Jornal Diário Popular , quarta-feira 20 de outubro de 1999
O Real despenca, o dólar passa a barreira dos R$ 2,00. Repetindo as manobras do ano passado, o governo FHC diz que está tudo bem, e até divulga dados estatísticos que mostrariam um “rombo menor” nas contas do Brasil com o resto do mundo (balanço de contas correntes), em setembro. Senadores e deputados não devem confiar nessa quadro, pois podem estar sendo tratados como ingênuos pelo senhor Armínio Fraga, presidente do Banco Central, e pelo senhor Pedro Malan, ministro da Fazenda.
É dever do Congresso Nacional exigir que esses senhores forneçam previsões claras sobre as perspectivas verdadeiras para o Real, antes que a crise da economia atinja proporções incontroláveis. Há uma série de manobras estatísticas que o Banco Central e a Fazenda precisam esclarecer a pedido do Congresso.
Juros – O governo diz que as remessas de juros para os banqueiros consumiram 10,2 bilhões de dólares até setembro, contra 7,0 bilhões em 1998. Um salto de 3,2 bilhões de dólares. Mesmo assim, provocam dúvidas e podem estar falseados. Por quê? No ano passado, o Banco estava pagando juros internacionais na faixa dos 8% a 9% (isto é, juros do Tesouro dos Estados Unidos, na faixa dos 4,5% àquela época, mais 3,5% a 4,5% de sobretaxa cobrada por causa do “risco Brasil”). Neste ano, já em maio, o Brasil estava pagando “sobretaxa” de 7,5% ou mais, chegando a uma taxa total de 15% a 16%. O próprio Banco Central emitiu bônus, anteontem, nessa faixa de 15% (com sobretaxa de 8,5%).
Mesmo que os juros médios estejam na faixa de 10% por causa de contratos “antigos”, os gastos com juros, sobre uma dívida líquida de uns 190 bilhões de dólares, chegariam a 19 bilhões dólares em 12 meses. Pergunta do Congresso ao Banco Central: qual o gasto previsto para os próximos meses?
Dívida externa – Outro bom exemplo de manipulação desenfreada se refere às amortizações (prestações ou contratos a serem pagos) da dívida externa. No começo do ano, o Banco Central dizia que essas amortizações, previstas para este ano, chegavam a 25 bilhões de dólares. Por volta de abril/maio um diretor do Banco Central, em entrevista ao jornal Gazeta Mercantil, anunciava que a cifra havia sido revista para nada mais nada menos para 35 bilhões de dólares. Um “errinho” de apenas 10 bilhões de dólares. Pois é. Mas a brincadeira não ficou por aí, não. Há duas ou três semanas, em novas entrevistas “otimistas”, o Ministério da Fazenda e o Banco Central se saíram com a seguinte informação: “Estamos tranqüilos para o próximo ano, porque houve uma grande concentração de amortizações este ano, e que chegam aos 47 bilhões de dólares”. Viram, “otários”? Nem 25, nem 25 bilhões de dólares. Mas 47 bilhões de dólares. Pergunta do Congresso: se havia tudo isso de amortizações, como explica então que as reservas não caíram violentamente? Os dados merecem confiança? Ou há um “rombo” em dólares gigantesco pela frente? Amanhã, novas dúvidas.