[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Inflação. O que é importante

quarta-feira 19 de fevereiro de 1992


No acordo com o FMI, o governo brasileiro se comprometeu a aumentar as tarifas e os preços de serviços e produtos fornecidos pelas estatais em no mínimo 15% (no ano, note-se) acima da inflação (do ano, óbvio). Agora, o ministro Marcílio e sua equipe anunciam, como se fosse uma grande vantagem, que mais de 80% daquela meta já foi cumprida, isto é, que as tarifas já foram reajustadas cerca de 13% acima da inflação. Entusiasmador? Lamentável. A equipe econômica, evidentemente, cometeu um erro estratégico, ao acelerar, desde novembro do ano passado, os reajustes de preços de serviços e produtos das estatais. O aço, matéria-prima básica de um sem-número de setores (construção, máquinas, automóveis, bens de consumo como eletrodomésticos), subiu 45% em dezembro. E a energia elétrica não deixou por menos: 60% no mês, aumentando também fortemente os custos de produção de todos os setores da economia, da indústria ao comércio ou mesmo da agricultura. Se tudo o que o FMI desejava era um aumento anual de 15% acima da inflação do período, por que a equipe econômica fez uma tarifação da noite para o dia? Pode-se supor que o ministro Marcílio e sua equipe, eufóricos com as perspectivas de queda da inflação que foram ficando nítidas a partir de outubro, tenham pensado em aproveitar o momento para acelerar a correção de defasagens porque isso significaria também a redução mais rápida do déficit do setor público, vale dizer, o aprofundamento mais rápido do controle da inflação, permitindo assim uma retomada do crescimento mais cedo do que se previa. Pode ser. Mas, se foi essa a avaliação, ela certamente foi equivocada, ao deixar levar em conta um dado fundamental: o tarifaço faria estragos na taxa inflacionária de janeiro, quando as contas do consumo de dezembro fossem pagas. Mais ainda: inevitavelmente, os aumentos de tarifas e produtos irritariam os empresários, onerados em seus custos, levando-os a abandonar a política de reajustes moderados de preços que se esboçava desde outubro, em virtude da retração no consumo. De quebra, deixou-se de levar em conta os efeitos psicológicos da elevação da taxa de inflação em janeiro. Para um país que apenas começava a creditar na possibilidade de queda da inflação, a elevação das taxas tende a ter um efeito desastroso, a volta ao clima de pessimismo – e, o que é trágico, à expectativa de novos “choques”, com todos os desdobramentos inflacionários que se conhece. A equipe econômica errou, foi insensível à realidade do País, ignorou que, para uma sociedade vítima há décadas de uma inflação crônica, é fundamental que haja meses consecutivos de queda da inflação, mesmo que seja de pequenos pontos percentuais de cada vez. O importante é “mudar as cabeças”, destruir a crença na “inevitabilidade” da alta da inflação. Agora, a equipe econômica, num procedimento correto, procura comunicar-se ao máximo com a sociedade, explicando a inflação de janeiro e prevendo taxas menores a partir da confirmação de que o tarifaço já foi feito e, daqui para a frente, os reajustes de preços das estatais serão menores. Torça-se pelo êxito dessa batalha de comunicação. Mais importante do que esse esforço, porém, é discutir, neste momento, o que significa exatamente a tal da “defasagem” tarifária que o acordo com o que FMI quer corrigir. Veja-se o caso da energia elétrica. Não se pode pretender voltar aos níveis de preços cobrados anos atrás, pelo fato puro e simples de que, naquela época, as tarifas tinham que ser altas porque o Brasil estava construindo gigantescas usinas (Itaipu, Tucuruí) que hoje estão em operação. Naquela época, os juros e prestações dos empréstimos tinham que ser pagos com a venda de energia vendida apenas pelas demais usinas já em operação. Hoje, aquelas usinas estão prontas, vendendo energia – e as tarifas podem ser mais baixas. No caso do petróleo, a mesma coisa: os poços da plataforma submarina têm um custo de produção de 5 dólares por barril, que é vendido pela Petrobrás com base no preço internacional, de 16 a 20 dólares o barril. Para as estatais como um todo, ainda, tem-se que levar em conta também a violenta redução de despesas com os juros sobre sua dívida externa, já que a libor está hoje em torno dos 5%, contra 10% há ano e meio, e até 20% na década de 80. Em resumo: o conceito de “defasagem” de serviços e produtos das estatais tem de ser rediscutido, com o próprio FMI inclusive, para evitar aumentos desnecessários e inflacionários. Essa é uma tarefa para as entidades empresariais e para o próprio Congresso. Essencial, para evitar que a equipe econômica cometa novos erros de avaliação.



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