Jornal Diário da Manhã , domingo 30 de outubro de 1983
Fatores novos, dentro da economia, podem compensar o efeitos recessivos trazidos pelo decreto 2.065
Há forte temor, dentro da sociedade brasileira, de que a recessão e o desemprego avancem ainda mais rapidamente, nos próximos meses, ante o achatamento salarial promovido pelo decreto 2.065. É certo que a perda de poder aquisitivo das faixas salariais mais altas tenderá a reduzir a venda de produtos industriais. No entanto, há alguns fatores novos em cena, e que podem abrandar o caráter recessivo do 2.065, tornando as perspectivas da economia menos sombrias.
Casa própria – o novo esquema, que permite reajuste das prestações com base em 50% do INPC adotado para o salário mínimo, deixará mais dinheiro nas mãos de centenas de milhares de famílias – e que poderão usá-lo para aumentar suas compras, ou, no mínimo, reduzi-las em menor escala que o previsto até agora. Cálculos divulgados no final da semana pela Abecip – entidade que congrega as instituições das cadernetas de poupança – mostraram que, em julho de 1983, um assalariado que ganhasse três salários mínimos gastaria 26,2% de sua renda para pagar a prestação da casa própria; agora, com o novo sistema, o comprometimento da renda familiar cai para 21,3%, isto é, quase 5% a menos. A vantagem é bem mais acentuada nas faixas salariais mais altas: para um assalariado na faixa de 20 salários mínimos, em julho de 1983 ele gastaria nada menos de 41% de sua renda para pagar a prestação; agora, com o novo sistema, o comprometimento cai para 33,3%. Atenção: abaixo, mesmo, do nível de julho de 1982.
Preços da alimentação – nos últimos meses, as famílias – de todas as faixas de renda – passaram a gastar parcela crescente de seu orçamento (sobrando menos dinheiro para os demais gastos) com a compra de alimentos. A queda de preços nessa área, que deverá acentuar-se daqui para frente, também deverá deixar mais dinheiro nas mãos do consumidor, para outras despesas, abrandando a retração violenta no consumo. Detalhe importante: os reajustes salariais de outubro e novembro, por exemplo, foram baseados no IPC "engordado" pelo alto custo da alimentação. Na medida em que esse custo caia, aumentará o "poder aquisitivo" desses salários.
Renda agrícola – condições climáticas favoráveis aumentaram a safra de trigo, no Sul, onde a produtividade (produção por alqueire) atingiu nível recorde. Vale dizer: o produtor terá um faturamento muito maior, e um lucro, ou renda líquida, muito maior. Na Bahia, igualmente, colhe-se uma safra recorde de cacau. Finalmente, de um ponto de vista mais global, a nova safra agrícola também aumentará a renda do produtor, em relação a 1982, por dois caminhos. Primeiro, porque nas primeiras semanas de colheita os preços estarão ainda muito altos (bastando lembrar o caso do feijão, que hoje vale quase dez vezes mais do que em igual época de 1982). Depois, no pico da colheita, mesmo que o produtor venda seu produto ao governo, pelos preços mínimos, ainda assim sua renda líquida aumentará. Por quê? Acontece que os preços mínimos estão sendo reajustados todos os meses com base no INPC. Essa pratica é, até, um erro de política econômica, já que o INPC vem subindo exatamente por causa da disparada de preços dos produtos agrícolas este ano, e tudo se passa como se os alimentos fiquem mais caros (em tempos de preços mínimos) exatamente porque os alimentos encareceram este ano... Do ponto de vista do produtor, porém, essa distorção aumentará seu lucro, sua renda líquida: os preços mínimos não estão subindo apenas para cobrir os aumentos do custo de produção, e deixarão maior margem de ganho à agricultura. Mais dinheiro no interior, mais compras no comércio, mais compras nas indústrias, mais encomendas às fábricas, mais empregos. Aumento da renda agrícola, em uma etapa. Aumento da renda urbana, em outra, com efeitos encadeados sobre a economia. Abrandando a recessão e o desemprego.
Nordeste – deve-se lembrar, finalmente, que a ocorrência de chuvas no Nordeste, desde o começo deste mês, permite esperar melhora na produção agrícola – e conseqüentemente, na criação de renda na região, arrasada em 83.