Jornal Diário Popular , quarta-feira 17 de maio de 2000
Bem que está tudo muito estranho. Todos os anos, nas semanas que antecedem o Dia das Mães, os jornais e a TV ficam cheios de notícias sobre o ‘‘aumento das vendas’’, os shoppings lotados de gente e etecetera e tal. Nos últimos anos, esse otimismo tem sido totalmente falso’’: passados os festejos, o balanço divulgado pelas entidades do comércio mostra um desempenho modesto (no ano passado, por exemplo, apenas um produto, a grande novidade daquele momento, salvou as vendas: o telefone celular, que acabou sendo também o carro-chefe do faturamento no Dia dos Namorados, em junho). Neste ano, houve silêncio total, quebrado por uma ou duas notícias, ao longo de toda a quinzena de maio, levando a suspeita de que a situação estava tão ruim, tão ruim, que nem os eternos aliados de FHC, na disseminação do falso otimismo, tinham coragem de mentir, sob risco de desmoralização. Não deu outra. A suspeita estava correta. Segundo a Federação do Comércio de São Paulo, o varejo esperava (ou desejava?) vender no mínimo 5%acima dos níveis do Dia das Mães do ano passado, que foi péssimo porque a economia ainda estava saindo da paradeira provocada pela queda do Real. Nem essa expectativa modesta se confirmou. As vendas teriam sido iguais — e olhe lá — à ruindade de 1999. Até as consultas ao SCPC caíram, desmentindo as análises que afirmam estar havendo intensa procura pelo crediário em consequência dos prazos malucos de até 24 meses, e prestações baixíssimas (de até R$ 10,00) que algumas redes de lojas estão oferecendo. O Dia das Mães repete a decepção que os empresários, sobretudo da indústria, sofreram em março e abril, quando esperavam reação no faturamento graças à venda de colheitas, que sempre movimentam muito dinheiro no interior, ‘‘puxando’’ toda a economia para cima. Confirma-se assim, pela milésima vez, que a tal recuperação da economia não existe pelo fato puro e simples de que a população está sem poder aquisitivo por causa do desemprego, importações, aumento de tarifas, aumento de impostos e toda essa política recessiva do governo FHC. Baixas vendas no comércio significam estoques encalhados e, nos próximos dias, redução nas encomendas à indústria, mantendo a economia ladeira abaixo. O quadro econômico negativo, aqui dentro, se repete também em relação às operações do Brasil com o resto do mundo, fazendo o real tremer, e o dólar voltar a subir. Os investidores estrangeiros estão fugindo das Bolsas brasileiras, e já retiraram R$ 1,4 bilhão do mercado. Pior ainda: a balança comercial (exportações menos importações), que segundo o governo deveria oferecer uma ‘‘sobra’’ de US$ 4 bilhões este ano, para ajudar a pagar os compromissos internacionais, continua a apresentar resultados totalmente insatisfatórios. Na segunda semana de maio, o saldo voltou a ser ridículo, de apenas US$ 80 milhões — outro resultado que vai aumentar a preocupação de banqueiros e investidores internacionais, reforçando as pressões contra o real.