Jornal Gazeta Mercantil , terça-feira 4 de maio de 1976
Um dia, há quase duas décadas, um prefeito da capital paulista destruiu o tradicional Largo do Arouche, arrancou árvores quase centenárias e, na pífia praça que construiu, distribuiu horríveis jarrões de um metro de altura, iluminados com lâmpadas a cores. O mau gosto e o provincianismo eram tão acachapantes, que não podiam deixar de fazer escola: os prefeitos de centenas de cidades do interior rapidamente cuidaram de imitar a capital, encomendando os abjetos jarrões para suas praças e jardins.
Isso foi há duas décadas. Na época acreditou-se que o provinciano era a mais terrível praga que poderia se abater sobre a sociedade brasileira, em termos de urbanização. Não era. O flagelo maior estava por surgir, na década de 1970, sob a roupagem da “sofisticação” e pela mão dos tecnocratas, urbanistas e seus afins, os paisagistas. Sofisticação que, em nome do embelezamento das cidades, as enfeia. Sofisticação que, em nome da “qualidade de vida”, traz desperdícios inacreditáveis, gastos mirabolantes que afetam não apenas as finanças de prefeituras e governos estaduais – mas afetam até a balança comercial do país. São Paulo vai, agora, reconstruir sua praça da Sé, destruída pela execução das obras do metrô. Outra vez, uma praça de concreto, pois, como disse um governante à imprensa “não podemos fazer um bosque no centro de São Paulo”.
DELENDA VIDA
Lógico que não. O Brasil sofisticado, rico, não comporta praças simples, com grama e árvores, bancos de madeira e alamedas apenas cascalhadas, e que custem algo como 50 mil cruzeiros às Prefeituras. Não. As praças e as ruas devem ser embelezadas com concreto, com bancos de concreto, onde as pessoas não conseguem ficar sentadas, tachões de ferro fundido à guisa de canteiros, refletores de alta potência, espetados no chão, espelhos d´água, e toda essa traquintada infernal da “sofisticação”. Praças não de 40 mil ou 50 mil cruzeiros, mas de 10 ou 20 milhões. Consumindo dinheiro e aço, e cimento, e metais que poderiam ser aplicados em redes d’água, esgotos, habitação. E cuja fabricação exige a importação de matérias primas, componentes, ou, quando nada, máquinas para produzi-los no país, afetando então também a balança comercial.
O paisagismo-urbanismo existe para “humanizar”, melhorar a qualidade de vida nas frias, inóspitas grandes cidades de hoje: uma praça, uma rua arborizada, uma “área de lazer”, segundo seus princípios, têm por objetivo exatamente recriar a natureza, em miniatura, para que o bicho-homem, perdido na selva de concreto, livre-se das neuroses, da desagregação psicológica, através do contato com suas origens. O paisagismo-urbanismo que hoje se pratica no Brasil, no entanto, é o contrário, é a negação de seus próprios objetivos: praças em concreto, bancos em concreto, monstruosas estações de metrô em concreto (“aparente”, claro), esculturas e vasos de metais, por toda a parte o homem reencontra não a Natureza, mas a civilização industrial que o sufoca e neurotiza gerando inclusive a violência nas metrópoles.
AS EVASIVAS
A tecnoestrutura, que gasta bilhões para enfeitar as cidades esqueceu sua função, e considera-se ainda intocável.
Um dirigente da EMURB, empresa encarregada da urbanização de São Paulo, foi há alguns meses bombardeado com perguntas, da imprensa, relativas à “monstruosidade-síntese” da “sofisticação paisagística”: a avenida Paulista, em São Paulo, com abrigos plásticos, enormes peças de ferro fundido servindo de canteiros e postes imensos substituindo placas de orientação. Essa monstruosidade-síntese deveria figurar nos compêndios de paisagismo, como o que não se deve fazer em nenhum país com a “ornamentação” transformando-se em poluição visual, e os pedestres tendo que plantar bananeira para ler os nomes das ruas, indicação de ônibus etc... já que todas estas informações não foram contidas em “simples” placas, mas escritas na vertical (isto é, de cabeça para baixo) na superfície de “sofisticados” postes. Ante às críticas contra os horrendos canteiros de ferro fundido, surgiu a resposta pronta do dirigente da Emurb: “E daí? Os canteiros não têm mesmo que ser bonitos, mas apenas acolher as plantas”, uma resposta também síntese, que nega a própria origem do paisagismo-urbanismo. Nesse raciocínio, também o Homem deveria continuar vivendo em cavernas, que não são bonitas, mas abrigam das intempéries. O pior, porém, nessa resposta acintosa, é que os “tachões” sequer preenchem sua função já que as árvores e plantas de raízes profundas acabam por perecer, com o seu crescimento bloqueado pelo fundo do tacho-canteiro. O grave nessa atitude é que o paisagismo-urbanismo que se pratica no Brasil é, na verdade, o anti-paisagismo: como as praças ou a remodelação de ruas, exigem sempre milhões e milhões de cruzeiros. São Paulo e outras cidades, que precisam de verde (não só áreas verdes na periferia, como pensam os governantes, mas exatamente no centro, onde o concreto e o asfalto absorvem calor e estão alterando as condições climáticas, segundo estudos oficiais), executam sua “reurbanização” em conta-gotas. O dinheiro gasto em uma praça de concreto bastaria para construir dez, vinte, cem praças simples, onde as crianças brincassem, os moradores namorassem. A população tivesse lazer. Fugisse à neurose, à violência.
A REBOQUE
Megalômano, o Brasil só faz planos milionários. Esqueceu o simples, o barato, o funcional, em tudo: no paisagismo, na arquitetura, na rodovia, no fogão, no automóvel, nas sedes dos BNHs ou das Sudenes, das Nestlés ou dos bancos. A luxuosidade, a ostentação em acrílico, carpetes, alumínio, aço polido, ferro fundido, concreto e vidro fumê é tão grande que chega a afugentar o homem simples, a população de baixa renda, que, hoje, tem medo, medo mesmo, de adentrar uma Caixa Econômica, uma Companhia Telefônica, uma repartição municipal; ali não é o seu lugar, “aquilo” não foi feito para ele (a inauguração de sofisticada agência da Caixa Econômica Federal, no interior de São Paulo, provocou violenta queda no número de cadernetas de poupança, pois o cliente modesto se sentiu expulso pelo luxo: foi preciso que a agência voltasse às instalações antigas para atraí-lo de novo). Para um país com problemas na balança comercial, para um país onde Estados como a Bahia só têm rede de esgotos em três (três mesmo) cidades, onde a população das metrópoles se espraia, exigindo bilhões de gastos em infra-estrutura, toda essa orientação é suicida. Repetindo uma imagem, há uma corrida contra a própria sombra: os problemas crescem a uma velocidade que a capacidade de investir do país jamais pode alcançar.
Governantes e empresas teriam, porém , a coragem de ter a humildade de abandonar a sofisticação e recriar as praças, simples, como ponto de partida, e recriar os objetivos dessa sociedade, como objetivo último?