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  Acordo entre os países ricos para evitar a "grande crise"

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 5 de dezembro de 1982


As notícias alarmantes sobre a contínua expansão do desemprego e redução da produção industrial em todo o mundo reforçam a sensação de que nada mudou na economia mundial, nos últimos meses, caminhando-se para uma catástrofe semelhante à dos anos 30. Não há a menor dúvida de que a economia mundial ainda não chegou ao fundo do fosso, continua ladeira abaixo — isto é, por mais al­gum tempo, as estatísticas poderão ser ainda mais negativas, espalhando um agravamento da si­tuação.

No entanto — como sempre ocorre em economia — já há mu­danças em curso, não plenamente "digeridas" nas análises, e que podem contribuir para uma rever­são do atual ciclo recessivo, a médio prazo. Por trás dessas mudanças, ao que tudo indica, há uma reformulação de atitudes dos próprios governantes dos países ricos, que chegaram a um "acordo de cavalheiros" para modificar políticas econômicas que contri­buíram para agravar a crise.

Na última semana, consolidou-se uma das mais importantes mudan­ças ocorridas recentemente no quadro mundial: o dólar, supervalorizado nos últimos anos, entrou em queda nos mercados cambiais internacionais.

Fim a distorções
Esse declínio tem grande impor­tância para a economia mundial, sob diversos ângulos. Com a política de valorização do dólar adotada pelo governo Reagan — que agora parece ter consentido em permitir a sua queda —, desen­cadeou-se um movimento espe­culativo nos mercados cambiais, com aplicadores e especuladores (isto é, grandes empresas, os próprios bancos, etc.) vendendo outras moedas para fazer apli­cações em dólares.

Como resultado, para evitar a queda de suas próprias moedas — em decorrência das vendas maciças — os bancos centrais dos demais países ricos foram frequentemente forçados (caso da França) a entrar no mer­cado, comprando suas próprias moedas — trocando-as por dólares de suas reservas, e agravando as­sim sua situação cambial.

Ainda na mesma área, a valorização da moeda norte-a­mericana encarecia a importação de determinados produtos, pagos obrigatoriamente em dólares, como é o caso do petróleo — aumen­tando, igualmente, a necessidade de divisas por parte dos países im­portadores. Finalmente, e por paradoxal que pareça, a alta do dólar trouxe prejuízos à própria balança comer­cial dos EUA, já que a valorização encareceu os produtos norte-a­mericanos, tirando seu poder de concorrência no exterior. Com isso, os EUA terão gigantescos déficits em sua balança comercial: US$ 40 bilhões, este ano e, se nada mudas­se, US$ 75 bilhões, em 1983.

Mais comércio
A valorização do dólar, como vis­to, responde por grande parte dos problemas cambiais dos países desenvolvidos e dos próprios EUA. Como são principalmente esses problemas cambiais que vêm provocando as frequentes guerras de mercado e adoção de medidas protecionistas, pode-se prever que o declínio da moeda norte-a­mericana — "combinado" entre Reagan e outros chefes de gover­no? — contribuirá para redução das tensões atuais, prevendo-se menos barreiras e, consequente­mente, intensificação do comércio internacional, a médio prazo.

Não se pode esquecer, ainda, que a valorização do dólar — e as altas taxas de juros nos EUA — atraíram as aplicações de capitais que antes se destinavam às bolsas de commodities, em prejuízo dos preços dos produtos primários, agrícolas ou minerais. Com seu declínio, es­ses capitais podem voltar às bolsas, aumentando as cotações desses produtos — e as receitas cambiais dos países exportadores, basica­mente os países em desenvolvimen­to, altamente endividados, como o Brasil.

Mais esperança
Há outras mudanças recentes no cenário mundial, também interpretadas como decorrentes de um "acordo de cavalheiros" entre os países líderes. Por exemplo: a valorização do iene, em 10% em poucas semanas (os demais países ricos acusavam o Japão de sub-valorizar sua moeda, para bara­tear suas importações e assim roubar mercados mundiais).

Ou a redução das taxas de juros e o "afrouxamento" na política de crédito, nos EUA. Ou a redução nas taxas de juros na Alemanha Oci­dental, Áustria, Suíça e Holanda, ocorrida também na última se­mana, com o objetivo deliberado de estimular os investimentos e ativar a economia.

Não se pode ignorar, finalmente, o apoio que o Banco Central dos EUA e os bancos centrais dos de­mais países ricos, reunidos no Ban­co de Compensações Internacio­nais, na Basiléia, passaram a dar à renegociação das dívidas dos países altamente problemáticos, permitindo a assinatura dos acor­dos do México, Argentina e Polô­nia, com o Fundo Monetário Inter­nacional.

Tudo indica haver em marcha uma estratégia não declarada para impedir que o pior aconteça. Pena que ela chegue tarde demais para os países endividados, obrigando-os a esta altura a aceitar condições humilhantes de dependência, para renegociarem suas dívidas exter­nas.



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