Revista Adunicamp, Novembro de 1999
O jornalista Aloysio Biondi tem sido um dos raros profissionais especializados em economia com notória independência crítica, principalmente — nos últimos cinco anos — em relação ao modelo neoliberal globalizante e ao seu executor no Brasil, o governo do presidente-sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Com mais de 40 anos de jornalismo, Biondi foi secretário de redação da Folha de S. Paulo e da Gazeta Mercantil, diretor do Jornal do Comércio (RJ) e do DCI, editor de economia das revistas Veja e Visão e colaborador de inúmeras publicações por todo o país. Atualmente, além de escrever reportagens e artigos para jornais e revistas especializados e de sindicatos, mantém colunas no Diário Popular e na revista Bundas e leciona jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Seu livro “O Brasil privatizado — Um balanço do desmonte do Estado”, lançado em maio deste ano pela Editora Fundação Perseu Abramo, vendeu, até setembro, mais de 120 mil exemplares — um recorde absoluto em publicações de economia. Nesta entrevista, Aloysio Biondi demonstra com dados, informações e uma análise incontestável que o governo Fernando Henrique Cardoso quebrou o Brasil, colocou o País numa vergonhosa situação de dependência externa e está causando os mais variados estragos econômicos, sociais e humanos.
adunicamp - O novo Plano Plurianual de FHC, denominado “Avança Brasil”, mantém as mesmas diretrizes do primeiro governo ou apresenta alguma novidade?
Aloysio Biondi: Acho bobagem falar do plano “Avança Brasil”, acho melhor falar da política econômica total do governo que aí está. A gente vai acabar falando de política tributária que não existe, de política industrial que não existe, de política agrícola que não existe. Recentemente, os jornais publicaram um quadro sobre a liberação de verbas do governo em relação ao total previsto e, então, tem lá: reforma agrária, 25% do previsto; Proger, que é um programa de geração de renda, 0,5% do previsto. Essa história das cestas básicas, por exemplo, já em abril, num artigo meu publicado na Folha, eu falava sobre uma reunião que houve no Palácio do Planalto entre o Comunidade Solidária e todos os ministros, o Fernando Henrique anunciou um aumento de verba para a área social que continuava sendo absolutamente ridículo. A Folha tinha publicado, semanas antes, uma matéria dizendo que a seca aumentou a mortalidade no Nordeste. O texto dizia que a mortalidade infantil no sertão tinha chegado a 400 mortes para cada mil crianças até um ano, que era o dobro do recorde mundial registrado na pior região da África. Na matéria, a prefeita de uma cidade dizia que a situação era dramática porque a população não estava recebendo as cestas básicas e os pagamentos das frentes de trabalho estavam atrasados há três meses. Quer dizer, o que estava matando não era a seca, mas o corte no orçamento, o ajuste fiscal. Isso lembra o que dizia o Fernão Bacha no início do governo Fernando Henrique: ele falava que era bobagem ficar discutindo verbas com o Congresso, que o negócio era deixar aprovar o que quiserem, depois a gente segura. E ele dizia: basta fechar os olhos e tapar os ouvidos à gritaria e à desgraceira ao redor, que é o que esse governo está fazendo.
adunicamp - E o assunto sumiu do noticiário.
Aloysio Biondi: Eu digo que a imprensa é cúmplice no genocídio, porque isso está acontecendo, as pessoas estão morrendo de fome no Nordeste, a seca jamais acabou, o governo reduziu as frentes de trabalho a um quarto, a verba de cestas básicas foi liberada apenas um quarto do previsto (25%). Inclusive saiu nos jornais que o pagamento de quem trabalhou nas frentes de trabalho em dezembro ainda não tinha sido pago até julho. Quer dizer, é a primeira vez que eu vejo um governo ter a coragem de dar calote no flagelado da seca que trabalhou em frente de trabalho.
adunicamp - A área social tem sido um embuste total? E quais são os outros nós desse modelo econômico no momento?
