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  A Vale, os newcucarachos e a falta de brio

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 6 de fevereiro de 1997


Fechado o diagnóstico, o médico proclama a necessidade de amputar a mão do paciente. Combina-se a cirurgia. Mas o médico resolve "ganhar dinheiro" e realiza cirurgias sucessivas, extirpando um dedo de cada vez e, finalmente, o coto da mão – cobrando uma pequena fortuna a cada uma dessas intervenções.

Qual o adjetivo que esse comportamento mereceria? Qual a atitude das entidades médicas incumbidas de zelar pela ética profissional? Esse médico mereceria tratar de outros clientes?

O exemplo é mórbido. Mas exemplos chocantes podem ajudar a opinião pública a avaliar as manobras e a falta de pudor que vêm marcando a projetada privatização da Vale do Rio Doce. Qual é o paralelo?

Desprezando mais uma vez as empresas nacionais de auditoria e consultoria, a equipe FHC contratou multinacionais para "avaliar" o preço da Vale do Rio Doce e propor "modelos" de privatização para ela.

Proposta de "consultora internacional" prevê que a Vale deve ser "esquartejada", isto é, dividida em várias empresas: uma para a área de mineração, outra para cuidar de exportação, outra para o sistema de transportes ferroviários etc.

O que levou a multinacional a propor tal coisa? Critérios científicos, que fariam a Vale (se privatizada) obter o melhor preço ou funcionar melhor? Não. Conforme informações surgidas na imprensa, a "consultoria" agia como no (mórbido) exemplo médico: o objetivo foi aumentar seus ganhos.

Como assim? Ela deve ganhar um "x" sobre o projeto de venda de cada empresa resultante do "esquartejamento", como na extirpação de dedo por dedo. Daí...

Isso é comportamento profissional? Ético? Essa "consultora" merece algum respeito? Ou, como no caso do médico, deveria ter seu nome inscrito nas páginas policiais?

Neste país de newcucarachos, de cabeça colonizada, a notícia não provocou nenhuma reação. Nem mesmo de empresas nacionais de consultoria e auditoria, que estão sendo destruídas pela política de "preferência" às multinacionais, a pretexto de que elas são "eficientes" – como tudo que vem do exterior para a visão caolha dos newcucarachos.

Ainda e sempre

A mesma repulsiva idolatria pela metrópole levou o governo FHC a anunciar que vai trazer um "consultor" norte-americano para avaliar as novas jazidas de ouro da Vale. Uma iniciativa que é outro atestado de incompetência e subdesenvolvimento conferido aos técnicos brasileiros de qualquer profissão pela equipe FHC.

O Brasil precisa dessa "assessoria"? Ora, a Vale do Rio Doce mantém há décadas uma subsidiária, a Docegeo, que estudou todo o subsolo brasileiro. Fez descobertas de minérios em todo o território nacional. Em nome do que, então, se importa um "técnico internacional?"

Tem mais: multinacionais e seus técnicos têm métodos de pesquisas adequados aos países em que atuaram, mas inadequados ao Brasil _e por isso podem cometer erros monumentais, prejudiciais ao país. Um exemplo? Há décadas sabia-se da existência de fosfato em Patos de Minas. Mas as jazidas eram consideradas inaproveitáveis, porque tinham baixo teor de minério (isto é, gastavam-se fortunas para remover toneladas de terra e obter poucos quilos de fosfato, que, por isso mesmo, ficava com um preço exageradamente alto). O Brasil tinha as jazidas, mas continuava a importar, gastar dólares, em fosfato.

Em meados da década de 70, o governo brasileiro confiou à Vale o desenvolvimento de métodos para aproveitar o fosfato de Minas. Ela conseguiu.

Qual o segredo? As múltis que tinham tentado explorar a jazida antes usavam métodos aplicados em outros países – inadequados (por diferença de solo etc.) ao fosfato de Minas.

Os deformadores de opinião dizem hoje que é preciso privatizar a Vale, entre outros motivos, para "absorver" tecnologia, inclusive estrangeira. Amnésia? Ignorância? Ou má-fé e falta de brio?

O "caso" do fosfato de Patos destrói outros argumentos mentirosos que têm sido usados para justificar a venda da Vale.

Primeiro: a empresa, com suas pesquisas, sempre teve, sim, um papel estratégico na definição da política mineral brasileira.

Segundo: o país precisa, sim, de uma empresa cujos interesses coincidam com os interesses do país, busque soluções das quais o país precisa _caso em que as multinacionais não se enquadram.

Terceiro: a independência tecnológica é uma necessidade eterna. Por mais que o "mundo mude".



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