Jornal Folha de S.Paulo , domingo 3 de fevereiro de 1985
A inflação de janeiro, na casa dos 12,6%, apesar de altíssima, acabou sendo recebida com alívio, já que o ano se iniciara sob o peso de previsões ultra-pessimistas sobre uma “explosão inflacionária”, com alusões freqüentes a uma taxa de 15% a 16%, no mês. Não se pode realmente, subestimar a importância de ter-se evitado aquelas taxas desastrosas, pois é patente que o resultado serviu (basta ver a mudança de tom no noticiário da imprensa) para esvaziar, em parte, o clima de alarmismo crescente em relação às perspectivas da inflação. Já se aceita hoje – o que pareceria impossível, há poucas semanas – que fevereiro pode apresentar uma inflação mais baixa do que a de janeiro, sepultando-se as expectativas de taxas inflacionárias crescentes. Em resumo, o País parece ter ganho fôlego para, ao menos, chegar até a posse do novo governo com a inflação estabilizada em um patamar perigoso, mas não com um impulso indomável.
Quanto à inflação de fevereiro, poderá apresentar de redução sobre janeiro? Há alguns fatores bastante favoráveis em cena, capazes de puxar os índices para baixo, em um ritmo superior mesmo às expectativas atuais. A principal contribuição viria, desta vez, da área da alimentação, graças à queda de preços dos produtos do grupo “carne”, às voltas com problemas de mercado – e que têm forte peso no cálculo dos índices.
Também na área dos hortifrutigranjeiros (verduras e legumes), as chuvas dos últimos dias provocaram altas de preços, devido às dificuldades de transporte entre às áreas de produção e os mercados. Mas a tendência para produtos de peso (como o tomate e a batata) é de preços declinantes, bem como para verduras e outros legumes, devido às temperaturas mais baixas, deste verão, e ainda à descentralização da produção (antes concentrada na região metropolitana de São Paulo).
Um outro fator que deverá puxar a taxa de inflação de fevereiro para baixo corresponde ao comportamento do índice do custo de vida, no Rio (que entra com um peso 30% no cálculo da taxa de inflação). Em janeiro, esse índice ultrapassou a casa dos 13%, fortemente influenciado por brutal elevação nas tarifas de ônibus urbanos.
Finalmente, não se pode desconsiderar o efeito do súbito “endurecimento” governamental em relação aos reajustes de preços pelas indústrias, com o reenquadramento de alguns setores pelo CIP.
Também do Exterior, surgiu na semana passada uma notícia auspiciosa: o déficit comercial (exportações menos importações) dos EUA foi o menor dos últimos doze meses, a saber, apenas US$ 8 bilhões. A informação não mereceu a atenção devida de muitos analistas, atentos apenas ao saldo negativo acumulado no transcorrer do ano, e que foi recorde. Essa redução do déficit comercial norte-americano confirma análises feitas anteriormente nesta coluna aqui na Folha. E reforçam ainda uma hipótese a que os analistas também não costumam dedicar muita atenção: as constantes previsões sobre um déficit “terrível” no intercâmbio comercial dos EUA, repetidas insistentemente por porta-vozes do governo norte-americano, fazem parte de uma estratégia. Seu objetivo? Justificar as pressões que os EUA fazem sobre outros países, como o Brasil, para que abram seus mercados.