Aloysio Biondi: Tem sido um embuste total. Vamos falar de política industrial. O governo dizia que não tinha importância a redução do poder aquisitivo do povo brasileiro. E como se pode falar em recuperação da economia agora no segundo semestre, se existe desemprego de 20% nas regiões metropolitanas, aumento de oito reais no salário mínimo, funcionalismo público com salário achatado há cinco anos, queda da renda agrícola porque todo mundo ficou dizendo que a maxidesvalo-rização do real iria aumentar a renda agrícola, mas todo mundo tinha comprado insumo em dólar, mais a queda das cotações, mais a queda dos preços internacionais. O governo e as entidades ‘capachildas’, como a Fiesp, diziam que o país estava num outro ciclo e que a expansão da economia seria puxada pelos setores de infra-estrutura por causa dos investimentos em telecomunicações, energia, ferrovias etc. Só que, na verdade, as empresas multinacionais importam tudo. Há briga ainda na telefonia. Esses setores de fornecimento de material de telecomunicações e elétrico, até julho, caíram 14%; então, a indústria, que já tinha caído 25% máquinas e equipamentos, até julho, tinham caído mais 24%.
adunicamp - É a política de substituição das importações ao contrário?
Aloysio Biondi: É exatamente isso. No caso do petróleo, a pontuação para você conseguir uma área levava em conta tanto o preço oferecido ao governo como o compromisso de comprar o material nacional. A Petrobrás se dispôs a comprar de 45 a 60%; para as multinacionais é de 5 a 15%, quer dizer, vão importar de novo de 85 a 95%. Energia foi a mesma coisa, a Light importou até medidor de luz, do Peru, numa operação triangular.
adunicamp - A desnacionalização provoca uma queda de renda fantástica?
Aloysio Biondi: A desnacionalização seria a verdadeira resposta para a sua pergunta sobre os nós do modelo. Veja bem quando o real despencou, até alguns economistas de esquerda disseram que agora vai dar uma resolvida, porque as exportações vão subir.
adunicamp - E por que as exportações não cresceram?
Aloysio Biondi: Na época, eu escrevi que as exportações não iam crescer nem as importações iam cair como se previa. Por quê? A desnaciona-lização da economia comprometeu não só presente como o nosso futuro. Quer dizer, nós voltamos à situação da década de 50, quando a gente tinha um estrangulamento cambial estrutural. Por que eu disse que as importações não iam cair? Pelas entrevistas dos diretores das multinacionais deu para descobrir que até celular é importado 100%, tirando a Motorola que importa 95%. Quando se fala em peça nacional está-se falando da cadeia de produção inteira, é peça, é o aço, o plástico, o alumínio, a fiação, é tudo. Para você ter uma idéia, a fogões Dako, que foi comprada por uma multinacional, importa agora até o fogãozinho popular em 100%, ele é apenas montado aqui. Então era óbvio que a simples desvalorização do real não ia resolver nada num país com economia desnacionalizada, porque a gente está cansado de saber que a multinacional, a política de exportação e importação dela é estabelecida pela matriz.
adunicamp - As decisões são tomadas lá fora?
Aloysio Biondi: As fábricas daqui, da Argentina, do México foram instaladas de acordo com a estratégia global de cada multinacional: as fábricas do México vão exportar para a África, as do Brasil vão exportar para a Argentina e as da Argentina vão exportar para o Brasil. Tanto que a exportação brasileira de carros caiu uns 40% nos seis primeiros meses deste ano. Por quê? Porque os mercados (acho importante explicar isso mastigadinho) estão reservados. As fábricas daqui foram instaladas para exportar para a América Latina, tirando a Fiat que desde o começo ficou de exportar para a Europa também. A Argentina está com problemas, a Venezuela, grande compradora da Mercedes e da GM, teve um abalo com a crise do petróleo, mas pode reagir no ano que vem na compra de carros devido a alta do petróleo. Se é uma empresa nacional, com a desvalorização da moeda, o produto dela fica mais barato para exportar, o empresário nacional vê uma oportunidade de negócios, ele sai correndo para exportar; mas, com as multinacionais, com a mesma desvalorização não acontece nada, elas continuam a importar de onde a matriz manda comprar, então a desvalorização não tem o menor efeito. A matriz não autoriza uma fi-lial a vender para quem quiser. Enquanto a exportação de carros do Brasil caiu 40%, a exportação de carros da Coréia para os Estados Unidos subiu 25%. Por quê? Porque as empresas coreanas são coreanas e, com a desvalorização da moeda, deu oportunidade de fazer negócio, ela vai vender.
adunicamp - Essa mesma situação existe em todos os setores que poderiam puxar a economia?
