais. Era apenas um lance de tal jogo de enganar trouxa.

Como assim? Pouca gente se lembra ou sabe, mas, como foi demonstrado no livrinho O Brasil Privatizado, de nossa autoria, a “venda” da Light, há uns dois anos, foi fictícia. Como assim? A estatal francesa EDF e dois grupos norte-americanos compraram apenas 11,4 por cento das ações cada um, isto é, 34,2 por cento do capital. O governo brasileiro continuou com quase 39 por cento, mas, apesar disso, o grupo multinacional virou “dono” da Light, que, depois, comprou a Eletropaulo Metropolitana, do governo paulista, nas condições parecidas... Agora, a nova traição. No final de janeiro, depois da entrevista nacionalista do senhor Calabi, o governo vendeu novos lotes dessas ações da Light e da Eletropaulo. Pulverizou a venda, para milhões de brasileiros? Não. Vendeu mais 20 por cento das ações da Light à estatal francesa EDF, que passou a ter uma fatia de 31,64 por cento do capital. E “vendeu” mais 35 por cento das ações da Eletropaulo ao grupo norte-americano AES, sócio da EDF francesa na Light. Como explicar essas vendas? O governo precisa de dinheiro, precisava fazer caixa? Nem isso é verdade. No caso da Eletropaulo, as ações foram vendidas por 1,9 bilhão de reais – mas com entrada de somente 20 por cento, isto é, de 380 milhões... O restante vai ser pago em três anos. Como explicar a falsa venda? É bom lembrar uma aberração gravíssima provocada pela operação. O grupo norte-americano, embora só vá pagar a compra a longo prazo, passa a ser o dono, desde agora, dos lucros de milhões de reais produzidos pela Eletropaulo. Isto é, vai lucrar e remeter dólares sem ter aplicado dinheiro na empresa, já que é tudo financiado pelo BNDES... O que diz o Congresso dessa nova traição?

Alguns ministros do governo FHC começaram a admitir, desde o ano passado, que o “escancaramento” do mercado às importações precisa ser revisto em alguns casos, pois está destruindo a indústria nacional e alargando o desemprego. O prórpio presidente da República admitiu que a “abertura” foi excessiva. No começo do ano, porém, o governo divulgou uma lista de mais quinhentos produtos que podem ser importados com impostos reduzidos ou mesmo sem pagar nenhum imposto. Basicamente, máquinas e equipamentos que as multinacionais que estão entrando nos setores de energia elétrica, usinas temelétricas, telefonia desejam comprar...de suas matrizes e seus países, remetendo dólares para fora. O ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, reconhece que essas importações vão aumentar o rombo em dólares, mas, diz ele, “depois” esses equipamentos produzirão bens que serão exportados, e tudo se reequilibrará. É mesmo? O Brasil vai exportar vapor, energia elétrica, conversas telefônicas? Repete-se o desastre? No começo do governo FHC, os ministros Kandire e Malan também diziam a mesma coisa, que as importações trariam vantagens a longo prazo. Deu no que deu.

E a Petrobrás? O presidente da Agência Nacional de Petróleo, David Zylberzstajn, já anunciou o “esquartejamento da empresa”, quer que ela venda refinarias, oleodutos, gasodutos. Uma de suas alegações, ridículas, para justiciar o desmonte? A Petrobrás é grande demais, é preciso estimular a concorrência. Ora, o mercado está aberto, até para as multinacionais. Elas que realizem investimentos, construam usinas, oleodutos, gasodutos – como acontece em outros países. Por que doar mais uma vez o patrimônio da Petrobrás? O assalto contra a Petrobrás certamente produziria reações em alas nacionalistas – inclusive militares. Por isso, foi muito oportuno o vazamento de óleo na baía de Guanabara, onde o atraso para tomar providências, por parte da alta direção da Petrobrás, ligada a Zylberzstajn, criou condições para que o desastre tomasse proporções gigantescas, ganhasse manchetes dias a fio – e desmoralizasse a Petrobrás, com reações tipo “é melhor que vendam, mesmo”. Vale uma investigação pelo Ministério Público. Um mistério tipo Riocentro...



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