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  Você jamais esquecerá 1999

Revista da Fenae , janeiro de 1999


Três batidas na madeira? "Isola"? Xô, urubu? Não tenha medo, não.

Ninguém vai despejar previsões de catástrofes para o seu 1999. Ano novo é época de renovação, expectativas otimistas. E 1999 pode trazer ótimas surpresas, mesmo que os analistas econômicos e políticos não estejam falando nelas. Sabe por que 1999 será inesquecível? Vai haver uma grande "virada" no mundo. Mais explicitamente, uma grande "virada" no jogo de poder mundial, com a Europa fazendo frente à hegemonia dos EUA, o que é muito bom para países como o Brasil. A nova tendência foi ficando clara ao longo de todo o ano de 1998, a partir de uma série de fatos - mas, para variar, nenhum deles ganhou manchetes ou mesmo grande destaque nos meios de comunicação. Por exemplo: desde a vitória de Schroeder, na Alemanha, o que aconteceu? Com ela, todos os principais países europeus passaram a ser governados por partidos de "esquerda".

E eles - esta a segunda "revolução" - não aceitam as teorias neoliberais de que o desemprego seja inevitável, com a chamada "globalização". Vale dizer: não aceitam o receituário que os EUA e seu teleguiado, o Fundo Monetário Internacional (FMI), têm imposto ao resto do mundo nos últimos anos, provocando "quebradeira" de países, desemprego em massa, crises no mercado financeiro. Já em novembro último, esses chefes de estado europeus assinaram documento rejeitando essas teses, e reafirmando que o objetivo da política econômica deve ser a criação de empregos e o crescimento econômico. Uma tomada de posição importante para o mundo, às voltas com a legião de centenas de milhões de "excluídos" criada pela falsa "globalização". E, para levar mais longe a discordância com as posições dos EUA, o bloco europeu contará a partir deste janeiro com outra arma: a "circulação" do euro, a moeda única européia - outra "revolução" que ganhou pouco destaque nos últimos meses de 1998, apesar das transformações que ela provocará. O euro terá tanta aceitação internacional quanto o dólar - o que significa que todos os privilégios que os EUA tiveram ao longo de décadas, por causa da "força do dólar", vão passar a ser questionados. Pouca gente sabe, mas essa "força do dólar" é injusta, um mito: os EUA são um país com enormes rombos em suas operações com o resto do mundo, e por isso o dólar deveria desvalorizar-se, como ocorre com as moedas dos demais países. Só para a balança comercial, isto é, o valor das importações, o "rombo" anual dos EUA chega à fabulosa cifra de US$ 230 bilhões em 1998 - ameaçando atingir US$ 300 bilhões em 1999, principalmente se o preço do petróleo, largamente importado pelos EUA, conseguir recuperar-se após a queda violenta ocorrida em 1998.

Alvíssaras

O ano de 1999, assim, poderá ser festejado, e jamais será esquecido, como o marco histórico em que o poder mundial passou a ser dividido entre EUA e Europa, com o enterro das teses neoliberais e poder de fogo, para o mal, do FMI. A humanidade voltará a ter, como prioridade, a criação de empregos, vale dizer, o bem-estar das populações, e não o "funcionamento perfeito da economia", como pretendido pela onda neoliberal, esse imenso equívoco dos anos recentes. A esta altura, você quer saber, obviamente, o que muda para o Brasil. Ninguém pode enganar ninguém. O acordo estabelecido com o FMI é terrivelmente recessivo, prevê a manutenção dos juros altos, a liberdade para os capitais especulativos, a privatização a toque de caixa - em resumo, todo o pseudo modelo abraçado pelo governo FHC no primeiro mandato. Para piorar, prevê também juros absolutamente "esfolantes", nunca vistos em empréstimos de organismos internacionais, com até 5,5% de sobretaxa, isto é, praticamente 100% de aumento nas taxas de juros de 6% normalmente cobradas nos empréstimos internacionais. Impagáveis. De quebrar qualquer país. Se esse acordo prevalecer, aí sim, apesar da "revolução" no mundo, os brasileiros terão péssimos motivos para se lembrarem de 1999, como o ano do desemprego, quebradeira, violência. Mas, sejamos otimistas, de astral alto. É ano novo. Quem sabe o presidente Fernando Henrique Cardoso enxerga as mudanças mundiais, e chega à conclusão de que pode rejeitar a política do FMI a Clinton, apoiando-se para isso nos governos europeus de esquerda? Afinal, eles estão sedentos para terem um novo papel no mundo.



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