Aloysio Biondi: Todos os setores. Então, a desna-cionalização transformou em verdade uma coisa que era um slogan de esquerda, o negócio da soberania nacional, o país não tem mais soberania. Temos um exemplo prático: não adianta um governo, que teoricamente governa, tomar uma medida de política econômica como a desvalorização para resolver o seu desequilíbrio de dólares, porque essa política tem sido ignorada completamente pela multinacional, então a decisão do governo cai no vazio. As duas principais heranças do governo Fernando Henrique são: uma é a destruição da alma nacional, porque ele conseguiu destruir o país, destruir a solidariedade, conseguiu jogar um segmento da população contra outro; e outra, nós voltamos à década de 50 porque nós passamos a ter uma dependência total do exterior, e temos um estrangulamento na área cambial agora que não se resolve só com a tomada de decisões do governo brasileiro. Além das importações e exportações, uma coisa que é grave (a Folha publicou uma matéria a respeito) é a situação da remessa de lucros e dividendos, que em 1993 estava na casa dos 600 a 700 milhões de dólares por ano e ela pulou para 7 bilhões. Ou seja, ela cresceu 10 vezes em poucos anos. Veja bem, esse número é assustador porque, como nós estamos em recessão, o lucro das multinacionais tem sido menor, o que significa que a remessa provavelmente vai dobrar. A assistência técnica, que é a compra de tecnologia, também passou de 170 milhões para 1,7 bilhão de dólares. Isso sempre foi remessa disfarçada de lucros. O mais grave ainda, recentemente o Rogério Cerqueira Leite escreveu sobre isso, essa compra de tecnologia lá fora passou a ser enquadrada, por medida do governo, como sendo estímulo para a criação de tecnologia nacional e, portanto, sujeita à isenção do imposto de renda. Ou seja, as multinacionais não pagam imposto de renda das remessas feitas como sendo absorção de tecnologia. Quer dizer, nós realmente terminamos encalacrados.
adunicamp - Isso tudo representa uma sangria...
Aloysio Biondi: Uma sangria permanente como era no passado, difícil de reverter.
adunicamp - Difícil também para o povo brasileiro ficar pagando...
Aloysio Biondi: Aí é que está. Eu tenho repetido que nós vivemos uma grande farsa desde março: a grande farsa da recuperação da credibilidade externa (hoje o dólar está R$1,95) e da possibilidade de reação no segundo semestre — o segundo semestre como é que iria reagir em função da destruição do poder aquisitivo e em função da desnacionalização, das importações maciças desses setores que deveriam estar comprando aqui. Porque é claro, se o país tem um plano de investimentos em telefonia, energia, petróleo, ferrovia, eles podem ser os motores novos da economia, mas se eles são meros alimentadores de importação não são motores de nada e, ao contrário, estão agravando o problema cambial.
adunicamp - Quer dizer, aumenta a balança mas não a produção interna?
Aloysio Biondi: Aumenta o rombo da balança e, portanto, compromete a capacidade de pagar. O pior é que o governo manipula as estatísticas: em abril, numa entrevista para a Gazeta Mercantil, um diretor do Banco Central dizia que as amortizações (pagamento da dívida externa), este ano, tinham um erro, não eram de 25 milhões, mas de 35 milhões. Um errinho de 10 milhões. Agora o governo está querendo tranqüilizar o mercado, está dizendo que no ano que vem as amortizações seriam só de 22 milhões. Aí eles falam assim: o acordo previa 25 este ano, depois o cara corrigiu e falou em 35, agora o governo fala que o ano que vem é só 22, é muito menos que os 47 deste ano. Quer dizer, no acordo eles jogaram 25, depois disseram que era 35, agora, como quem não quer nada, para falar que o ano que vem é só 22, eles falam que esse ano é 47, só que ninguém se lembra que eles falaram que era 35 e que antes era 25.
adunicamp - Esse governo manipula o tempo todo?
