Jornal Folha de S.Paulo , quarta-feira 30 de setembro de 1981
"Não há nada mais sério do que uma brincadeira", pontificava o escritor mineiro, lembrando que as coisas ditas com graça podem ser melhor aceitas, por mais que a realidade nelas contida devesse desagradar o ouvinte. Aplauda-se o riso, como caminho para a percepção da realidade e para a busca de meios para enfrentá-la.
Há o riso, no entanto, que longe de cumprir esse papel, torna-se um instrumento para ocultar a realidade e para confundir a inteligência dos interlocutores. Ainda há poucas semanas, o ministro Delfim Neto fez um auditório, lotado por centenas de empresários paulistas, gargalhar durante quase meia hora com uma análise da atual crise da economia brasileira. Para realizar sua façanha, o ministro simplesmente se dedicou à leitura de noticias publicadas pela imprensa há vinte, trinta, cem anos atrás, em períodos de crise, com previsões terríveis sobre o futuro do País. Singelamente, o ministro concluía que, apesar de tanto catastrofismo, o País sobreviveu, chegou até os dias de hoje e, portanto — esse o raciocínio buscado por seu "mergulho no passado’’ —, também na atual crise o Brasil não irá à falência. A mensagem de otimismo do ministro foi gostosamente digerida pelos presentes — e pela opinião pública, já que foi levado aos quatro cantos do território nacional, repetindo-se que também no futuro, quando o Brasil for uma superpotência, os brasileiros que então viverem rirão, ao ler os jornais de hoje, com seu noticiário sobre os problemas da Nação. (Quem viver, rirá. Quem viver).
O que o ministro não disse, e o riso impediu que se parasse para pensar a respeito, é que há muito se sabe que nenhum país vai à falência, fecha as portas, "desaparece". Qualquer problema de economia tem sempre uma solução. O que o ministro não disse é que essa solução teve um preço no passado, e tem um preço no presente, pago pela sociedade, pelo povo — principalmente por suas camadas mais pobres.
O desemprego, por exemplo, é um preço que foi cobrado no passado, e está sendo cobrado hoje (talvez o ministro e seus assessores não pensem no assunto, demasiado abstrato para suas mentes lógicas).
Mas nem é essa a questão principal. Não porque o desemprego seja um preço aceitável, ao contrário, mas porque ele pode ser eliminado a curto ou médio prazo, por caminhos que não cabe discutir aqui. O preço sobre o qual o ministro não falou, e o riso ocultou, é que para superar a atual crise cambial brasileira, provocada pelo agigantamento da dívida externa, o País está partindo para um esforço também gigantesco para aumentar as exportações.
Erram os críticos do ministro, quando dizem que essa meta é impossível de ser alcançada: dados estatísticos podem demonstrar que realmente o ministro tem razão. Pode-se exportar muito e muito mais, e o Brasil já está fazendo isso. O que precisa ser olhado não é o crescimento das exportações, buscado como solução para a crise, e sim o seu preço, o custo social dessa estratégia. Num País onde falta tudo, por falta de recursos, o governo gasta uma parte cada vez mais gigantesca de seus recursos para estimular as exportações, através de subsídios, perdão de impostos, vantagens de toda ordem.
A realidade está mostrando que, a cada dia que passa, cresce a escalada dessas vantagens, numa sangria hemorrágica do dinheiro da Nação e de seu povo. Ainda nos últimos dias, anunciou-se a ampliação do sistema de "drawback", que nada mais é do que o perdão de impostos na importação de matérias-primas, peças, componentes que vão ser usados em produtos destinados à exportação (além da perda de recursos do Tesouro, aumentam-se as importações, para aumentar as exportações). Ontem, ficou-se sabendo que indústrias automobilísticas vão ganhar novas vantagens para exportar (ainda uma vez, essas vantagens representam mais importações e perdão de impostos): quem suspeitou que se trata daquelas indústrias às quais o ministro disse que não daria novas vantagens, acertou. E é tudo assim: o governo está vendendo nafta subsidiada para a indústria petroquímica, que a utiliza como matéria-prima, exportar; aço subsidiado para as indústrias consumidoras tentarem o mercado externo, e assim por diante.
O ponto central do debate econômico, neste momento, não é saber se o País tem ou não saída. Elas sempre existem. A questão é o preço que o povo brasileiro vai pagar por essa saída.
No mais, o mundo se curva diante do Brasil, que enfrenta sua crise com sangue, suor, trabalho e risos. O sangue, suor e o trabalho do povo.