Jornal Diário Popular , dezembro de 1999
Nada como inventar palavras complicadas para enganar a população.Você viu o governo anunciar novas medidas para, segundo eles, fortalecer o Real. È mentira: elas aumentam os lucros dos bancos e criam novos problemas para o “rombo” do Tesouro - além de ressuscitar a chamada “ciranda financeira”, que tanta inflação e outros males provocou no passado. O trio FHC/Malan/Fraga divulgou um “pacote” para “alongar o perfil da dívida do governo” e “reforçar a confiança do mercado financeiro”.
O que vem a ser isso, exatamente? É simples: todas às vezes em que os bancos e investidores percebem que há nova ameaça de crise, eles não querem comprar os títulos (“papagaios”) do governo com prazo muito longo de resgate (isto é, data de vencimento do título e, portanto, de devolução do dinheiro, pelo governo). Como não querem, também, títulos com juros já combinados (ou pré-fixados, como dizem os técnicos), e sim com juros que somente serão calculados na data do resgate (chamados de pós-fixados).
Por quê? Porque bancos e investidores sabem que, quando a nova crise estourar, o Real cairá, os juros dispararão, isto é, eles terão prejuízos se tiverem comprado os títulos pré-fixados, de taxas mais baixas. Além disso, o governo poderá até ser forçado a dar uma espécie de “calote”, ou adiar o pagamento dos títulos por algum tempo. Em resumo, o “mercado” só se interessa por “papagaios” que vençam logo (isto é, a dívida fica com um “perfil” de prazo mais curto) e com juros pós-fixados. É essa a situação problemática que o governo brasileiro vem vivendo – revelando que, ao contrário do que ele diz, não há confiança nem na situação do “rombo” nem no País.
Qual a solução adotada? Pra variar, a de sempre: fingir que tudo vai bem. Como assim? O trio vai forçar a venda de “papagaios” de prazo mais longo, com os juros pré-fixados que o “mercado” está rejeitando. Como conseguirá a façanha? Com um truque perigoso: criou a possibilidade de “reoferta” dos títulos. Que diabos é isso? Os bancos e investidores poderão “oferecer” os títulos de volta ao governo, que os recomprará... A mágica é essa: o trio FHC/Malan/Fraga ressuscitou a política de “recompra” dos títulos a qualquer momento, sempre que os bancos/investidores estiverem ameaçados de prejuízos.
Por que eles evitaram a palavra “recompra” e a substituíram por “reoferta”? Acontece que, há poucos anos, houve imensa especulação financeira no Brasil, com bancos e investidores realizando compras maciças de títulos, até muito acima de suas possibilidades de pagar, porque sabiam que, em caso de aperto, o governo recomprava os papéis.
A volta dessa política mostra como o governo, com sua dívida acima de meio trilhão de reais, até cada vez mais encurralar, contra o muro, utilizando medidas de desespero para tentar vender seus “papagaios”. Prolongando a agonia. Apenas.