Jornal Diário Popular , dezembro de 1999
De tempos em tempos, a imprensa prática é inundada por comentários indignados contra os problemas do povo brasileiro ou, mais exatamente, com as aberrações como a miséria crescente, a riqueza cada vez maior de uma pequena parcela da população, a falta de escola para a população, o drama da falta de assistência médica para o povão e assim por diante. Essas ondas de críticas sempre surgem quando organismos internacionais divulgam seus relatórios anuais, com análises sobre a situação da população em todo o mundo.
Ontem, o País tomou conhecimento das estatísticas do Unicef – Fundo das Nações Unidas para a Infância retratando os problemas terríveis de sempre: parece incrível, mas o Brasil continua a exibir uma taxa de mortalidade infantil altíssima, com a morte de 42 crianças de até um ano para cada 1000 crianças que nascem, ficando em 105* lugar no mundo, atrás de países muito mais pobres. Ainda segundo o Unicef, 21 milhões de crianças e jovens brasileiros, ou mais de um terço (35%) da população de até 18 anos, vivem em famílias que ganham menos de meio salário mínimo, ou 68,00 reais mensais, “per capita” – isto é, para cada um dos integrantes da família.
A indignação da imprensa diante desses dados é pura chuva de verão, passageira, ou meramente para inglês ver. Por quê? Ora, é preciso entender que essa situação dantesca do povo brasileiro não é uma tragédia sem explicação, surgida do nada. As aberrações são resultantes de medidas que o governo da República toma todos os dias, e contra os quais, no entanto, a imprensa evita fazer críticas. Os protestos, assim são pura hipocrisia. Por que os pobres ficam cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos?
Essa chamada concentração da renda pode ser reduzida, por exemplo, com a cobrança de impostos menores sobre salários ou mesmo produtos consumidos pelas faixas que ganham menos. Ou, no caso da agricultura, com crédito ampliado para as famílias de pequenos agricultores, a juros baixos – vantagem que, no entanto, acaba sendo reservada para grandes agricultores, que conseguem o crédito. Em resumo, há uma série de providências que um presidente da República sério pode adotar para reduzir a concentração da renda, a miséria, a mortalidade infantil.
Isso não acontece no governo FHC. Ao contrário. Neste ano de 1999, em particular, a realidade é muito pior do que os dados da Unicef, do Banco Mundial, do IBGE. Por quê? Porque o governo FHC vem cortando violentamente as frentes de trabalho no Nordeste, cortando violentamente todas as verbas para os chamados problemas sociais. A imprensa? Criminosamente, faz de conta que não está vendo, nem sabe de nada. Hipocrisia e cinismo.