Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 22 de outubro de 1981
"O povo não come PIB”. Com esta frase, as elites intelectuais condenaram, anos a fio, o "milagre econômico" brasileiro da época do governo Médici. De que adianta o crescimento do PIB, o crescimento da economia — argumentava-se —, se "a economia vai bem, mas o povo vai mal", se a concentração da renda aumenta, a miséria avança, a mortalidade infantil bate recordes, o País se endivida e perde a soberania ao ponto de aceitar acordos vergonhosos de que o Programa Nuclear é apenas o exemplo mais conhecido? Foi o que sempre as elites repetiram, com toda a razão — afinal reconhecida pelos mais renitentes defensores do "milagre", a ponto de, a partir do governo Geisel, até os documentos oficiais e as entidades empresariais passarem a condenar as distorções acumuladas à época do crescimento acelerado do PIB, da economia. Neste tragicômico pais chamado Brasil, porém, o artigo mais escasso não é o petróleo — é a coerência. Como rara é, também, a atitude racional diante dos fatos — principalmente os econômicos. De tempos em tempos desencadeiam-se movimentos emocionais em torno deste ou daquele tema, aos quais se aderem sem a menor cerimônia, defendendo-se hoje o que se criticava antes — e vice-versa. Nas últimas semanas, o debate econômico foi invadido pelas análises, previsões e contestações sobre a evolução do PIB, da economia nacional, este ano. Briga-se ridiculamente, pela imprensa, rádio e televisão, com figurões prevendo uma queda, contestados por outros figurões que acreditam em um aumento, de l% talvez, a que, indignados, outros figurões replicam que, nada disso, o crescimento vai ser de 0,999%. O terremoto nacional em torno do, ora veja, PIB, ameaça agora chegar ao paroxismo, desde que, no começo da semana, um porta-voz da FGV anunciou que talvez se faça uma revisão nas fórmulas para calcular o PIB, e talvez ele até acuse um crescimento. M-A-N-I-P-U-L-A-Ç-Ã-O!!!!!, é o brado de guerra contra a medida. Perda de tempo, de papel. Debate estéril, onde falta a única pergunta que deveria ser feita: o PIB, afinal, tem alguma importância para a sociedade brasileira, o povo brasileiro? Afinal, ao contrário do que se dizia, o povo come PIB? Desde já, pode-se afirmar que a queda do PIB não provoca, forçosamente, aumento do desemprego, nem impede a redistribuição da renda. É preciso começar, porém, analisando o próprio irrealismo dos cálculos do PIB: * O que é o PIB, afinal? — é a riqueza produzida por um país. num ano. É a renda nacional, representada pelo valor de todos os bens ou serviços produzidos dentro de um país. * Qual a base dos cálculos? — a cada cinco anos, o IBGE faz o seu Censo Econômico, no qual indústrias, agricultores, comerciantes, bancos, todas as áreas econômicas, enfim, preenchem questionários declarando seu "faturamento", sua renda anual. Somando todos os dados obtidos (na verdade, fazendo também extrapolações sobre eles), o IBGE fica sabendo a "renda" dos diversos setores, e qual a contribuição que cada um deles dá para a formação da renda nacional. Num exemplo simples: suponha-se que o IBGE apure um "faturamento" igual a 1.000, para o setor industrial como um todo, e, dentro dele, a indústria automobilística contribua com um faturamento de 300. Logicamente, a "participação" — e o "peso" — da indústria automobilística no setor industrial será de 30% (porque 300 equivalem a 30% de 1.000). * Como os cálculos são feitos? — os dados do IBGE representam um verdadeiro "raio X" da economia brasileira, mostrando quanto cada setor pesa, na formação da renda. Isto é. do PIB do País. A Fundação Getúlio Vargas usa esse diagnóstico para calcular, todos os anos, quanto o PIB cresceu — ou eventualmente caiu. Assim, por exemplo, se o valor da produção de automóveis crescer 10% em um ano. e se o setor pesar 30% no cálculo do "PIB da Indústria", o setor contribuirá com 3% para o aumento do PIB do setor industrial. * Quais os critérios atuais? — hoje, nos cálculos do PIB, a indústria tem um peso de 37%, os serviços (transportes, bancos, publicidade, comércio, educação, saúde etc) um peso de 53%, e a agricultura de apenas 10%. Isto significa, por exemplo, que se a agricultura tiver um crescimento de 10% em sua renda, no valor da sua produção, num ano, ela contribuirá com apenas 1% (isto é, 10% de 10%) para o crescimento do PIB. Em contrapartida, a indústria, com um peso muito maior (37%), se cair apenas 3%, reduzirá o PIB em 1,11% (isto é, 3% de 37%). * Os critérios são corretos? — não. Estão superados, e devem realmente ser mudados, pois impedem que o País avalie corretamente o que está acontecendo dentro da economia. Por quê? Acontece que só no final do ano passado o IBGE começou a divulgar os resultados do Censo Econômico de 75 (isto é, de seis anos atrás). Até hoje, portanto, os cálculos do PIB são baseados no Censo Econômico de 70, isto é, no "diagnóstico" do que existia há dez anos atrás. Lógico que o cálculo do PIB, é, hoje, absolutamente irreal, pois se baseia numa economia que existia há dez anos: de lá para cá, houve setores que cresceram aceleradamente. Isto é, aumentaram seu peso dentro da economia, e vice-versa. Quer dizer: hoje, a indústria automobilística, embora tenha crescido ao longo dos anos, tem um peso menor no setor industrial como um todo porque houve saltos no valor da produção de máquinas e equipamentos, produtos petroquímicos, metais não-ferrosos, aço, fertilizantes etc. Os "pesos" estabelecidos a partir do "diagnóstico" de 70 já não correspondem à realidade — e eles, ao serem usados nos cálculos do PIB, distorcem todo o valor apurado.