Jornal Diário da Manhã , domingo 18 de setembro de 1994
A opinião não é de nenhum economista petista ou brizolista, desses que a imprensa pátria costuma xingar de “dinossauros, parados no tempo”, nacionalisteiros. A opinião é do próprio ministro da Fazenda, Ciro Gomes, em entrevista a O Globo no dia seguinte ao anúncio de sua escolha pelo presidente Itamar Franco. Interpelado sobre os boatos de uma provável redução de tarifas (ou imposto de importação) para aumentar as importações, Ciro Gomes considerou essa política “um desastre” iniciada pelo Governo Collor, porque – atenção – não tinha vindo acompanhada de uma política industrial.
O que o ministro Ciro Gomes queria dizer com isso? Que os principais países do mundo, inclusive os “tigres asiáticos” e o próprio Japão, não facilitaram as importações antes de adotarem medidas para fortalecer a produção interna, para permitir o crescimento das empresas locais, aumentar sua produtividade, favorecer seu aperfeiçoamento tecnológico. Em resumo: esses países levaram anos e anos abrindo seu mercado gradativamente, à medida em que a produção local se modernizava. Tudo para evitar a quebradeira de empresas locais, desemprego em massa, perda de arrecadação de impostos, agravamento dos problemas sociais e da miséria.
No Brasil, o Governo Collor, eleito com o apoio dos grandes interesses econômicos, e grupos ligados ao exterior, enganou a opinião pública. Criou a onda de que era preciso “modernizar” a economia e criou uma desculpa ainda mais atraente para a opinião pública: as importações iriam baratear tudo, o brasileiro passaria a pagar preços mais baixos graças à concorrência internacional.
Um dia antes de sua posse, o ministro Ciro Gomes dizia que essa política era um desastre. Dois dias depois de sua posse, o ministro Ciro Gomes já mudava de discurso: passava a defender a necessidade de importações maiores e repetia todos os mitos que têm sido vendidos à opinião pública brasileira nos últimos anos. Mais alguns dias, e o ministro repetia o Governo Collor: reduzia abruptamente as tarifas de importação.
Como no Governo Collor, essa medida foi antecipada por nova campanha de manipulação da opinião pública. Várias mentiras foram usadas como armas; falou-se em aumento exagerado no consumo, e necessidade de aumentar a oferta de produtos (com as importações) para evitar a pressão sobre os preços; inventou-se uma hipócrita “guerra com os empresários” – e aí foi fácil justificar uma nova etapa de abertura do mercado brasileiro aos países ricos. Mesmo que isso custe, aos brasileiros, a perigosa “torra” dos dólares das reservas, quebradeira de empresas – e desemprego em massa.
Hoje, o ministro Ciro Gomes adota a política que condenou ontem. Por que é que os ministros, no Brasil, mudam tão depressa de opinião? É simples: quem manda na política econômica do Brasil e outras republiquetas latino-americanas é o governo dos EUA. Antigamente, Washington chegava a mandar seus marinheiros para impor sua vontade. Hoje, os métodos são mais sutis: os EUA e outros países ricos usam o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, além dos banqueiros internacionais e as “elites” locais, para atingirem seu objetivo. O ministro Ciro Gomes sabe disso. Mas foi forçado a rapidamente “esquecer” a realidade, e cumprir os compromissos assumidos pelas “elites”. Quais as conseqüências dessa cumplicidade – sem que exista uma política de fortalecimento de produção nacional? Para entender o que está acontecendo, vale a pena relembrar alguns fatos:
A PRESSÃO DOS EUA
Por que o Governo norte-americano força a abertura de mercado de países como o Brasil? É simples. Com a explosão da economia japonesa nas últimas décadas, os EUA passaram a sofrer déficits gigantescos em seu comércio com o Japão, isto é, a importar muito mais do que exportar. Resultado: para tentar compensar o saldo negativo com o Japão, o Governo norte-americano começou a forçar a venda de produtos das empresas dos EUA para países como o Brasil. Para isso, com a ajuda do FMI e Banco Mundial, passou a forçar a redução dos impostos de importação adotados por esses países que procuravam assim proteger sua indústria e agricultura.
O DESASTRE NO MÉXICO
Fala-se muito nas “vantagens” que o México obteve com a abertura de seu mercado aos EUA. O que se esconde: o México está com um “rombo” de 20 bilhões de dólares por ano na sua balança comercial – isto é, está caminhando para nova e violenta crise. Tudo porque liberou as importações, “torrou dólares” como o Brasil está fazendo agora.
O CASO DO CEARÁ
No Brasil, por exemplo, com a redução dos impostos sobre a importação de tecidos e roupas, a indústria brasileira ficou ameaçada. Alegou que o algodão brasileiro custa muito caro, e por isso era impossível ter preços tão baixos, para as roupas, como as importadas. O Governo barateou a importação do algodão. Resultado: no Ceará, do ministro Ciro Gomes, a produção de algodão despencou. Ficou reduzida a míseros 20% da produção anterior. Mais de 200 mil famílias de lavradores perderam seu trabalho, seu emprego, sua renda. Abandonaram, em massa, o interior. Foram inchar as capitais. Aumentar a miséria. No Ceará. No Nordeste. Do ministro Ciro Gomes, que agora diz, para justificar as facilidades para impor, que isso “cria emprego”. Pois é. Coisas das elites dominantes.
O CASO DO SÃO FRANCISCO
Há outro exemplo dramático das conseqüências das importações discriminadas, também no Nordeste. A importação de polpa e massa de tomate do Chile – como matéria-prima para a indústria brasileira – destruiu literalmente a cultura de tomate do Vale do São Francisco. Famílias na miséria. E foram jogados no lixo os bilhões de reais gastos, durante décadas, em projetos de irrigação, desenvolvimento de tecnologia etc. para reduzir a miséria da região.
O CASO DE SÃO PAULO
Pouca gente entende isto, porque também este fato é escondido da opinião pública: quando o Governo libera, reduz impostos de máquinas, equipamentos, veículos, eletrônicos, eletrodomésticos etc – reduz também os impostos sobre a importação de peças e componentes usados na produção desses bens. Eis aí um “desastre escondido” das importações facilitadas.
As multinacionais, as grandes empresas brasileiras que dominam seus mercados passam então a importar aquelas peças e componentes. Resultado: milhares de médias e pequenas empresas, fornecedoras desses itens, perdem mercado. Quebram. Mais desemprego, mais perda de renda, mais perda de impostos. E ainda: retrocesso tecnológico, pois o País deixa de “saber” como produzir aquelas peças e componentes, as matérias-primas para fabricá-las e assim por diante.
Para as grandes empresas, para os grupos econômicos dominantes, a importação pode ser um grande negócio. Para a sociedade, ela pode representar mais miséria na agricultura, fechamento de milhares de indústrias intermediárias, mais desemprego. O retrocesso tecnológico. E “torra de dólares”. Que o diga o governador Ciro Gomes, do Ceará.