Aloysio Biondi: Exato. O negócio da credibilidade externa sempre foi uma grande mentira. Basta pegar os dados que saíram em julho sobre o balanço de pagamentos de maio. Em maio do ano passado, para pegar empréstimo lá fora, o Brasil e as empresas brasileiras pagavam os juros do tesouro americano, que dava 4,5%, mais a sobretaxa pelo risco de 3,7%, o que dava 8,2%. Em maio deste ano, depois que eles disseram que o Brasil tinha recuperado a credibilidade, o Brasil estava pagando, além da taxa de juro do tesouro americano, uma sobretaxa de risco de 7,5%. Tinha dobrado em um ano. E já tem empréstimos sendo feitos com taxa de risco de 11,5%. O país está pagando, no total, uma taxa de 14% ou 15% de juro internacional ao ano, o que é um absurdo e mostra que não existe credibilidade. O que mostra que não existe credibilidade, também, é que os empréstimos dos bancos às empresas brasileiras foram de 3,5 bilhões de dólares, no primeiro semestre deste ano, cinco vezes menos do que os 17,5 do ano passado. Essa questão da credibilidade é conversa. Os banqueiros não só triplicaram a taxa de risco como reduziram os empréstimos, ou as empresas, diante da taxa imposta e do risco cambial, se viraram para conseguir o dinheiro aqui dentro, provavelmente do próprio governo. E tem um dado, que só uma sociedade alienada não bota na cabeça: o governo federal está gastando oito a dez bilhões de dólares de juros por mês. O orçamento inteiro da União, tirando a previdência, é de 120 bilhões por ano, ou de 10 bilhões por mês. Então, o governo não paga, ele está emitindo novos papagaios, o mercado não quer mais, então é obrigado a lançar título cambial, só que é o mesmo esquema que quebrou o México, é título com correção cambial mais 16% de juros. Você acha que os credores internacionais não fazem essas contas, você acha que eles não sabem que a dívida externa, está em 230 bilhões e que a dívida interna está em quase 500 bilhões de dólares. Por isso, inclusive o próprio FMI tem dito para o Brasil não emitir títulos cambiais.
adunicamp - O Brasil está quebrado. Então, o que pode ser feito?
Aloysio Biondi: O Brasil precisa gerar dólares. Não é só o problema da amortização e dos juros, o problema é que se criou os chamados canais de sucção para todo o sempre, via remessa de lucros, de dividendos, assistência técnica etc. Então tem que gerar superávit ou com investimentos diretos ou aumentar a exportação. Quer dizer, aumentar a exportação na área industrial não vai acontecer. Depois da crise do petróleo, a questão da exportação incluía ação do governo. Por exemplo, a Nigéria tinha petróleo, o governo brasileiro fazia um acordo com o governo nigeriano para fornecer 40 mil carros brasileiros; a mesma coisa foi feita com o Iraque. O Brasil tinha o Lloyde abrindo as tais linhas pioneiras, tinha uma política comercial, tinha a Interbrás, que era cliente da Petrobrás, então, com isso, as pequenas e médias empresas brasileiras começaram a exportar. Se você olhar os eletrodomésticos brasileiros da época era tudo de firma brasileira, era Wallita, Arno, Gradiente. Nós não estamos fazendo nenhum esforço nesse sentido.
adunicamp - Não tem nenhum setor para puxar a exportação industrial brasileira?
Aloysio Biondi: Não tem, não tem. Então, o que existe é uma farsa. A dívida mobiliária está em torno de 420 bilhões de dólares. Com essa taxa de juros de 20% ao ano, isso dá 84 bilhões, mais a dívida nova que é o juro que não se consegue pagar e que é jogado em cima, mais 30% de títulos em dólares, que de janeiro para cá deram um prejuízo de 34 bilhões para o governo.
adunicamp - E qual é o prazo para que essa situação possa ser contornada?
