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  A alegre dança das estatísticas enganosas

Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 11 de junho de 1996


Por trás de cada estatística pode estar uma mentira. Mais do que nunca, o Brasil está vivendo essa verdade com o falso otimismo em torno do Plano Real. As conseqüências são desastrosas: as pressões contra a política recessiva perdem a força, e a equipe FHC nada muda.

Salário médio _ segundo o governo, o desemprego de centenas de milhares de trabalhadores da indústria (queda de 14% em um ano) tem sido compensado pelo aumento (9% até abril) do salário médio dos operários que permanecem em seus postos.

Falso. O próprio IBGE confessa que esses 9% são mera ilusão estatística. Por quê?

Como a maioria das demissões atinge os trabalhadores menos qualificados, de salários mais baixos, basta isso para que a "média" dos salários restantes suba _sem que tenha havido nenhuma melhora para os sobreviventes.

Por exemplo: suponha-se uma empresa que tivesse três trabalhadores, ganhando respectivamente R$ 200, R$ 180 e R$ 100, com uma "folha" totalizando R$ 480 reais, portanto. No caso, o salário médio seria de R$ 160.

Se o trabalhador de R$ 100 for demitido, a folha cai para R$ 380, soma dos salários de R$ 200 e R$ 180 dos sobreviventes.

E o salário médio? "Sobe" de R$ 160 para R$ 190. Pura ilusão. Consumidor - faz-se grande alarde porque 90 mil consumidores da Grande São Paulo "acertaram" suas dívidas em atraso em maio, "limpando o seu nome" no SPC.

Enganosamente, noticia-se que os consumidores "quitaram" suas dívidas. Não é nada disso. Para conseguir a "reabilitação", basta que o consumidor renegocie sua dívida: de três prestações, por exemplo, para pagá-la em 12 vezes.

Automaticamente, deixou de ser inadimplente. Mas a dívida continua e terá de ser paga, em novo prazo. Enquanto isso, o consumidor continuará sem poder de compra para reanimar a demanda. Lembrete: há mais de 3 milhões de carnês em atraso só na Grande São Paulo.

Classe média _ o mesmo fenômeno, de renegociação de dívidas, ocorre com os clientes de cartões de crédito, créditos bancários, mensalidades escolares etc., conforme levantamento desta Folha.

O aumento do salário médio e a redução na inadimplência são duas ilusões estatísticas. Que não reaquecem a economia em país nenhum.

Sem dólares

Em três anos, a entrada de dólares para investir efetivamente (em fábricas, compra de empresas etc.) pulou de US$ 900 para US$ 2,7 bilhões.

Mas a remessa de lucros e dividendos saiu do zero para US$ 4 bilhões. Saldo: "rombo" de US$ 1,3 bilhão.

Sem impostos

Mesmo a entrada de US$ 2,7 bilhões em 1995 é um dado enganoso. Até há pouco tempo, as matrizes multinacionais "escondiam" o dinheiro que investiam no Brasil.

Preferiam registrá-lo, no Banco Central, como empréstimos às filiais. Por quê? Porque os juros dos empréstimos não pagavam, ou pagavam menos impostos.

Sem empresas

Como em 1968, grande parte dos dólares que estão entrando não significa novas fábricas e novos empregos. Destina-se à compra de empresas e fábricas já existentes. A preço de banana, por causa da recessão.

Previsões

Em abril, a inflação em São Paulo, medida pela Fipe, saltou para 1,62%. Os técnicos da Fipe, ao anunciá-la, transmitiram tranqüilidade, prevendo que em maio ela cairia para 1% (jornais de 6 de maio). Uma semana depois, reviram para 1,2%. Na outra semana, para 1,3%. Deu 1,34%.

Ah, as vendas...

Às vésperas do Dia das Mães, manchetes proclamavam: "Vendas a prazo crescem 55%". No final das contas, as lojas de roupas, calçados e presentes venderam menos 15%. Só eletroeletrônicos venderam mais 20% sobre 95.



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