Jornal Diário Popular , domingo 7 de maio de 2000
Porque o real está em queda outra vez, com uma alta de mais de 5% para o dólar no mês de abril, e as taxas de juros voltam a disparar, obrigando o governo a pagar 22% aos compradores de seus títulos (papagaios), ou 4% acima dos níveis de duas semanas atrás? O Brasil está às portas de uma nova crise do real, como aconteceu no começo do ano passado, com agravamento ainda maior da recessão e do desemprego? A resposta é simples: nunca houve a pretensa estabilidade do real e perspectiva de recuperação da economia, apregoada pelo governo e seus adeptos. Você mesmo pode fazer umas continhas para constatar que o Brasil caiu em uma armadilha, com a política econômica do governo FHC/Malan/Fraga sob as ordens do FMI/Clinton/países ricos, e que o risco de explosão é permanente. Olhe o beco sem saída da economia:
“Rombo”- Pelo acordo com o FMI, o governo foi obrigado a cortar verbas, aumentar impostos, congelar salários do funcionalismo, garfar dinheiro dos aposentados. Tudo para conseguir um saldo positivo, ou superávit, em suas finanças. É o chamado “ajuste fiscal”, como você sabe. Com todo esse “massacre” contra a população, o governo FHC vem conseguindo “economizar” uns R$ 30 bilhões por ano. Juros - Essa economia de R$ 30 bilhões, porém, não resolve nada. Ela é a diferença positiva apenas entre as despesas e receitas “normais” do governo. Mas nessa conta não está incluída uma despesa gigantesca, a saber, os juros sobre a dívida em títulos (“papagaios”) do governo. Essa dívida era de R$ 60 bilhões no começo do governo FHC, em 1995. Hoje, está em R$ 470 bilhões, ou, praticamente, R$ 0,5 trilhão, carregando juros equivalentes a R$ 94 bilhões por ano, se as taxas ficarem em 20%. Então, preste atenção: o governo economiza R$ 30 bilhões por ano, em todas as áreas, mas enfrenta um rombo de R$ 94 bilhões em juros. Faça as contas. Fica um buraco final de R$ 64 bilhões, que o governo não tem como pagar. O que ele faz? Emite novos “papagaios”, que são vendidos a banqueiros e investidores, para usar o dinheiro no pagamento dos juros.
Bola de neve - É claro que o governo não está pagando nada, está aumentando sua dívida com “papagaios”, mês a mês, em uma autêntica bola de neve.
Por isso a dívida cresceu mais de sete vezes em cinco anos. A mesma coisa que acontece, por exemplo, com famílias que caem nas mãos de agiotas.
A armadilha - Qualquer criança é capaz de entender que, com essas taxas de juros, o Brasil está apenas afundando, não tem saída. Por que o governo FHC não muda a política? Porque ele criou outro “rombo”, em dólares, nas relações do Brasil com o resto do mundo, e precisa atrair bilhões e bilhões de dólares, por ano, para cumprir esses compromissos. O Brasil está em uma armadilha da qual só sairá com decisões radicais, que significariam um rompimento temporário com o FMI e banqueiros internacionais. Rússia, Malásia e Coréia (menos radicalmente) fizeram isso. Já saíram do buraco, sem entregar suas economias aos países ricos.