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  Desacertos da política econômica

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 11 de outubro de 1981


A necessidade de controlar o crescimento da dívida externa obrigou o Brasil a adotar políticas para reduzir as taxas de expansão da economia. Não havia outra saída, e nenhum governo poderia evitar a linha de ação atual, por mais penosa que ela seja, socialmente. O governo está certo, quanto a “o quê fazer”. Já não se pode dizer o mesmo, no entanto, quanto a "como fazer": em situações de crise, como a brasileira, o papel do governo é distribuir da melhor forma possível os sacrifícios exigidos da coletividade. Ou, em português bem claro: ao enfrentar crises, os governos exigem sacrifício maior de quem pode mais, e menor de quem pode menos. Num exemplo bem recente: foi assim que os governos dos países ricos, capitalistas, agiram para enfrentar os problemas "trazidos’ pela triplicação dos preços do petróleo, lá pelos idos de 73.

Não ê isso que está ocorrendo no Brasil, neste momento. O sacrifício da população, da classe média ao operário, está sendo desnecessariamente aumentado, inclusive através do rebaixamento de salários e do desemprego. Joga-se sobre seus ombros todo o peso da "austeridade", enquanto os lucros continuam a crescer na área empresarial.

Para que a afirmação não pareça leviana, é preciso citar alguns exemplos. A Souza Cruz, por exemplo, acusou redução em suas vendas no primeiro semestre do ano — e seus lucros deram um grande salto. Outros casos: no seu balanço anual, encerrado em 30 de Junho último, a Paramount Lansul acusou um aumento de 162% em seu lucro líquido em relação a 80; a Sano, do setor de materiais de construção, um crescimento de 132%; a Refripar, de 131%; e a Micheletto, indústria de Equipamentos, de 222% e assim por diante, mostrando que, apesar do mau desempenho das vendas no primeiro semestre do ano, os lucros continuam a crescer. Continuam, e vão continuar: a indústria de pneus, por exemplo, sentiu obviamente o reflexo da retração do mercado de automóveis, mas, segundo declarações de um de seus principais dirigentes (à "Gazeta Mercantil" do último dia 7). "a queda de vendas não deverá ser acompanhada por uma redução da rentabilidade. Aliás, muito pelo contrário" (sic). A própria indústria automobilística, a propósito, já no começo do ano, através dos pronunciamentos dos presidentes das principais empresas do setor, previam que venderiam menos — mas lucrariam muito mais. E é o que estão fazendo, ao aumentar sistematicamente seus preços.

O crescimento dos lucros mostra que há erros gritantes na forma como a política de "ajuste" da economia está sendo conduzida, chegando a agravar desnecessariamente o problema do desemprego e a intranqüilidade social. Como assim? O governo deseja reduzir a produção de alguns setores, para reduzir as importações, provocando um certo número de desempregados — mas eles deveriam ser reabsorvidos por outros setores que ganharam prioridade, dentro da chamada "reciclagem da economia". Era essa a estratégia do "aperto". Mas o que está acontecendo é que as empresas, ao aumentarem os preços para aumentarem seus lucros estão provocando três efeitos não previstos, dentro da economia: 1) provocando uma queda de vendas ainda maior; 2) provocando uma queda na produção ainda maior; 3) provocando um desemprego ainda maior — ao mesmo tempo em que, com os seus aumentos de preços, retardam a queda da inflação.

É preciso perguntar, a esta altura, em que país capitalista do mundo esse procedimento seria aceito: as empresas, recebedoras de toda a sorte de incentivos arrancados da população, se sentarem sobre montes de lucros crescentes, como se nada tivessem a ver com a Nação, e fazerem com seu comportamento, que o desemprego se alastre, os salários sejam rebaixados, a ameaça de ruptura social cresça. São as empresas ditando a política econômica. Governando. Não o governo.

A inflação entrou em queda, o país obteve saldos na balança comercial, os horizontes parecem menos negros. Tudo isso confirma que o governo acerta quanto a "o quê fazer". Mas isso não deve enganar a Nação, levá-la a endossar cegamente a política atual: é preciso mais do que nunca esmiuçar suas diretrizes e, democraticamente, apontar os privilegias e sacrifícios desnecessários.



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