Jornal Diário da Manhã , sexta-feira 23 de setembro de 1983
INFLAÇÃO VAI CAIR – Os líderes empresariais paulistas fizeram outro almoço solene, com ampla cobertura da imprensa (um doce para quem adivinhar por que os empresários paulistas estão fazendo tantos almoços solenes). Não soltaram outro manifesto, mas soltaram falação. Pessimista? Claro. “As metas do FMI são inviáveis”, “é impossível a inflação cair”, tatati-tatatá, bibibi-bababá. “Só com recessão monstro, só com desemprego-monstro”, la-lari-larará. Ora, as taxas de inflação podem e devem cair, rapidamente, nestes próximos meses. Otimismo? Não. Análise dos dados econômicos em cena. Em setembro, a taxa de inflação ainda vai “estourar”, por causa da vergonhosa tolerância do ministro Delfim Netto para com a especulação com o milho e com a soja, que puxaram os preços do boi, da carne, do frango, do ovo, dos óleos. Mas as importações estão chegando: de carne (25 mil toneladas), de arroz (160 mil toneladas) e, agora, também de milho. As novas safras também estão chegando: plantou-se mais cedo, há feijão do Paraná entrando no mercado. Os estoques vão começar a ser jogados no mercado. A menos que haja novas catástrofes climáticas no Sul, os preços dos alimentos, ao consumidor, entrarão em queda. Como eles “pesam” muito nos cálculos da inflação, ela será puxada já para baixo. Já neste final de ano.
MITO ALTISTA – Muita gente pensa que a inflação não poderá cair porque sabe que o governo aumentou os preços mínimos para a agricultura em 150% para a nova safra. Não tem nada uma coisa a ver com a outra. Os preços mínimos, que representam uma garantia para o produtor, estão muitíssimo abaixo dos preços que o consumidor está pagando hoje. Quer dizer: quando o produtor vender suas novas safras, mesmo com 150% de aumento nos preços mínimos em relação aos níveis deste ano, o consumidor ainda irá pagar muitíssimo menos do que paga hoje. Por exemplo: o feijão está sendo vendido neste momento a até Cr$ 50.000,00 a saca de 60 quilos, no atacado de São Paulo e Rio, chegando ao consumidor por Cr$ 800/1.000 o quilo (em Goiânia, o feijão mais barato, na Cobal, está praticamente a Cr$ 500,00). O novo “preço mínimo” do feijão é de cerca de Cr$ 15.000,00 a saca, isto é, Cr$ 250,00 o quilo, podendo ser vendido o consumidor a Cr$ 400/500,00 (os tipos mais caros). Frisando: as novas safras vão trazer baixa de preços, mesmo com o aumento de 150% nos preços mínimos. A inflação vai cair.