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  A dívida, sem manipulações

Jornal Folha de S.Paulo , sábado 7 de novembro de 1981


No final de 1980, os ministros da área econômica presentearam o País com uma noticia muito agradável – porém falsa. Segundo eles, a dívida externa brasileira teria crescido só 10% no ano, de 49 para 54 bilhões de dólares. Ficou difícil entender o "milagre", já que a balança comercial apresentara um déficit de 3,0 bilhões de dólares, os juros haviam devorado mais uns 6,0 bilhões de dólares, e havia ainda os gastos com turismo, remessas de lucros das multinacionais etc.etc.

Um "rombo" de 13.0 bilhões de dólares, na ponta do lápis, quase três vezes maior que os 5,0 bilhões de dólares que, segundo os ministros, tinham sido acrescidos ao endividamento do País.

Coube ao economista Paulo Nogueira Batista Júnior, da Fundação Getúlio Vargas, fazer cálculos precisos e mostrar que, na verdade, a divida crescera 22% em 1980, ou algo entre 10 e 11 bilhões de dólares. Truques contábeis dos ministros escondiam habilmente o rápido agravamento da crise cambial brasileira – ou melhor, esconderiam, se não se estivesse em pleno regime de abertura política, que permite o questionamento dos dados oficiais.

Diante do precedente (ou precedentes), de deliberado acobertamento de problemas, como encarar as novas afirmações dos ministros da área econômica, de que a dívida externa passará a crescer apenas 10% ao ano, em 1982 e 1983?

Desta vez, não é preciso manipular dados para mostrar que a situação cambial do Brasil apresentou sensível melhora – desde, é verdade, que se consiga mesmo o superávit de 3,0 bilhões de dólares, em 1982. E maior ainda, em 1983.

COM MANIPULAÇÃO

De 1979 para 1980, a dívida externa bruta, nas contas dos ministros, cresceu apenas 5,0 bilhões de dólares, de 49,0 para 54,0 bilhões. Acontece porem, como o técnico da FGV demonstrou, que os ministros passaram a não contar como dívida os empréstimos de "curto prazo", isto é, pagáveis em até doze meses (segundo outras versões, até 24 meses), e que passaram de 4,0 bilhões para 7.0 bilhões de dólares, entre 1979 e 80, isto é, cresceram 3,0 bilhões de dólares. Por que os ministros esconderam esses débitos? Segundo eles, dívida de curto prazo não é dívida, isto é, já que tem que ser paga logo (com outro empréstimo) é apenas "giro" de empréstimos...

Até aqui, a dívida já havia crescido 8,0 bilhões: 5,0 bilhões "declarados", e 3,0 bilhões "escondidos". Havia mais, porém: no final de 79, o Brasil tinha quase 10,0 bilhões de dólares em reservas. No final de 80, elas haviam caldo no mínimo 3,0 bilhões de dólares (diz-se no mínimo, porque houve também outros macetes, dos ministros, que não cabe relembrar aqui). Isto é, a dívida bruta não cresceu mais que aqueles 8,0 bilhões graças à queima de reservas. Contando essa perda, o endividamento externo do Brasil aumentou em 11,0 bilhões (os 8,0 bilhões vistos anteriormente, mais esses 3,0 bilhões adicionais). Ou melhor, 10 bilhões de dólares, já que, daqueles buracos todos, deve-se descontar o total de Investimentos externos.

SEM MANIPULAÇÃO

De 1980 para 1981, o crescimento da dívida será ligeiramente inferior na casa dos 18 a 20%, chegando-se ao final do ano com uma dívida externa bruta em torno de 70 bilhões de dólares, e uma dívida líquida (isto é, a dívida bruta menos as reservas) na casa dos 64,0 bilhões de dólares.

Por que os ministros prevêem um crescimento de apenas 10%, de 1982 em diante? Por esses cálculos, em 1982 o Brasil terá 9,0 bilhões de dólares a pagar, sob a forma de juros (e comissões aos banqueiros), mais uns 3,0 bilhões de outros compromissos (remessas etc.), totalizando 12,0 bilhões. Tirando-se 1,0 bilhão de investimentos (aqui também tem havido manipulação de estatísticas), o aumento no endividamento cairia para 11,0 bilhões, cifra que se reduziria para 8,0 bilhões de dólares caso houvesse um saldo de 3,0 bilhões de dólares na balança comercial. Neste caso, a divida bruta subiria para 78,0 bilhões de dólares, e a líquida para 71.0 bilhões de dólares – coisa de 12%, no ano, pouco acima dos 10% de que falam os ministros, mas bastante abaixo dos resultados de 80 e 81.

O fato da situação cambial melhorar não significa que o País possa mergulhar novamente em ’’aventuras desenvolvimentistas", que desemboquem em nova crise cambial. Mas, certamente, permitirá que já em 1983 (ou no segundo semestre de 1982) se adotem programas de crescimento ordenado – e maior criação de empregos.



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