Esperança para os bancos estatais - 31/07/98
Até o presidente FHC deve estar em dúvida sobre a decisão de privatizar os bancos estatais, e apostar na “competência” dos banqueiros privados. Dúvida, aliás, que brotou também entre os próprios organismos internacionais, como o Banco Mundial, que vêm impondo a política de “redução da presença do Estado na economia”, fazendo coro com o FMI e o governo dos EUA. As convicções privatizantes de FHC têm sofrido abalos sucessivos, com episódios recentes - que poderão ser devidamente utilizados pelas entidades sindicais para demonstrar, à opinião pública, o papel insubstituível que os bancos públicos devem desempenhar.
1- Exportações
Ao lançar o pacote de outubro de 1997, o governo criou um sistema para estimular os bancos a fornecerem financiamento também a micro e pequenas empresas que tentam a possibilidade de exportar. Trata-se de um “fundo de aval”, pelo qual o governo paga até 70% do empréstimo caso o empresário, no futuro, deixe de quitar a dívida. Os recursos são do próprio governo (BNDES), cabendo aos bancos privados repassá-los. Incrível, mas verdadeiro: seis meses depois, apenas três operações haviam sido feitas... Mesmo ficando com o “risco” de apenas 30% da operação, os bancos privados não se interessaram pela área. Os empresários continuaram sem crédito, o país sem os dólares (e os empregos, e os impostos) das exportações...
2.Exportação, ainda
Também o programa de financiamento a empresas médias, fornecedoras de peças e componentes para grandes indústrias exportadoras, fracassou. Segundo o ministro Mendonça de Barros, esse programa e o fundo não “pegaram”.
3.Agricultura
É ultraconhecida a resistência dos bancos privados em realizar empréstimos aos agricultores, utilizando toda a sorte de manobras (com a conivência do Banco Central) para driblar eventuais obrigações criadas pelo o governo. Mais de uma vez, publicamente, o presidente FHC lançou “apelos” aos banqueiros privados para que mudassem esse comportamento.
Mas o governo sabe que está chovendo no molhado, tanto que o plano de financiamento para a próxima safra (98/99) prevê que, do total de R$ 10 bilhões prometidos, nada menos de R$ 8 bilhões sairão do Banco do Brasil...
4- Emprego
Até junho último, o governo enfrentou outro fracasso: o Proger, programa para a criação de emprego e renda, não havia deslanchado. Exemplo: em São Paulo, de um total de 40 mil pedidos encaminhados pela Força Sindical (governista), apenas pouco mais de 100 haviam sido efetivados em empréstimos para a criação de microempresas... Agora, mais uma vez, o Banco do Brasil foi incumbido de uma “blitz” para agilizar o programa...
5 - O Banco Mundial
O vice-presidente do Banco Mundial, Josenh Siglizt, tomou a iniciativa de abrir o debate, entre os próprios defensores do chamado “neoliberalismo”, sobre erros cometidos nos últimos anos com base no famoso Consenso de Washington, fundamento daquela política. As principais críticas de Stiglitz foram transcritas pela Folha de S.Paulo em seu caderno Mais, do último dia cinco de agosto de 1998. Além de questionar a velocidade excessiva no processo de privatização, Stiglitz volta suas baterias contra os bancos privados e aponta que a crise no Japão, Coréia e Indonésia não se deve a erros dos governos locais, mas sim aos excessos cometidos pelos banqueiros e sistema financeiro em geral. Isto é, diz o vice-presidente do Banco Mundial, há falta de regulamentação, para o mercado, por parte dos governos. Um “excesso de liberdade”, preconizado pelos neoliberais, e pelo qual toda a sociedade está pagando.
São dados novos para o debate sobre a presença do Estado no mercado financeiro no Brasil.