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  Na Bolsa, as altas sem susto

Jornal Correio da Manhã , segunda-feira 17 de maio de 1971


O mercado esperava uma colher, recebeu um banho de chá. O mercado esperava que o governo reafirmasse suas intenções de prestigiar a Bolsa, alvo de críticas por parte, principalmente, de outros setores do mercado de capitais, que vêem canalizadas, para as ações, as poupanças anteriormente aplicadas em papéis de renda fixa. Ou imobilizadas no leito cheio de teias dos depósitos bancários, onde não rendiam um caramingau sequer a seus proprietários.

No começo da semana, a definição veio – e muitos conhecedores das imperfeições da política fiscal no Brasil podem até discordar dela. Geralmente hábil, o governo fechou sua própria saída para uma reconsideração da política em relação ao pagamento de impostos sobre os lucros com a compra e revenda, rápida, de ações. Num país em que o peso dos impostos recai sobre o assalariado e, até mesmo, sobre aposentados que vivem de míseras pensões, ninguém se escandalizaria com a taxação de lucros resultantes da habilidade de fabricar dinheiro a partir de dinheiro, em poucos dias ou poucas horas – na Bolsa. Tudo seria uma questão de dosagem, pois, numa fase em que há altas de 60 por cento em uma semana, ou de 300 por cento em um mês, para uma ação, os felizes investidores que, acertaram suas tacadas não considerariam injusto entregar 1 ou 2 por cento de seus lucros ao Fisco. Em outras palavras, ninguém deixaria de ir à Bolsa por causa disso. Em outras palavras, o mercado não iria sofrer nenhum abalo por causa disso. Mas, ao dizer, com todas as letras que não só dá todo apoio à Bolsa – o que é ótimo – como não pretende taxar os ganhos nelas obtidos, o governo fechou a questão.

Bom para o mercado, bom para o investidor. A animação cresceu, o volume de dinheiro movimentado também, o número de altas igualmente. Nesse ritmo de farândula, há possibilidade de as ações chegarem a preços exagerados, com renascimento de todas as críticas. Exceções sempre existirão. Mas, colocando-as de lado, o mercado como um todo continua saudável.

Do arco-íris, a ponta
No final da semana, surgiram estatísticas oficiais sobre o comportamento das vendas dos diversos setores econômicos, neste começo de ano. Por elas, o avanço é grande. Como é grande o avanço nos negócios de algumas empresas que, também na semana, divulgaram resultados de seus balanços semestrais ou mesmo balancetes trimestrais. Duratex, com vendas quatro vezes maiores que no primeiro trimestre de 1970. Magnesita, com lucro, num semestre, representando 75 por cento dos resultados de seu último exercício. Ducal, com crescimento de vendas excepcional. Sudeste, do setor de materiais para construção e decoração (paredes divisórias, lambris de madeira) na mesma linha. Pelo menos para as empresas com ações negociadas em Bolsa, o momento é de prosperidade. Não há porque temer, portanto, que haja um desnível entre as cotações de suas ações e a rentabilidade que elas realmente terão a oferecer, no final de seu exercício, ou mesmo no balanço semestral.

Na agitação dos últimos meses, talvez o próprio mercado não tenha avaliado corretamente, ainda, as causas das altas para a maioria das ações – e, também, sua validade, sua correspondência com a realidade. Pois ela existe.

Caminhos novos, caminhos de sempre
Petrominas é apenas um exemplo, pois há dezenas de outros. Cotadas na casa dos 0,70 cruzeiro há pouco mais de um mês, suas ações chegaram aos 3,50 na semana que passou. Um salto, num lucro de 400 por cento. Mania com petróleo? Não. Saneamento da empresa, lucro por ação substancialmente maior no novo balanço, perspectiva de bonificações. Houve mudança real na situação da empresa – como houve mudança real na situação de dezenas delas desde 1968/1969 (esse sim, ano de grande especulação, que poderia ter terminado mal).

Há possibilidade de outros bons negócios como esse, daqui para a frente? Ao mesmo nível, ninguém é capaz de dizer. Mas pode-se dizer que, dentro do quadro atual do mercado de ações e, mais ainda, dentro do quadro atual da economia brasileira, pelo menos cinco filões merecem a atenção – pois lhe prometem bons lucros – do investidor:

• Setores em recuperação: magazines têxteis, metalurgia, siderurgia tiveram seus dias negros. Os quadros desta página (que servem também para análise dos demais filões) mostram: a) o crescimento do lucro por ação de algumas empresas, de 1968 para cá; sua relação com o aumento de cotações das respectivas ações pode ser facilmente estabelecida pelo investidor; b) também o lucro líquido, em milhões de cruzeiros a fim de que a evolução possa ser avaliada corretamente, sem as distorções que eventuais aumentos de capital tenham provocado no cálculo do lucro por ação. O ritmo ascendente de lucros (e as estatísticas de vendas) mostra que o caminho não está esgotado. • Setores novos: petroquímica, mineração estariam à frente. Petroquímica tem todo um mercado a preencher, com a substituição de produtos ainda importados. Mineração é uma atividade que mal se inicia no país, com poderosos estímulos (inclusive drástica redução no imposto de renda para as empresas do setor, a partir deste ano). • Setores estimulados: há política especiais para a indústria gráfica, de fertilizantes e de equipamentos (esta última, também favorecida por inovações no campo do ICM, este ano, com maior condição de concorrência com as máquinas importadas). • Setores “especiais”: como aqueles com grande potencial exportador, atividade também incentivada pela política econômica. • Setores problemáticos: aqui, é atentar para as fusões e incorporações estimuladas pelo governo. De metalúrgicas a bancos, de indústrias têxteis a petróleo.

Descobrir bons negócios dentro desses filões é garantir lucros a curto ou médio prazo. Mas será, também, investir a longo prazo. Não há por que ter medo da Bolsa. Ou de velhas estripulias no mercado.



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