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  Excesso de alimentos, a grande ameaça...

Jornal Folha de S.Paulo , quarta-feira 8 de outubro de 1997


É hora de esquecer um pouco o terremoto do mercado financeiro e voltar os olhos para a mais nova e inesperada ameaça à economia mundial – e brasileira: a superprodução agrícola, que, entre outras conseqüências, pode quebrar bancos nos EUA.

As safras recordes de cereais e outros produtos (café, inclusive) já jogaram os preços aos níveis mais baixos dos últimos 10/12 anos, e as estimativas apontam para a formação de estoques de milhões e milhões de toneladas, pressionando ainda mais as cotações.

Quais os efeitos desse panorama para o Brasil? Exatamente neste momento o país está sendo levado a adotar uma política recessiva por força das negociações com o FMI e credores internacionais.

Assim, mais do que nunca, a agricultura deveria desempenhar um papel marcante, o de criar empregos e renda no interior, capaz de oferecer algum reforço ao consumo e à produção industrial, com efeitos multiplicadores sobre toda a economia. Isto é, a agricultura poderia trazer algum abrandamento à queda na produção e emprego da indústria, isto é, à recessão, que já havia tomado conta da economia brasileira. (By the way: só anteontem a Fiesp divulgou os resultados da produção industrial de agosto, com queda de 2,7% no setor em São Paulo. Escondeu até a reeleição?)

No entanto, com o novo cenário internacional, de superprodução agrícola, as perspectivas são negras. Os preços já desabaram também no mercado brasileiro, isto é, os produtores sofrem prejuízos, a renda agrícola cai, as dívidas se acumulam, a recessão avança.

Ou em poucas palavras: a agricultura nacional está diante de uma situação de emergência que também exige medidas de emergência por parte do governo. Ou melhor, exige que o próprio presidente da República dedique atenção especial ao setor para determinar profundas alterações na política agrícola que a equipe econômica implantou nos últimos anos.

A União Européia e os EUA já estão agindo, para defender sua agricultura, o emprego, a renda. O Brasil não pode continuar de braços cruzados.

Lá fora, proteção

Os países ricos já gastam anualmente mais de US$ 200 bilhões – como o presidente Fernando Henrique chegou a apontar há alguns meses – em subsídios à agricultura. Isto é, como os agricultores desses países produzem “mais caro” que os agricultores de países como o Brasil, não têm condições de enfrentar esses concorrentes nem no mercado internacional nem no mercado mundial – sem a proteção dos seus governos. Só continuam a produzir porque seus governos “pagam seus lucros”, subsidiam a produção – com o objetivo de garantir emprego, renda, poder de compra, equilíbrio econômico e social.

Essa é a política agrícola permanente dos países ricos. Mas agora, além dela, diante da superprodução, seus governos vêm adotando sucessivas medidas de emergência. Há um mês, a União Européia elevou de 8% para 33% o imposto sobre as importações de trigo, milho, aveia e outros produtos agrícolas. Por quê? Para evitar que as importações a preços baixos invadam seus mercados.

Depois, há 15 dias, a mesma União Européia aumentou em 8% o subsídio para os criadores de bovinos, suínos e aves – porque os preços das carnes também estão despencando (para a carne suína, houve um desastroso tombo de 38% em poucas semanas). Agora, na semana passada, a mesma União Européia aumentou em 11,5% os subsídios aos produtores de leite e derivados – pelos mesmos e bons motivos.

E nos EUA? O Congresso elevou as verbas que o governo pode destinar ao pagamento de subsídios agrícolas. Mais ainda: já no ano passado, o presidente Clinton havia criado um seguro agrícola para compensar eventuais prejuízos dos produtores, no caso de queda de preços abaixo de determinados níveis.

No Brasil, diferentemente do que se pensa, não existe nem mesmo o seguro, para os produtores, contra perdas de colheitas provocadas por más condições climáticas. Ele foi solenemente prometido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso há um ano e quatro meses, isto é, em junho do ano passado. Chegou a hora de adotá-lo.

Plano de emergência

O Brasil está diante de uma emergência. Não se pode esperar nenhuma ação inovadora por parte da sempre olímpica equipe econômica. Há necessidade da interferência pessoal do presidente da República, com mudanças imediatas.

Antes de mais nada, cabe suspender as exigências exageradas que o Banco do Brasil vem fazendo para a liberação do crédito rural.

Pode parecer contraditório (diante do quadro de superprodução mundial), mas o Brasil precisa expandir o plantio tendo em vista aquele objetivo mais amplo, utilizar a agricultura como instrumento de abrandamento da recessão.

(Os tecnocratas, com aquela história de sempre olhar a árvore e não a floresta, certamente julgarão “mais barato importar do que produzir aqui”...)

E é preciso ampliar o plantio, também, porque o país está sem estoques dos principais alimentos – e prevê-se que La Niña, a irmã do El Niño, vá provocar períodos de seca no Centro-Sul do país, neste final de ano, quebrando as colheitas nacionais. Além disso, como os preços já estão baixos nesta época de plantio, a simples oferta de crédito não será suficiente para motivar os agricultores a plantar: é preciso garantir que o governo voltará a comprar as colheitas – como no passado.

Isto é, antes de a equipe econômica do governo FHC-1 vir com a ladainha de “fim do paternalismo do governo em relação à agricultura” – que os países ricos recomendam a países tolos como o Brasil, enquanto fazem exatamente o contrário. Tempo de reagir.

Post-scriptum

PS - Esta coluna repete: a “bola da vez” são os EUA, que estão encerrando um ciclo de prosperidade criada à custa do “escancaramento do mercado” e conseqüente quebra de países como o Brasil. Entre outros sintomas claros de “virada”: em setembro, o índice de confiança do consumidor norte-americano e de seus “planos de comprar” recuou uns 10%. Ah, sim: a imprensa anda tão distraída com o pretenso terremoto nas Bolsas que não deu a mínima atenção para o fato de os preços do petróleo terem subido, em cinco ou seis semanas, de US$ 11 a US$ 12 para US$ 15 o barril. Uma recuperação que favorece os países abalados pela queda, no primeiro semestre, de suas receitas com o petróleo. Venezuela, México e Rússia, sobretudo.



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