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  Às vésperas de um novo governo...

Revista Isto É , quarta-feira 8 de novembro de 1978


"A Revolução Verde pode transformar-se na Revolução Vermelha." O trocadilho do título, absolutamente fiel ao texto surgido na revista Time, no início desta década, revelou-se profético. A FAO, instituição da ONU voltada para os problemas da fome e, portanto, da agricultura no mundo, durante décadas defendera a tese de que só o aumento das safras evitaria a morte de milhões de pessoas, todos os anos, por subnutrição ou inanição, nos países do Terceiro Mundo. Qual o caminho para chegar lá? Segundo a FAO, através da "Revolução Verde", isto é, um programa para disseminação da tecnologia sofisticada, com o emprego de fertilizantes, mecanização, sementes e mudas "cientificamente" selecionadas, e assim por diante — além do envio de técnicos para ensinarem as populações locais a melhorarem seus métodos de cultivo. A "Revolução Verde" foi um sucesso — e um monumental fracasso, ao mesmo tempo. Ela trouxe um gigantesco aumento da produção de alimentos em países pobres. Acontece, porém, que centenas de milhões de pessoas desses países pobres jamais haviam tido, e continuavam a não ter, renda, dinheiro, para comprar alimentos — exatamente porque a terra e a riqueza dessas nações estavam concentradas nas mãos de pequenos grupos. Resultado: as grandes safras não tinham qualquer possibilidade de colocação no mercado interno — sua única saída seria o mercado mundial. E este, com a superoferta, literalmente "desabou", com as cotações despencando, ou, mesmo, com a total impossibilidade da venda dos "excedentes". Os efeitos em cadeia desse desastre foram te rnveis. Por quê? Sempre açulados pela mentalidade tecnocrática – e, note-se, também por colocações ideológicas que apontavam a industrialização como o único caminho para os países pobres –, os governos locais já haviam partido para ambiciosos planos de desenvolvimento, pensando em usar os dólares das exportações na implantação de rodovias, usinas hidrelétricas, infra-estrutura, enfim, para atrair fábricas. Quando os dólares não chegaram, tudo veio por terra. Faltavam dólares e faltavam recursos em moeda local para manter os programas em andamento – ou para pagar os compromissos assumidos interna e externamente pelos governos. Surgiu a necessidade de emitir e de adotar medidas violentas de restrição a importações. A inflação e a crise econômica e social tomaram corpo rapidamente. Tudo agravado pelo violento êxodo rural que ampliou a multidão de marginalizados ao redor das cidades. Por quê? A queda nos preços dos produtos agrícolas e a existência de estoques invendáveis atingiram com maior violência centenas de milhares de minifundiários que coexistiam com os imensos latifúndios. A "Revolução Verde", em lugar de prosperidade, trouxe a crise e a inquietação social. Os acontecimentos políticos que marcaram a vida de países pobres a partir de 1970, sobretudo no Sudeste Asiático, têm muito a ver com o seu retumbante fracasso — e justificam plenamente o profético título da revista Time.

A outra face. Mas a História vai mostrar que a "Revolução Verde" acabou sendo um momento decisivo na vida do planeta. Ela jogou por terra o mito mais insistente cultivado nas últimas décadas, e a partir do qual as nações haviam estabelecido toda uma filosofia de crescimento econômico — vale dizer, uma filosofia de vida. Seu fracasso mostrou — esse o ponto essencial, o ponto de ruptura com o passado – que o problema da fome no mundo não era uma questão de aumento da produção agrícola, e sim de redistribuição de renda, de criação de um mercado consumidor para absorver o crescimento gradual da produção agrícola, evitando os ciclos alternados de escassez e de superprodução. Pode parecer demasiado otimista a afirmação de que o mito morreu. Realmente, páginas de jornais, livros, revistas continuam a falar periodicamente da fome no mundo como uma ameaça da qual a Humanidade não escapará, a curto prazo – em reportagens, artigos e análises indefectivelmente "ilustrados" com dados sobre o crescimento da população mundial e teses sobre a necessidade de controlar a natalidade. Isso mostraria que o mito sobrevive. É preciso entender que mitos já mortos continuam, qual fantasmas, a assombrar a vida dos povos Sua memória é mantida viva por muito tempo, o que é plenamente compreensível: a) de um lado, milhões e milhões de pessoas, gerações inteiras (inclusive tecnocratas que estão no poder ou nas universidades), sempre foram ensinadas a se prostrar diante deles – e não tiveram a chance, através dos veículos de comunicação, de tomar conhecimento de sua morte; b) de outro lado, há os poderosos grupos e interesses econômicos cujos privilégios sempre se sustentaram a partir desses mitos; mesmo que tenham conhecimento de sua morte, fingem ignorar que ela ocorreu, porque isso significaria transformações violentas nos modelos de crescimento econômico das nações.

Na prática. Se algo está morto, mas continua a influenciar a vida dos povos como se estivesse vivo, então na verdade está vivo, diria alguém dado a filosofagens. Tudo certo: ocorre porém que, em organismos internacionais cuja influência sobre a vida dos povos é intensa, a morte do mito é uma realidade — e provocou uma revolução na sua maneira de atuar, de orientar e auxiliar o desenvolvimento das nações. Desde o malogro da "Revolução Verde", a FAO, o Banco Mundial e a ONU passaram a preocupar-se menos com o "crescimento acelerado". Destronaram a deusa Tecnologia e colocaram os Povos em seu lugar. Não foi por espírito caritativo, humanitário, que o Banco Mundial ou a FAO passaram a dar prioridade a programas que beneficiem especificamente populações de baixa renda e que promovam um desenvolvimento econômico mais equilibrado. Foi a partir das crises económicas (e políticas) provocadas pelo retumbante fracasso da "Revolução Verde". Todas essas transformações têm muito a ver com o Brasil, neste momento em que se define um novo governo – e a possibilidade de revisões completas no seu modelo econômico. A dívida externa, a dívida interna, a inflação e a existência de milhões de marginalizados são apenas partes específicas de um quadro mais amplo. E este o momento para "repensar" tudo, de alto a baixo. É sobre isso que se falará a seguir.



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