Aloysio Biondi: Não tem prazo. O governo não tem nada mais prazo. Os bancos não voltaram, e para os bancos nós continuamos quebrados. Aliás, no mês passado o Estadão deu uma notinha dizendo que o Bhering mandou vender os títulos brasileiros. É o mesmo banco que no começo do ano estava mandando comprar esses títulos. Por quê? Qualquer chefe de família sabe que se o governo arrecada 12 por mês, paga nove de juros, sobram três para todo o resto, e a gente precisa de oito para todo o resto; então, todo mês ele está jogando cinco, seis, sete, em cima da dívida que está grande, acumulando a cada mês — tanto a gente está quebrado que o dólar já subiu de novo. Você pode perguntar: mas quando vai ser igual a janeiro? Janeiro, a gente sabia que estava quebrado desde maio de 98, quando o cara do FMI disse que era preciso o ajuste, mas que era preciso esperar a eleição. Em setembro de 98, começou aquela fuga acelerada de dólares no Brasil, aí o FMI entra, mas chega em janeiro não segura mais. Agora é a mesma coisa.
adunicamp - Você se lembra de alguma meta ou alguma previsão do atual governo que tenha dado certo?
Aloysio Biondi: Não, nenhuma. Tanto o negócio com o FMI é uma farsa que ele sempre exigiu equilíbrio da balança comercial. Primeiro, o governo falsificou os parâmetros da balança comercial, dizendo que ia ser de 11 milhões o saldo positivo. Segundo, pelo jeito também falsificou nas amortizações, porque era 25, depois 35, e era 47. Por quê? Porque quando chegasse para os banqueiros e dissesse: olha, o Brasil vai ter que amortizar 47, vai ter um buraco de um na balança, vai pagar 16 de juros, não conseguiria novos empréstimos. Então, mostra números em que cai pela metade a necessidade de ajuda. É isso, falseia para não assustar completa-mente.
adunicamp - É possível gerar 8,5 milhões de empregos nos próximos quatro anos como está previsto no plano “Avança Brasil”?
Aloysio Biondi: Com essa política não vai ter exportações, as importações não vão cair, o Brasil vai continuar exportando emprego, a agricultura — isso dito pelo José Roberto Mendonça de Barros —, o governo disse que emprestou 8,5 bilhões para a agricultura o ano passado (por trás de todo número tem uma mentira), o José Roberto diz que não emprestou essa quantia, emprestou 1,5 bilhão, porque 7 bilhões foi a dívida que não foi paga e foi lançado como crédito à disposição do agricultor, pois se considerou como se fosse dinheiro liberado, mas para plantar, no duro, foi liberado 1 bilhão e meio só. Não se mudou nada, nos dados mais recentes está demonstrado que nem o Pronaf nem o Proger tinham algo liberado até agosto. Então, como é que se sai dessa, como se reduz o rombo, tem que reduzir essa taxa de juro de 20% em cima de uma dívida que caminha para meio trilhão de dólares. Esse negócio dos aposentados é ridículo, são 2,3 bilhões por ano, prejudicando centenas de milhares de famílias de aposentados, reduzindo o poder aquisitivo, provocando mais reces-são, o que é gasto em menos de uma semana em juros. Não tem discussão, tem que resolver essa taxa de juros. O FMI não concorda, então controle das importações das multinacionais tem que ter. O FMI não concorda, então temos que elogiar a Malásia que fez isso, o Japão também, a China também e a Coréia também. Nós temos que partir do pressuposto seguinte: estamos vivendo uma farsa, é completamente inviável, voltamos a uma situação de dependência, esses juros (não é a dívida) são impagáveis.
adunicamp - Com a atual equipe econômica não há perspectivas de alteração?
Aloysio Biondi: Não há. Com esse governo não há mudança. Inclusive essa briga do Tapias com o Malan, desenvolvimento versus mone-tarismo, é uma piada. A voz dissonante que está aí desde o começo é o Everardo Maciel. Se esse país estivesse acordado, teria escutado o que ele disse na CPI do Senado: metade dos grandes bancos não paga imposto. E diz a coisa mais grave ainda, que eu não sabia, que o ágio pago pelas empresas privatizadas é devolvido. Não sei desde quando acontece isso, se é retroativo e em quais privatizações isso vigorou. Mas isso tudo é muito grave.
adunicamp - É possível calcular todo o estrago que esse governo já causou ao país?
