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  Grato por me assaltares

Jornal Diário Popular , segunda-feira 13 de março de 2000


Que tal você comprar uma rede de lanchonetes ou uma rede de postos de gasolina para pagar em dez anos, a preço de banana — que o antigo dono resolveu vender porque estava, segundo as más línguas, precisando de dinheiro? E depois, daí a dois ou três anos, o vendedor, tão bonzinho, tão bonzinho, sem ter recebido ainda as prestações de oito ou sete anos, oferecer dinheiro emprestado, muito dinheiro, a juros baixíssimos, de pai para filho, para você comprar concorrentes e ficar sozinho no mercado? Absurdo? Afinal, o vendedor não estava quebrado? Não ria. Chore. É isso que está acontecendo no Brasil, com a venda de empresas estatais a grupos privilegiados.

Nos leilões de privatização, como esta coluna relembrou ontem, o próprio governo, através do bando dos grampos, o BNDES, vendeu ‘‘moedas podres’’ (títulos antigos do governo) aos ‘‘compradores’’, para eles entregarem de volta ao Tesouro, como ‘‘pagamento’’ pelas estatais, com um ‘‘detalhe’’: as moedas podres podiam ser pagas em dez anos, a juros baixíssimos.

Um negócio da China, ou um assalto ao patrimônio do povo brasileiro, com empresários e banqueiros recebendo, de graça, empresas que valiam bilhões de reais. Mas as negociatas não param e não pararam por aí até hoje. O mesmo BNDES, isto é, o governo, a quem os ‘‘compradores’’ ficaram devendo rios de dinheiro, acaba emprestando, aos mesmos devedores, outros rios de dinheiro, para eles investirem, ampliarem os negócios.

Quer dizer: o governo diz que o Tesouro está quebrado, usa essa desculpa para doar as estatais e depois arruma dinheiro para os ‘‘compradores’’. Ou seja, é a mesma coisa que você, depois de comprar as lanchonetes e postos de gasolina, ainda receber a visita do vendedor que, tão otário, tão otário, vem oferecer novo empréstimo para ampliar os negócios...

Mas as negociatas não param por aí. Passados uns dois ou três anos, isto é, apesar de haver prestações de mais sete ou oito anos a serem pagas, o governo, através do mesmo BNDES, oferece outros rios de dinheiro para os grupos que viraram ‘‘donos’’ das estatais. Para quê? Agora, para eles comprarem empresas menores, ou formarem cartéis em alguns setores. Para não parecer escandaloso demais, o BNDES inventa um monte de desculpas: diz que é preciso ‘‘reorganizar’’, por exemplo, os setores de petroquímica, papel, celulose, siderurgia, para criar empresas de grande porte ‘‘exigidas’’ pela globalização.

É a negociata da negociata da negociata, com os mesmos grupos de sempre, os donos do País, recebendo estatais de graça, recebendo empréstimos para ampliá-las, recebendo empréstimos para virar cartéis, sempre devendo rios de dinheiro e beneficiados gostosamente com juros muito mais baixos do que os pagos pelos milhões de empresários ‘‘comuns’’, com a diferença paga pelo Tesouro, isto é, por toda a sociedade.

A opinião pública e o Congresso continuam passivos diante dessas aberrações. Só falta dizerem ao governo FHC: ‘‘obrigado por me assaltares’’.



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