Jornal Diário Popular , quarta-feira 10 de maio de 2000
A inflação ficou negativa, abaixo de zero, nos primeiros dias de maio, segundo a Fundação Getúlio Vargas. As exportações tiveram valor superior às importações, isto é, houve um saldo positivo na balança comercial, no mesmo período. E a produção de automóveis chegou a 137 mil unidades em abril, ainda longe dos 173 mil dos idos de 1998, mas (pelo menos) estabilizada em relação a março e fevereiro. Razões para comemorar? A economia está finalmente entrando nos eixos? Infelizmente, a resposta é negativa: continua a haver necessidade de mudanças urgentes na política econômica:
Inflação — a taxa negativa, ou deflação, é retrato da ‘‘paradeira’’, crise, na economia, que está derrubando cada vez mais os preços, provocando prejuízos, ampliando o desemprego, como você poderá comprovar nos exemplos que vêm a seguir. Agricultura — os agricultores estão vendendo suas colheitas de arroz, feijão, batata, ou sua produção de frango (recorde de queda) a preços baixíssimos. Os índices de inflação de abril foram puxados para baixo pelo custo dos alimentos. Na primeira semana de maio, eles continuaram a cair para os produtores.
Automóveis — as vendas dos revendedores em todo o País caíram outros 4% em abril (após recuarem até 25% em março, em São Paulo). Gasolina — no ano passado, o consumo de combustíveis caiu 10%, fato inédito no Brasil, porque a população, com seu poder aquisitivo achatado, não conseguiu absorver a alta de preços provocada pela disparada internacional do petróleo. A queda prossegue este ano, com novo recuo na faixa dos 3% sobre os níveis já baixos de 1999.
Exportações — o Brasil precisa obter uma ‘‘sobra’’ de dólares na balança comercial (exportações menos importações) para pagar ao menos uma parte de seus compromissos com os banqueiros e investidores internacionais, e que chegam a nada menos de US$ 50 bilhões este ano, como esta coluna apontou ontem. No ano passado, o governo previa que esse saldo positivo chegaria a US$ 11 bilhões. Errou redondamente: houve um saldo negativo de US$ 1,2 bilhão. Neste ano, a previsão era de um saldo positivo de US$ 5 bilhões. Até abril, entre saldos positivos e negativos a cada mês, restaram menos de US$ 200 milhões em caixa. Agora, na primeira semana de maio, houve um resultado positivo, embora ainda modesto, de US$ 80 milhões. Chegou finalmente a hora da ‘‘virada’’?
O problema é exatamente esse. O Brasil precisava ter entrado em um processo de crescimento contínuo de conquista de novos mercados e aumento dia a dia das exportações, para obter dólares. E, ao mesmo tempo, cortar progressivamente as importações de matérias-primas, peças, componentes, substituindo-as por similares produzidos aqui dentro.
Isso não está acontecendo. As exportações de manufaturados caíram 15% na comparação de maio com abril. As importações cresceram 5% sobre 1999. E, ironia das ironias, o resultado negativo das exportações seria ainda pior, se não fosse uma venda totalmente inesperada. Qual? Houve aumento de 230% nas exportações de combustíveis, isto é, gasolina e semelhantes que sobraram aqui dentro, por causa da recessão... Nada a comemorar.