Jornal Diário da Manhã , domingo 16 de outubro de 1983
Os resultados da inflação neste mês de outubro – a julgar pelo comportamento dos preços até este final de semana – vão trazer duas novidades agradáveis para todos, povo e governo. Antes de mais nada, os índices tendem a ser alguns pontos percentuais mais baixos do que os registrados em setembro. Em segundo lugar, e num fenômeno que causará surpresa geral, o índice de inflação “expurgada” deverá ser – ao contrário do que a lógica indica como correto – mais alto do que a inflação verdadeira.
Essas duas novas tendências da inflação brasileira deverão acentuar-se em novembro. Desde já, porém, elas abrem caminho para outras modificações positivas, dentro da economia brasileira (v. “Faltou dizer”, na página 3). Por exemplo: a especulação com o dólar no “mercado negro” perderá terreno. Haverá a possibilidade de redução nas taxas de juros. Os depósitos nas cadernetas de poupança tenderão a crescer. E até a receita de dólares, com as exportações brasileiras, deverá aumentar.
É mesmo possível uma inflação menor em outubro? E, ainda por cima, com uma inflamação expurgada maior do que a inflação verdadeira do mês? Na ponta do lápis, os cálculos mostram que sim.
O declínio dos preços
Antes de mais nada, é preciso saber que as pesquisas de preços realizadas pela Fundação Getúlio Vargas, para calcular os seus índices de inflação, são feitas entre o dia 26 de um mês e o dia 25 do mês subseqüente, isto é, a inflação de outubro se baseará no comportamento dos preços a partir do dia 26 de setembro até o próximo dia 25 de outubro.
A esta altura, portanto, a FGV já está com 20 dias de pesquisas de preços, para calcular a inflação de outubro. O que aconteceu nesses 20 dias? Como o DIÁRIO DA MANHÃ tem demonstrado semanalmente, através da pesquisa de preços publicada aos domingos, o “pico” da disparada dos preços dos alimentos básicos (v. tabela), que vinham puxando as taxas de inflação, ocorreu no transcorrer de setembro. A partir do começo de outubro, medidas tomadas pelo governo contra as manobras especulativas (e que poderiam ter sido muito mais drásticas), além da aproximação de novas safras, provocaram uma reversão de tendência. Houve quedas acentuadas para o feijão (22%) e a batata (28%), recuo menos acentuado para a carne, soja e óleo de soja (10%) e a estabilidade para o milho (que poderá sofrer quedas, nestes próximos dez dias que ainda entrarão no cálculo da taxa da inflação de outubro).
Entende-se, assim, que a taxa inflacionária de outubro possa ser alguns pontos mais baixa do que a de setembro, já que, além da queda para os produtos básicos, houve também o “acordo” com os supermercados para evitar aumentos nos preços dos alimentos industrializados. Resta a pergunta: por que a “inflação expurgada” pode ser mais alta do que a inflação verdadeira, num grande paradoxo?
O Expurgo
Em setembro, a inflação real foi de 12,4%, segundo a FGV, enquanto a inflação expurgada não passou dos 11,2%. Por que a diferença? Mais uma vez, como havia feito em meses anteriores, a FGV “descontou” (expurgou), do índice, uma parte dos aumentos dos preços ocorridos com a soja, o feijão e o milho dentro do critério, adotado pelos “expurgos”, de que a alta do preço desses produtos foi “anormal”, provocada por quebras de safras (na verdade, causada por intensa especulação).
Para melhor entender o que o expurgo significou, vamos a um exemplo concreto: o feijão (carioquinha, no caso), passou de Cr$ 29.000,00 a saca, no início de setembro, para Cr$ 34.000,00 no final do mês (v. tabela). Suponha-se que, hipoteticamente, a FGV tenha adotado um expurgo de 10%, isto é, ela considerou que houve um aumento extra de Cr$ 3.400,00 naquele preço de Cr$ 34.000,00, e o “expurgou”. Assim, na tabela de preços da FGV o feijão estaria com um preço de Cr$ 31.600,00, (isto é, os Cr$ 34.000,00 menos o expurgo de Cr$ 2.400,00).
Frisando: no cálculo da inflação expurgada de setembro, o feijão apareceu com um preço de Cr$ 31.600,00; no cálculo da inflação real, ele apareceu com um preço verdadeiro de Cr$ 34.000,00. Agora, em outubro, o preço do feijão carioquinha já caiu para Cr$ 26.500,00 a saca (no atacado de São Paulo, principal centro de comercialização do País). O que vai acontecer? No índice de inflação expurgada, a queda é de Cr$ 31.600,00 para Cr$ 26.500,00, ou de Cr$ 5.100,00. No índice de inflação verdadeira, a queda é de Cr$ 34.000,00 para Cr$ 26.500,00, isto é, Cr$ 7.500,00 (contra Cr$ 5.100,00, no da inflação expurgada).
Em resumo: a queda dos preços dos alimentos se refletirá mais na “inflação verdadeira” do que na inflação expurgada. Ou, em outras palavras: o índice de “inflação verdadeira” será maior do que o índice de inflação expurgada daqui para a frente.
Essa tendência, em verdade, será mais acentuada em novembro do que em outubro. Por quê? Como se viu, o índice da FGV para outubro é calculado com base nas pesquisas de preços a partir do dia 26 de setembro, e até 25 de outubro. Nos últimos dias de setembro e mesmo primeira semana de outubro, os preços dos alimentos ainda estavam mais altos do que nos dias equivalentes do período anterior, isto é, somente a partir da segunda semana de outubro a queda de preços realmente se refletirá nos índices, embora ela tivesse começado antes. Em novembro, os efeitos da queda sobre o índice serão plenamente sentidos.
Hora de Reverter
As pesquisas realizadas pelo DIÁRIO DA MANHÃ (v. tabela) mostram o recuo dos preços dos alimentos básicos ocorridas nas últimas semanas. Mais uma fez, fica difícil compreender as razões que levam ao governo – que certamente também dispõem desses dados – a não aproveitar o “momento psicológico” para promover um esvaziamento do clima inflacionário que o País está vivendo. A ampla divulgação desses canais, através de comunicação oficiais, provocaria verdadeira “reversão das expectativas”, acelerando a queda das taxas inflacionárias, daqui para a frente. Conhecida a tendência baixista, as próprias empresas passariam a cogitar de menores reajustes de preços.