Jornal Diário da Manhã , quinta-feira 6 de outubro de 1983
Dívida externa – Há um novo vilão para manter o tom pessimista em torno da renegociação da dívida externa: fala-se, agora, que os bancos pequenos dos EUA e alguns europeus não concordariam em oferecer as coisas que lhe couberam, do acordo acertado com os grandes bancos. Acontece que em conjunto esses bancos teimosos só respondem por uns US$ 600 milhões, do pacote negociado de US$ 11,2 bilhões.
Outro vilão com a mesma tônica: os grandes bancos já teriam emprestado demais ao Brasil. Cita-se que alguns deles emprestaram até mais de 250% do seu capital, e não poderiam ir além. Ora, qualquer banco sempre empresta muito mais do que o seu capital: seu lucro vem exatamente do negócio de emprestar dinheiro dos outros, de preferência depósitos à vista que não rendem um tostão de juros aos seus donos. No caso dos bancos norte-americanos, os empréstimos ao Brasil representam mais de 250% do capital, mas correspondem apenas 10% do total de créditos por eles concedidos a todos os seus clientes.
Agitação no black – Na Argentina, um juiz suspendeu a renegociação da dívida externa, ao vetar um dispositivo do acordo com os banqueiros, segundo o qual conflitos entre os bancos e empresas devedoras argentinas seriam julgados nos EUA (cláusula considerada atentatória à soberania do País). Para evitar a especulação cambial que o adiamento na renegociação da dívida provocaria, o governo argentino suspendeu a entrega de dólares para o pagamento de importações, turismo etc. Com a decisão, e como já aconteceu há poucos meses, empresas e cidadãos argentinos tentarão comprar dólares no mercado negro brasileiro, para revender em Buenos Aires.
A revoada dos doleiros explica a nova fase de altas do dólar no black brasileiro após semanas de queda. O fenômeno, porém, só durará até que o governo argentino reinicie a entrega de dólares.
Em queda – A soja e o milho continuam em queda no mercado mundial, reforçando a possibilidade de recuo dos preços no Brasil.
Anteontem, terça-feira, a soja foi cotada a US$ 8,29 o bushel (cerca de 27 quilos) em Chicago, 15% abaixo do “pico” de US$ 9,49 no começo de setembro.