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  Uma proveitosa discussão sobre o futuro econômico

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 12 de agosto de 1982


Todos num velório, fingindo que, no melo da sala, não existe um morto à espera do enterro. Foi essa a estranha sensação deixada pelos debates entre o ex-ministro Mário Henrique Simonsen, o economista João Manoel Cardoso de Melo e os empresários Abílio Diniz, diretor-supeintendente do Grupo Pão de Açúcar, e Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, no programa "Crítica e Autocrítica" de anteontem à noite.

Reforçando as interpretações de que houve, nas últimas semanas, um ’’pacto" na área oficial e empesarial para interromper as críticas à atual política econômica e seus responsáveis, os debatedores conversaram — proveitosamente, diga-se desde já — sobre o "futuro do País" e sobre as mudanças de que o País necessita. Nenhuma referenda a erros, mas a problemas. Nenhuma crítica a diretrizes, mas propostas para "quando o futuro chegar". Durante todo o tempo, o morto, Isto è, o modelo econômico brasileiro, foi solenemente ignorado, da mesma forma que se silenciou sobre os responsáveis por elo.Ou sobre quem deverá modifi cá-lo. Tudo, como se o País tivesse que viver mais alguns meses no mesmo ritmo atual, ate que o futuro chegue. Isto é, o morto possa ser enterrado.

Sempre nesse diapasão, e talvez por causa dele mesmo, o programa deixou claro que é crescente o consenso em torno da necessidade de mudanças radicais para o País superar a crise cambeal e a Inflação. Mais positivo ainda: pequenas divergências em tomo da "distribuição dos sacrifícios" — que virão, na opinão unanimo dos debatedores, perdem o significado diante da opinião quase unânime do que a nova política só terá êxito se tiver o apoio da sociedade — o que pressupõe ouvi-la e atende-la, no estabelecimento de diretrizes e prioridades.

Nesse sentido, a hábil situação do economista João Manoel Cardoso de Melo, e a firme defesa da atual polítIca salarial por parte do empresário AbílIo Dinoz, levaram o ex-ministro Simonsen a detalhar, com precisão a sua proposta para reduzir a Inflação "de 100% para a casa dos 40%". Repetindo que, para ele, os reajustes salariais semestrais — e acima do INPC, para os trabalhadores de baixa renda — são Inflacionários, Simonsen esclareceu que não pretende que os trabalhadores arquem sozinhos com o Ônus da nova política econômica. O mesmo tratamento dispensado aos trabalhadores — com reajustes anuais de salários — deveria ser estendido aos demais segmentos da sociedade e da economia: também no mercado financeiro a Indexação seria anual, idem para os aluguéis e reajustes de preços. Revendo, aparentemente, as posições que tem defendido, Simonsen foi mais longe e admitiu ainda que o atual nível dos Juros, no BrasIl, "Inviabiliza qualquer economia", revelando-se, indiretamente, adepto de sua redução.

Exatamente no fecho do programa, quando foi levantada uma questão sobre a qual parece haver consenso nacional, surgiu uma voz discordante. A crença de que, após as eleições de 1S de novembro, a sociedade brasileira tern melhores condições para unir-se em tomo de um novo programa econômico, assumindo os sacrifícios deles decorrentes, o que explica o adiamento do "enterro" do modelo atual — foi reafirmada por SImonsen. Diniz e Cardoso de Melo. Apenas Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho não defendo o mesmo ponto do vista: para elo, o "aperto do cintos" virá de qualquer jeito, porque a gravidade da situação assim o exige. "As mudanças independem" do apoio ou co-validação da sociedade, afirmou, sem tempo para explicar-se, nessa sua análise, estão avaliados os riscos do agravamento das tensões sociais. E possível revide oficial. (A.B.)



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