Jornal Gazeta Mercantil , quinta-feira 13 de novembro de 1975
O paciente já está em casa convalescendo, após violenta moléstia que quase o leva ao túmulo Magro, com alguns órgãos ainda funcionando insatisfatoriamente, apresenta porém perspectivas de total recuperação - desde que a terapia adotada, desde o diagnóstico de seus males seja mantida. Subitamente, irrompe em seu quarto o médico que o tratou na fase inicial da doença, e depois abandonou o tratamento, por motivos particulares. Nervosa, a visita lê para o paciente os boletins já ultrapassados sobre seu estado de saúde, que atingirá pontos críticos exatamente na ausência do médico; três semanas de febre de 40 graus, vários focos infecciosos, órgãos inchados, ameaça de paralisação de órgãos vitais.
"O Senhor não pode ter-se curado, os boletins dizem que o senhor está morre não morre", sentencia o médico, aos brados, para acrescentar, "vou dar-lhe um tratamento de choque, vou aplicar-lhe doses maciças de remédios, vou amputar-lhe alguns órgãos".
Inutilmente, o paciente lembra que os boletins são velhos, que eles retratam uma situação anterior, e, o que importa, é que ele está bem, agora. Além do mais, lembra, algumas enfermeiras incumbidas dos boletins, têm manias com números, e criam grande alarme quando índices isolados sobre o funcionamento de alguns órgãos são insatisfatórios, mesmo que o estado geral do paciente seja bom. "É a psicose dos números", tenta balbuciar, mas não chega ao fim, pois, por ordem do médico enfermeiros despejam-lhe remédios velhos, garganta a baixo. Daí para a frente, o paciente entra em crise, não apenas pela repetição da terapia como porque, ante o quadro dramático pintado pelo médico, também parentes, amigos e conhecidos começam a tentar medidas para "curá-lo": cortam alimentos que pretensamente podem fazer-lhe mal, fazem-no tomar pretensas beberagens recomendadas por curandeiros, e que lhes destroem as entranhas.
É essa a situação da economia brasileira hoje. De repente, não se sabe bem porque, técnicos do governo, empresários, o povo das ruas, começam a prever que "1976 não será fácil". Nem se explica a razão. Mas se fala em terapias violentas, políticas recessivas, tratamento de choque. Grassam no país duas febres: a PIBite e a recessãomania.
OS DADOS VELHOS
É verdade que o PIB vai crescer menos este ano. Mas é preciso perguntar: qual o significado real dessa expressão? Uma desgraça? Uma tragédia nacional? Há por acaso legiões de desempregados nas ruas? Quedas nas vendas? Aumento nas falências? Não. Os dados mais recentes mostram o oposto, revelam que, após um primeiro semestre realmente pífio, há reativação da demanda, há reativação da produção, surgindo até mesmo um risco de escassez de algumas mercadorias, como eletrodomésticos.
Por que o país fica a prantear baixinho que o PIB está crescendo menos, e que, inevitavelmente, a saúde da economia vai sofrer novos abalos em 1976? Há alguns meses, fez-se a advertência, neste jornal, de que os técnicos do governo e os próprios empresários precisam curar o país da PIBite aguda que o atingiu nos últimos anos. Era preciso que partissem, desde então, para uma campanha de esclarecimento da opinião pública, demonstrando que o PIB é uma ficção e que uma taxa menor de crescimento nada significa. Sem esse trabalho educativo, lembrava-se, quando surgissem os dados de um PIB menor, poderia nascer um clima de desânimo que, como no caso do paciente a caminho da recuperação, tenderia a abrir caminho para terapias não indicadas, para o abandono de diagnósticos corretos, para a depressão e o desânimo que inibem os investimentos, afetam as compras - e acabam por levar a situações críticas.
Qual o significado da expressão "O PIB vai crescer menos?" Significa que um número, um "índice de crescimento" calculado no fim do ano revela que nos meses passados – note-se – a economia andou mal mesmo com a queda nas vendas, estoques acumulados, e mesmo desemprego em algumas áreas. Boletins velhos, ignorando o processo de cura.
O DIAGNÓSTICO PARCIAL
Além do mais, repita-se, o PIB é uma ficção. O PIB pode cair mesmo que as vendas subam, o nível de emprego cresça, surjam filas de “encomendas” na indústria – e isso precisava ser explicado à coletividade brasileira; um baixo nível de crescimento do PIB pode ser acompanhado de maior bem-estar coletivo do que altas taxas de avanço para ele.
Por quê? Recapitulando ainda mais uma vez: o PIB, resumidamente, é a soma do valor de todos os bens produzidos em um país. Se um país A produzir apenas carros, e fabricar 100 carros no valor de 30 mil cruzeiros, num exemplo hipotético, terá um PIB de 3 milhões de cruzeiros; se um país B produzir 1 milhão de metros de tecidos de 3,00 cruzeiros o metro, teria um mesmo PIB, de três milhões de cruzeiros. O que isso significa? Que quanto maior o valor dos bens (carros ou tecidos) produzidos por um país, maior o seu PIB, é mais fácil fazê-lo “inchar”: com apenas 10 carros a mais, o PIB do país A cresce 10%; para ter essa mesma taxa de crescimento o país B precisará produzir 100 mil metros de tecidos a mais. Isso porém não é sinônimo de prosperidade no país A, somente o pequeno número de empregados na indústria automobilística irá bem; o PIB crescerá muito, será alto, e no entanto milhões estarão condenados à miséria. No país B, a necessidade de mão-de-obra para produzir milhões de metros de tecidos será muito maior: mesmo que o PIB cresça menos, haverá mais empregos e menos miséria.
É isso que está acontecendo no Brasil. O PIB cresce menos porque setores que produziam bens de alto preço (como automóveis), e com isso “inchavam” o PIB – enquanto o desemprego e a miséria persistiam para milhões. Agora, chegou a vez do crescimento de outros setores, que, apesar do menor crescimento do PIB, ampliarão a oferta de emprego e criarão renda, num fenômeno positivo que só os adoradores do PIB não levam em conta.
Longe de estar cada vez mais doente, a economia brasileira, ao desativar setores que vinham inchando seu PIB, está na verdade curando-se de doenças que quase o levaram ao túmulo, como importação de metais, peças ou combustível para a manutenção desses bens e que trouxe o estrangulamento na balança comercial. A terapia para combater esses males não deve ser abandonada, e sim aprofundada: para isso, porém, é hora do país, e da classe empresarial em particular, compreenderem o real significado das menores taxas de crescimento do PIB.