Jornal Diário Popular , segunda-feira 6 de setembro de 1999
Quando o real despencou, em janeiro, toda a culpa pela situação catastrófica da economia brasileira foi lançada sobre as costas do então presidente do Banco Central, Gustavo Franco, que perdeu o cargo. E não faltaram, na imprensa, análises e artigos dizendo que o presidente Fernando Henrique Cardoso "é um grande intelectual, mas um mau gerente, pois não gosta de administrar problemas". Em outras palavras, tentava-se espertamente insinuar que o presidente Fernando Henrique havia confiado em demasia na competência da sua equipe e, portanto, não tinha nenhuma responsabilidade pelo que estava acontecendo.
O argumento chega a ser um desaforo para a inteligência dos brasileiros. Em primeiro lugar, porque obviamente um presidente da República, um governador e um prefeito, todos eles recebem mandatos para administrarem a vida de países, Estados, municípios e não podem alegar simplesmente que escolheram mal suas equipes. Isso equivale a confessar incompetência para o cargo. Mas nem é essa a conclusão mais importante. O fato é que as análises para "absolver" o presidente da República são um verdadeiro crime, ao fingirem ignorar que a política que foi implantada no Brasil e em outros países faz parte de um plano internacional para desnacionalizar as economias locais, entregando tudo às multinacionais e aos países ricos. Isso não é nenhum segredo, há documentos dos próprios países ricos, banqueiros internacionais, Fundo Monetário e Banco Mundial. Documentos, que não são secretos, estão publicados e largamente conhecidos. Eles defendem a abertura de mercados, as privatizações — e mudanças em leis, como a total destruição dos direitos dos trabalhadores, iniciada no Brasil nos últimos anos. É o tal do neoliberalismo, uma fase (que vai passar) da História do mundo, e à qual o antigo sociólogo Fernando Henrique Cardoso aderiu, sabe-se lá por que motivo. Ou, pior ainda: o presidente Fernando Henrique Cardoso adotou, no Brasil, medidas "horrorosas" contra os interesses nacionais que superam até mesmo a "cartilha" de vantagens para os países ricos desejadas pelos chamados neoliberais. Em resumo: não acredite nessa ladainha de que o Brasil vai mal porque o presidente da República é enganado, ou mau gerente. Sua equipe faz exatamente o que ele deseja. E Fernando Henrique faz exatamente o que os países ricos, EUA à frente, dizem que deve ser feito. Por isso mesmo, não acredite também nessa história de "briga" entre ministros "desenvolvimentistas", que querem o crescimento econômico, e ministros que “querem ajustes", arrocho. O País somente mudará de rumo se o presidente decidir defender os interesses nacionais, e abandonar as alianças que fez lá fora.