Jornal Folha de S.Paulo , domingo 8 de novembro de 1992
O governo deve aproveitar os reajustes menores dos preços agrícolas e mudar sua política econômica
O custo da cesta básica de alimentos subiu tão-somente 1% na última semana de outubro, segundo pesquisa DataFolha. Por uma simpática ironia do destino, o governo Itamar está sendo presenteado de forma inesperada: como os preços agrícolas haviam subido de mais em agosto e setembro, sem justificativa, eles agora se estabilizam ou até mesmo recuam. Trazem, assim, a possibilidade de uma queda abrupta da inflação já em novembro, aprofundando-se em dezembro. O que parecia impossível torna-se viável: uma taxa de inflação abaixo dos 20% já na virada do ano. É preciso que o governo tire o máximo proveito dessa oportunidade de outro, adotando alterações em sua política econômica como, de resto, vem sendo sugerido por economistas nos últimos meses. Nada de choques, Mas haverá necessidade de ousadia para inovar e contrariar interesses:
1) Mudanças no TR. Há duras criticas contra o uso da TR como índice de correção monetária. Como ela é fixada no começo do mês, empresas e a sociedade passam a encarar seu índice como a inflação que estaria ocorrendo naquele mês –e preços e custos são reajustados com base na TR. A TR tem provocado inflação desnecessária: em julho, ela foi fixada em 23,69% e, no final das contas, a inflação do mês ficou mais de 2,5% abaixo, com 21,10% (esse resultado poderia ter sido ainda melhor, se a TR não tivesse atrapalhado). Neste momento de inflação descendente, alguma mudança deve ocorrer. Provavelmente o cálculo da TR será semanal.
2) Dólar. A política do ex-ministro Marcílio só tirou a indexação dos salários, que deixaram de ser corrigidos mês a mês. O resto continuou ultraindexado: o dólar sobre todos os dias e garante lucro aos exportadores. Chegou a hora de mudar. Economistas, como o ex-presidente do BC Celso Pastore, apontem que o Brasil agora tem altíssimas reservas em dólar e, se a desindexação é mesmo para valer, o governo deveria deixar o dólar livre. Ele poderia até cair, barateando as importações e ajudando a combater a inflação. E os exportadores? Teriam prejuízos? Na Argentina, as empresas engoliram um “congelamento” do dólar por mais de um ano, com inflação acumulada de 40%. Aqui, já seria um avanço contra a inflação abandonar a desvalorização diária e espaçá-la, alterando as cotações a cada quatro ou cinco dias. Isso pode complicar a vida de empresas, mas o objetivo é do interesse de todos.
3) Juros. As taxas de juros reais, descontada a inflação, estão mais de 40% (ao ano) acima da inflação, isto é, o equivalente a seis vezes os juros predominantes no resto do mundo, na faixa dos 7% ao ano (a Libor, sobre empréstimos externos, está a apenas 3,5%...). Diz-se que, se o governo reduzir os juros reais, absurdamente altos, não conseguira vender os títulos que cobrem o rombo do Tesouro com dinheiro captado no mercado. Os investidores correriam para o “black” e para o ouro ou para imóveis ou estoques especulativos. O governo deveria pagar para ver. A esta altura, sobra tanto dólar que o ágio caiu para a faixa dos 5%. Será que algum brasileiro ainda pensa que o dólar ou o ouro são altos negócios? Diante do comportamento do brasileiro nos últimos meses, ainda há quem acredite em “corrida” para a compra de imóveis ou estocagem de carros ou telefones?
4) Preços. Estão todos liberados desde outubro de 91. Não há “defasagens” a corrigir. Empresários juram que, com a melhora nas vendas e o aumento na produção, é possível reduzir preços. Seria importante que as lideranças convencessem as empresas a também espaçarem os reajustes de preços. A inflação brasileira é descabida: os preços são reajustados só por causa do hábito de incorporar a “inflação velha”.
5) Tarifas. Há meses os reajustes se baseiam na previsão da inflação do mês e não na inflação do mês interior. Com a inflação descendente, deveria haver mudanças: um reajuste baixo, na faixa dos 18% no começo do mês, complementando-se a diferença em relação à inflação no fim do mês.
Paralelamente aos ajustes, Brasília precisa manter intensa comunicação com a sociedade, mostrando que a inflação pode cair muito.
Mentirada
Tudo deve ser feito para estimular a privatização, mas com respeito à opinião pública e sem tratar a sociedade como débeis mentais. A Usiminas dá lucro. Mas todas as siderúrgicas vão dar lucro. Motivo: o governo praticamente dobrou os preços do aço.
Rombo menor Sem o “ajuste”, a arrecadação federal já superou em quase 7% as estimativas feitas para outubro. Na Previdência, há crescimento real acima da inflação de 17% em outubro. Há ainda os lucros das estatais. Fim do rombo.
Personagem
“A inflação não cai por causa do pacto de sem-vergonhice entre governo federal e governos estaduais, que não pagam suas dívidas e ninguém cobra”. Paulo Guedes merece medalha, por romper, com a declaração, o silêncio que beneficia governadores caloteiros.
País maníaco
Já há economistas admitindo queda da inflação em novembro e dezembro e sua volta em janeiro. A queda seria “sazonal”. A disparada em agosto e setembro é que foi sazonal, alimentada pela especulação com alimentos.
País louco
Manchete de página de jornal: “Política especial para o feijão”. Para aumentar a produção em 93? Não. Para desestimular o plantio, porque os preços subiram demais e há estoques encalhados. Basta uma seca, ou excesso de chuvas, para faltar feijão em 94.
País chato
Governo anuncia distribuição de cestas de alimentos e volta dos tíquetes do leite. Chuva de críticas contra o “populismo”. O governo dos EUA faz isso há anos. Risco de corrupção? Fiscalize-se.