Jornal Diário da Manhã , sábado 3 de dezembro de 1983
VENTOS NOVOS? – durante anos, as denúncias de favoritismo e corrupção caíram no vazio, com os acusados chegando mesmo a ascender a postos cada vez mais altos, na área federal. Agora, no curto espaço de duas semnas, houve nada menos de cinco demissões ou “afastamentos” de altos funcionários: o diretor de Mercadode Capitais e o chefe de Fiscalização do Banco Central; o presidente do BNH; o presidente e o diretor de Câmbio e Finanças do Banco Nacional de Crédito Cooperativo (nesta quinta-feira).
Para alguns analistas, essas medidas seriam o melhor indício de que vai mesmo haver eleições diretas no País: Brasília já estaria “limpando o terreno”, disposta a coibir “negócios especiais” daqui para a frente
VENTOS VELHOS – os novos ventos ainda não chegaram, é óbvio, à Comissão de Financiamento à Produção, que continua a fazer negócios especiais com o milho. Nem à Cacex, que continua a tolerar desvios no crédito subsidiado a exportadores que, no final das contas, não exportam nada e aplicam o dinheiro com fins especulativos: open, black, etc.
VENTOS VELHÍSSIMOS – e a Cacex não se emenda: agora, ela está anunciando novos “estímulos” aos exportadores, em cima de “estímulos” já escandalosos, criados este ano. O negócio é o seguinte: algumas matérias-primas brasileiras (metais, produtos agrícolas, fibras, plásticos) têm preço mais alto do que as cotações internacionais.
Os fabricantes de produtos industrializados brasileiros, que usam essas matérias-primas, alegam que não poderiam concorrer no mercado internacional, porque as indústrias competidoras, de outros países, contam com essas matérias-primas a preços mais baixos. Então, o governo criou a seguinte colher de chá para os exportadores: eles compram a matéria-prima brasileira, mesmo, e o governo lhes paga a diferença em relação ao custo internacional (isso se chama, lindamente, “draw back verde e amarelo”).
Até agora, o exportador só recebia a diferença depois de realizar a exportação. Agora, ele vai receber imediatamente, tão logo compre a matéria-prima no Brasil. É só esperar por novo “escândalo”, o escândalo do “draw back papel”. Isto é, empresas vão receber a diferença do governo e depois não vão exportar nada. Os técnicos do governo continuam ingênuos. Ou espertos demais?