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  Os ventos do pessimismo sopram com violência

Jornal Gazeta Mercantil , terça-feira 9 de setembro de 1975


“Leio? Não leio? Preciso estar informado, mas, puxa vida, certamente vou estragar meu dia. Paciência: lá vou eu, repetir o Calvário diário”. São essas as hesitações que acometem os empresários, e os leitores em geral antes de decidirem-se a percorrer o noticiário econômico diário, já advertido do vendaval de pessimismo, varredor de todas as esperanças, que vai açoitá-los. Aparentemente, nada de bom aguarda o país: de acordo com o noticiário a indústria de construção está em crise, os depósitos bancários pouco crescem, há desemprego em massa no interior, falta leite, falta cana, falta arroz, sobra soja, sobra algodão, a produção industrial está estagnada, o consumidor está endividado, o setor têxtil vai quebrar. É tal o desencanto provocado pelo vendaval, que o empresário ou o leitor comum, desanimados, correm os olhos pelas manchetes, pelas fotos, são devidamente informados de que tudo vai mal, e não conseguem ir avante, pare verificar até que ponto o quadro é realmente negro. É pena. Quem lê o noticiário de cima em baixo, junta dados, confronta informações, pode concluir que o vendaval de pessimismo não passa de um pé de vento. Levanta muita poeira, cega, mas não tem forças para causar estragos – a menos que consiga provocar pânico.

Quem enfrenta o vendaval pode fazer descobertas surpreendentes:

- O desemprego em massa era alardeado, na última semana, sob a manchete “Geada agrava êxodo rural”, pela qual 600 mil trabalhadores deveriam deixar o Paraná, diante da crise da cafeicultura: quem não foi adiante na leitura, ficou a imaginar – com a ajuda das fotos publicadas – que levas e levas de imigrantes estavam procurando o Centro de Triagem e Encaminhamento – Cetren, da capital paulista, incumbido de acolher e encaminhar os “retirantes” da lavoura. Quem foi avante, deparou com estes dados: “Com base no primeiro semestre dos últimos quatro anos, o Cetrem acusou o recebimento de 62.613 imigrantes em 1972; 49.506 em 1973; 33.522 ano passado e 32.732 este ano, até 31 de julho”. Não há, pois, aumento do fluxo. Mas redução. Isso talvez não signifique nada, conclui ainda o leitor, ao se deparar com outra informação: “O Posto de Triagem da Secretaria da Promoção Social, instalado em Ourinhos, onde ocorre a baldeação dos trens que precedem do Paraná, está redistribuindo o pessoal pelas fazendas do interior, impedindo que o contingente migratório atinja a região da Grande São Paulo”. Isso explicaria o movimento descendente do êxito (que contraria a própria manchete pessimista), isto é, o êxodo existiria, mas estaria sendo “filtrado” em Ourinhos? Não: pelo Posto daquela cidade passarão 1.240 pessoas em junho, 1.240 em julho e 1.372 em agosto, no mesmo nível dos demais meses do começo do ano. Em plena safra. Sem geadas, sem seca, sem “crise”.

- Divulgam-se dados da Secretaria do Planejamento de São Paulo indicando uma queda de 32% no índice de oferta de emprego no primeiro semestre, e não se destaca que em junho ele cresceu 5%. E, segundo o IPE – Instituto de Pesquisas Econômicas, o produto industrial paulista realmente cresceu apenas 3% no primeiro trimestre, mas avançou 8,7% no segundo trimestre. Em outras palavras, “desaceleração” já é fenômeno ultrapassado.

- São anunciados, com alarde, cortes no orçamento paulista, citando-se inclusive, obras que seriam paralisadas. Depois, quando o governo paulista mostra que não houve “cortes”, pois não havia ainda orçamento, comenta-se que mesmo com essa retificação “o governo dificilmente conseguirá desfazer a imagem desfavorável que criou para si próprio”. Terá sido o governo do detonador do mal-estar? (sic)
- A indústria de construção se declara em crise em março, abril, maio, junho, julho. Na semana passada, uma pesquisa da Equipe Promoções revelou um mercado imobiliário altamente dinâmico: aumento de 60% até julho, no número de lançamentos na capital paulista. E aumento de 93% nos preços, em 14 meses.

- Agora, é a seca que ganha manchetes, afirmando-se que as próximas safras serão diminutas – embora o plantio possa ser feito tranqüilamente a partir de outubro. Chega-se a afirmar que a terra está “tão dura” que é impossível ará-la, e por isso o plantio será reduzido. Sem comentário.

- Especialistas prevêem grandes perturbações climáticas para este ano: depois das geadas, haverá calor intenso e temporais, no Verão. Alterações no clima da Antártida seriam a origem desses distúrbios. Mas a Antártida não é, certamente, a origem do vendaval de pessimismo que vem caracterizando o noticiário econômico. De onde ele viria?



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