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  FHC e os "baderneiros" da agricultura

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 28 de julho de 1996


Começo de julho. Em Brasília, acendem-se as luzes dos salões do Palácio. Uma pequena multidão de homens e mulheres elegantemente vestidos ouve o presidente da República anunciar grandes vantagens aos agricultores, para plantio da nova safra. Sorridentes, sofisticados economistas se auto-festejam.

Final de junho, isto é, alguns dias antes. Em Porto Alegre, centenas de pequenos produtores, homens e mulheres de mãos calejadas, derrubam os portões e invadem os jardins da Secretaria da Agricultura. Exigem uma audiência com o secretário, que vem-se recusando a recebê-los. Por que se comportam como "baderneiros", nas palavras do Presidente?

O que desejam esses maus brasileiros de roupa encardida e pele gretada pelo sol e o vento, marcados pelo trabalho pesado e prejuízos de más colheitas?

A pequena multidão representa 140 mil famílias gaúchas que tiveram suas colheitas arrasadas pela seca em fevereiro deste ano. Desde fevereiro, esperam por um empréstimo para plantarem de novo, e seus filhos não morrerem de fome e doenças enquanto a nova colheita não vem. Quanto querem? Uma exorbitância? Não. São R$ 400. Emprestados. Para plantar. Produzir. E serem devolvidos.

O massacre

Em fevereiro, o governo anunciou que liberaria o dinheiro. Mas esses homens e mulheres, 140 mil famílias, ou um milhão de pessoas, esperaram ao longo de fevereiro, março, abril, maio. Perderam a possibilidade de fazer novo plantio na chamada safra da seca, em março e abril. Continuaram a esperar. Querem aproveitar a nova época de plantio, a chamada "safrinha de inverno". Insistem.

Finalmente, os elegantes e cultos economistas do FMI, digo, de Brasília liberam uma verba para eles. Os R$ 400 por família? Não. Só R$ 240. Os restantes R$ 160 devem ser fornecidos pelo governo estadual. De qualquer forma, tudo resolvido? Então, por que os baderneiros derrubam portões? É simples. Os luzidios economistas do governo FHC resolveram atender apenas a 100 mil famílias. Deixaram 40 mil de fora. Que se danem, ou morram. Daí, o protesto.

Promessas

Há imensa distância entre os discursos pronunciados nos salões do Palácio e a realidade brasileira. O drama gaúcho se repete pelo Brasil afora: são cinco milhões de famílias de pequenos produtores que não têm apoio do governo, mesmo diante de secas ou inundações. O presidente da República, ao anunciar a nova política agrícola, proclamou triunfalmente que o governo vai destinar R$ 1 bilhão a essas famílias em 1996. Isso, proclamou, representa quatro vezes mais do que os R$ 250 milhões do ano passado.

O presidente FHC está sendo traído por sua memória. Em 95, exatamente nesta mesma época, o presidente FHC anunciou triunfalmente que o governo iria liberar esse mesmo R$ 1 bilhão para os agricultores familiares. Anunciou. Mas, agora, confessa que só foram liberados R$ 250 milhões. Ou R$ 50 (c-i-n-q-u-e-n-t-a reais) por família. E nem isso é verdade. O novo ministro da Agricultura revelou que a liberação verdadeira mal chegou a R$ 30 milhões.

Com o esgotamento dos estoques mundiais de alimentos, o Brasil tem uma gigantesca oportunidade de fazer uma "revolução" na sua agricultura _e na sua economia. Uma política (verdadeira) de apoio aos 5 milhões de pequenos produtores traria grandes safras, aumento da renda para 25/30 milhões de pessoas, conseqüente aumento do consumo e reativação da produção na indústria. Para isso, basta evitar festas nos salões do Palácio. E cumprir não as promessas _mas as obrigações de um governo consciente.



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