Aloysio Biondi: A dívida interna era de 60 bilhões e passou para meio trilhão de dólares. Tinha saldo positivo na balança comercial de uns 12 bilhões, foi para um buraco de seis bilhões. Tem uma perda de patrimônio que eu nunca calculei. Por exemplo, a Telebrás valia 120 milhões, os 22 milhões (preço de venda) eram relativos a participação da União, mas se vendeu um negócio. No campo social, o prejuízo atinge gerações, a desnutrição, o nascimento de deficientes mentais e por aí vai. Há quatro anos atrás, as administradoras de imóveis de São Paulo tinham 1.700 imóveis por mês na carteira, mas agora em agosto elas estavam com 28 mil imóveis em carteira para alugar. Isso só nas administradoras, sem contar os imóveis que são tratados diretamente com os proprietários. Essa também é outra coisa recessiva, pois é gente que não está recebendo aluguel e o dinheiro deixa de circular.
adunicamp - Qual é a responsabilidade das elites brasileiras nesse processo de privatização e na abertura dos mercados?
Aloysio Biondi: As elites brasileiras eu chamo de “capachildas”, de capacho. A associação da área comercial está todo mês a dizer que melhorou um pouco não sei o que. Supermercados, por exemplo, o faturamento agora em agosto caiu 8,8% em relação ao ano passado, e dez dias antes estava o presidente da Abras falando que estava uma maravilha, que o setor ia muito bem etc. Há cinco anos, a enxurrada de dólares levou essas elites a acreditarem que havia um ciclo de prosperidade e que eles, empresários, iam participar. Eles estavam se lixando para o resto, pois acharam que estavam sendo convidados para um banquete e não perceberam que iam ser o pato do banquete. Foi o que aconteceu. Só que a passividade dessas elites ao longo dos anos me surpreende. Teve a destruição de 2/3 da indústria têxtil, e em outros setores acontece a mesma coisa.
adunicamp - Qual setor econômico está dando sustentação firme ao governo FHC?
Aloysio Biondi: Acho que neste momento quem tenta dar sustentação mais do que nunca são os meios de comunicação. E eu acredito que estejam em uma situação mais séria do que a gente pensa. A Abril vendeu 40% de listas telefônicas que era um negócio altamente lucrativo dela e um dos principais motivos da briga dela com a ex-ministra Zélia Cardoso de Melo. A Abril e a Folha venderam 12,5% da UOL; o Globo, todo mundo sabe que deve 3,2 bilhões de dólares no exterior; o Estadão também vendeu 40% das listas, ou seja, ninguém vende o que tem a não ser quando precisa. Quando um jornal começa a esconder, como estão fazendo, até pronunciamento do PFL contra o acordo com o FMI, então esse pessoal está com compromissos muito sérios por aí. Tem também os banqueiros, o setor de papel e celulose, a siderurgia, as áreas privatizadas, porque eles já compraram tudo com empréstimos do BNDES e agora estão tramando novos empréstimos para eles mesmos, e, por coincidência, eles dominam grande parte das entidades empresariais brasileiras.
adunicamp - O que você poderia dizer sobre essa questão da mentira, da manipulação, sobre o caráter desse governo?
Aloysio Biondi: Não, não existe nada mais mau caráter do que esse governo. Inclusive, logo depois que esse governo assumiu, em fevereiro de 95, eu fiz um artigo sobre o autoritarismo que vinha por aí, a partir do que fizeram com o Conselho dos Desportos, que deveria ter representantes e transformaram em livre nomeação dos ministros. O solidariedade do Betinho, que também deveria ter representação, virou tudo nomeação de artistas chapas brancas. E tinha aquela comissão de investigação geral criada pelo Itamar depois do caso PC Farias, que tinha o disque corrupção, e era formada por ex-ministros da Justiça, juristas e advogados de primeiríssima linha, eles chegaram a apurar alguma coisa, inclusive sobre remessa clandestina de lucros, mas 15 depois de tomar posse o presidente Fernando Henrique acabou com a comissão. Ele é culpado por isso que aconteceu ao Brasil em termos de corrupção. Ele é culpado porque ele extinguiu essa comissão geral de investigação.