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  Euforia e dança enganosa das estatísticas

, sábado 15 de maio de 1999


A OCDE, organização internacional que reúne os países desenvolvidos, divulgou no começo da semana a classificação dos países de acordo com os problemas de sua economia – uma espécie de “ficha bancária mundial”, para orientação dos banqueiros e credores internacionais. As categorias em que um país pode ser classificado vão de 1 a 7. Qual foi a classificação do Brasil? Recuperou a “credibilidade”, como se apregoa? Ele está na posição 6. Junto com a Bolívia (Gazeta Mercantil da última segunda-feira, 10 de maio).

A avaliação não é de nenhum “catastrofista” brasileiro. É da OCDE. Serve, por isso mesmo, para qualquer leitor comparar com o “festival de otimismo de encomenda” implantado no Brasil e chegar a suas próprias conclusões. Na prática, qual o significado e consequências do diagnóstico da OCDE? Sinteticamente: o Brasil continua a preocupar, com os "rombos" em dólares e em reais (déficit do governo). Uma realidade que as estatísticas enganosas sobre crescimento do PIB, superávits do Tesouro, safras agrícolas tentam esconder.

Superávit falso

Há semanas, em Paris, o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou um saldo positivo de R$ 7 bilhões para o Tesouro, no primeiro trimestre. Quem leu, dias depois, a entrevista do secretário Eduardo Guimarães, da Fazenda, verificou que o saldo foi conseguido à custa de manobras e não indica superação definitiva do “rombo” do governo. Que manobras? Houve um acordo com os bancos, para que pagassem R$ 3 bilhões em impostos que eles contestaram na Justiça e foram derrotados no Supremo: o governo perdoou multas para receber (partidos de oposição querem anular essa decisão na Justiça). Houve ainda a entrada nos cofres do Tesouro de R$ 710 milhões da conta-petróleo, “furtada” da Petrobrás, que vai murchar mês a mês por causa da disparada de 80% nos preços internacionais do petróleo.

As telefônicas

Até aí, são algo como R$ 4 bilhões em receitas “inventadas”. Mas houve também uma espécie de “pagamento antecipado” de prestações devidas pelos compradores das estatais telefônicas no ano passado e que só venceriam em agosto. Atenção: essas operações também têm aumentado o “rombo” do Tesouro. Por quê? Nas primeiras liquidações, não houve “pagamento antecipado”, na verdade. As empresas “compradoras” fazem um empréstimo ao governo, "comprando" títulos que rendem correção cambial (a desvalorização do real), mais juros. E suas dívidas com o governo (60% do preço das teles) continuam a ser muito mais “baratas”, pagando apenas 12% de juros e correção pelo índice da inflação. O Tesouro perde a “diferença”. E o PIB? Segundo o IBGE, a economia teria crescido 1,02% no primeiro trimestre do ano, graças a um salto de 17,8% para o valor da produção agrícola, contra um avanço de 0,9% para “serviços” e oscilação positiva de 0,1% para a indústria. Tudo isso comparando-se janeiro a março de 1999 com outubro a dezembro de 1998. Para não alongar: o valor da produção agrícola deu um salto logo depois da desvalorização do real – pois o produtor, ao exportar, passou a receber uma quantidade maior de reais, ao trocar os dólares que lhe foram pagos. Foi, porém, um fenômeno passageiro, como as estatísticas oficiais mostram: os preços em reais recebidos pelos produtores voltaram a recuar. A agricultura não continuará a puxar tanto o PIB.

Dia das Mães

Seria normal que a indústria e o comércio apresentassem reação em março e abril, por causa de dois fatores principais: o aumento do dinheiro em circulação no interior, graças à comercialização das novas colheitas agrícolas, e as encomendas e compras para o Dia das Mães. No entanto a venda de automóveis voltou a cair 15% em abril – mesmo com a redução de impostos...

E no Dia das Mães? Dados preliminares da Federação do Comércio de São Paulo falam em avanço de 5% no “faturamento” (não na quantidade de mercadorias vendidas). Ótimo? Não. As vendas de roupas, tecidos e calçados, que são “presentes tradicionais” da época, despencaram 20%, na comparação com 1998. Para móveis, queda de 30%.

O avanço de 5% se concentrou em bens duráveis, leia-se “telefones celulares”, com as promoções especiais para o consumidor. Pode-se alegar que esse setor da indústria, com suas vendas, teria condições de dar impulso a outros segmentos, beneficiando toda a economia. Na prática, isso não ocorre. Por quê? Porque de 95% a 100% das peças utilizadas pelos celulares são importadas. O aumento nas vendas apenas aumenta as importações. E o “rombo” em dólares.



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