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  O Congresso Nacional e o caos programado

Revista Bundas , terça-feira 8 de fevereiro de 2000


Nas últimas semanas de dezembro, surgiram notícias de que os próprios partidos da base do governo desejavam mudanças de rumo nas privatizações, corrigindo-se as distorções dos últimos anos. Principais correções de rumo propostas: “pulverização” das ações, isto é, venda das ações a milhões de brasileiros, deixando-se de entregá-las a grupos privilegiados, sobretudo multinacionais ; redução no ritmo de desnacionalização, decorrente desse avanço das multinacionais sobre as ex-estatais. Essas reações, somadas à movimentação na área militar, provocaram uma contra-ofensiva de informação por parte do governo FHC. O noticiário passou a espalhar a história de que haveria um “racha” dentro do governo, com uma “ala desenvolvimentista e antidesnacionalizante” defrontando-se com a “ala entreguista”, da qual o ministro Malan é apresentado como a própria encarnação. Esse propalado “racha “é mais uma manobra para distrair a opinião pública e, em particular, o Congresso Nacional. Enquanto a ladainha das “mudanças” à vista era entoada, a mesma política anti-Brasil continuava a ser imposta. Dois exemplos, interligados, são suficientes para desmascarar a manobra. O primeiro episódio se inclui, mais uma vez, nas aberrações da “privatização” e favorecimento a grupos multinacionais, e envolve a Light e a Eletropaulo Metropolitana, que ela “comprou”.

Pouca gente ficou sabendo, ou se lembra a esta altura, que na verdade a Light não foi “comprada” nos leilões de dois anos atrás (fenômeno parecido ocorreu com a Eletropaulo), Como assim ? A EDF (estatal francesa...) e seus dois sócios norte-americanos compraram apenas 11,4% das ações, cada um, totalizando 34,2%, enquanto o governo, representado pela Eletrobras e BNDESpar (subsidiária do BNDES), continuou com praticamente 39%. Isto é, o governo (o povo brasileiro) continuou majoritário, mas as multinacionais viraram “donas” da Light. Meses depois, em esquema parecido, a Light comprou a estatal paulista Eletropaulo Metropolitana...O que aconteceu agora, nos últimos dias de janeiro ? O governo FHC decidiu vender as ações que ainda estavam em seu poder. :Abandonou o esquema de privilegiar grupos, decidiu pulverizar as ações como foi feito na Inglaterra de Thatcher ? Não. Vendeu mais 20% das ações da Light à (estatal) francesa EDF, e mais 35% da Eletropaulo ao grupo norte-americano AES. Atenção: no caso da Eletropaulo, o governo vai receber apenas 20% à vista, ou a bagatela de 360 milhões de reais, e o restante em três anos...

Isto é, o grupo norte-americano passa a ser dono imediatamente de mais 35% da Eletropaulo e, conseqüentemente, passa a ser dono imediatamente de mais 35% dos seus lucros e dividendos, podendo remetê-los em dólar para o exterior... Que nome dar a uma operação como essa? Doação? Burrice? Crime contra a sociedade? É evidente que o Congresso Nacional tem de tomar posição contra as atuais aberrações das privatizações. A desnacionalização, repita-se, não é um “problema de dinossauros”, mas um problema econômico gravíssimo, concreto, já reconhecido por muitos economistas, pois vai provocar uma sangria de dólares permanente, representada pela remessa de lucros e dividendos, exatamente como nos tempos coloniais. O Brasil não terá dólares para atender a esses compromissos. O futuro está sendo comprometido, o caos está sendo construído já, e continuará a avançar se o Congresso não intervir. Há outro aspecto em que a privatização está comprometendo o futuro: a entrega de ações a pequenos grupos está concentrando não apenas a riqueza – mas, atenção, as próprias fontes de produção e conseqüentemente de renda no País. A população brasileira está sendo posta à margem dos resultados do funcionamento da economia , com inevitável estagnação do mercado interno e a expansão da miserabilidade. Não é possível que ACM, Temer, Aécio, Madeira não enxerguem essa realidade e continuem a ajudar FHC a implantar essa política de terra arrasada, de futuro arrasado. Ah, sim, qual o outro episódio que mostra a imutabilidade do governo FHC? Também em janeiro, ele reduziu ou zerou o imposto para importação de mais 400 itens, aproximadamente, sobretudo máquinas e equipamentos a serem utilizados pelas multinacionais que estão comprando as estatais. Mais destruição da indústria nacional. Mais destruição de empregos. Mais torra de dólares. Mais caos construído.



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