Jornal Diário da Manhã , segunda-feira 1º de maio de 2000
O próprio IBGE, instituição do governo, mostra que os ricos estão ficando cada vez mais ricos no Brasil, com 1%da população abocanhando algo como 15%da renda nacional.
Em qualquer país a concentração da renda é combatida pelos governos, com o emprego de medidas de política econômica. No governo FHC, ao contrário do que o presidente costuma dizer, caminha-se na direção inversa, com privilégios e vantagens para os mais ricos, isto é, é o próprio governo quem favorece a concentração da renda e patrimônio em poucas mãos, como esta coluna começou a demonstrar ontem. Seguem-se novos exemplos dos contrastes entre o Brasil e os outros países:
Energia, telefone, água — o governo FHC, ao mesmo tempo em que dava andamento à privatização dessas áreas, partiu para a extinção das chamadas tarifas sociais, isto é, preços mais baixos para quem tem um baixo consumo (água, energia), ou para os serviços utilizados pelo povão (caso dos telefones, com aumento de 30 vezes, ou 3.000%para os denominados serviços básicos, como assinaturas ou chamadas locais). Além disso, as contas de energia, telefone, água, pagam um ICMS, imposto estadual, absurdo, de 25% (ou mais de 30% na prática, por causa de um macete adotado pelos governos). Classe média e povão gastam mais, perdem parte de sua renda.
Empresas — as grandes multinacionais têm milhões de acionistas em seus países, isto é, classe média e trabalhadores compram ações e viram ‘‘sócios’’ dessas empresas, e passam a receber, todos os anos, uma parte dos lucros que elas obtêm. Lá fora, as empresas são forçadas a vender ações, porque precisam do dinheiro (capital) para usar na expansão dos seus negócios. Aqui, como recebem o dinheiro do governo (BNDES), a juros de banana, não aceitam ‘‘sócios’’. Seus donos ficam cada vez mais ricos, com dinheiro do governo, isto é, da classe média e do povão.
Empregos — em outros países, como a França, o governo criou incentivos, reduziu impostos, para empresas que criem empregos, absorvam mão de obra. No Brasil, o governo FHC oferece perdão ou redução de empregos como objetivo oposto, isto é, à empresas que adotem a automatização, dispensando mão de obra. No setor industrial, essa política resultou na demissão de 2,1 milhões de trabalhadores nos últimos anos, com sua força de trabalho reduzindo-se de 6,6 milhões para 4,5 milhões de operários.
Renda familiar — a taxa de desemprego na faixa dos 20%nas regiões metropolitanas obviamente significa que praticamente todas as famílias têm alguém desempregado entre seus integrantes. Além disso, o nível de desemprego permite que as empresas paguem cada vez menos aos trabalhadores: segundo os dados do Seade, do governo paulista, os rendimentos de quem ganhava R$ 1.800 (classe média) caíram 10%em 1999. Para o povão, com salário até R$ 151, queda ainda maior: 15% A renda familiar despenca, para classe média e povão. É este o Brasil de FHC: impostos menores para os ricos, juros menores e empréstimos do BNDES para os empresários mais ricos. Impostos maiores, tarifas maiores, desemprego alucinante para a classe média e o povão.