Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 7 de abril de 1983
A possibilidade de melhor desempenho para a balança comercial brasileira, após o malogro de janeiro e fevereiro, foi prevista em análise publicada pela “Folha” há duas semanas. Advertia-se, então, que o pessimismo excessivo em torno dessa dessa perspectiva era errôneo, baseado numa subestimação do ritmo de recuperação da economia norte-americana (retratada, para exemplificar apenas com um número, no avanço de 65% na produção de aço, entre dezembro de 1982 e final de março último).
Ainda assim, o resultado de março parecerá um “salto” exagerado, reforçando as dúvidas quanto ao grau de credibilidade merecido pelos ministros brasileiros e suas estatísticas. Na verdade, uma parte do “salto” pode ser facilmente explicado: há alguns dias, noticiava-se que a Petrobrás reduzira as importações de petróleo artificialmente, jogando no mercado 6 milhões de barris de seus estoques.
A US$ 30 ou US$ 32 o barril, tem-se aí de US$ 180 a 190 milhões. Se não fosse a cooperação da Petrobrás, portanto, que precisará repor os estoques daqui para a frente, o saldo positivo cairia para a casa dos US$ 300 milhões. Além deste “malabarismo” estatístico, há quem acredite que também as estatísticas sobre exportações possam ter sido “enfeitadas”.
Afinal, lembra-se, a recente demissão de um dirigente da trading Interbrás, subsidiária da Petrobrás, teve, entre outros motivos, exatamente um problema desse tipo: “queriam” que a empresa embarcasse mercadorias para o Exterior, mesmo sem que elas estivessem vendidas, para que ficassem depositadas em portos e entrepostos para, somente no futuro, procurar-se comprador... Vantagem da “manobra”: ao serem embarcadas, as mercadorias já teriam seu valor incluído nas estatísticas das exportações brasileiras, engordando-as.
A balança comercial brasileira deve melhorar, sim. Pena que os ministros insistam em fazer mágicas – no caso, para justificar a “máxi”?