[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Especulação mentiras e “frituras”

segunda-feira 17 de setembro de 1990


O governo semeia a inflação. Era esse o alerta desta coluna há duas semanas (edição do dia 26-9 de VISÃO). Nela, mostrava-se que o Banco Central, enquanto anunciava brutal arrocho monetário para o mês de setembro, estava na verdade abrindo as burras para grupos e setores privilegiados. Emitindo. A previsão foi plenamente confirmada, há poucos dias, com a divulgação dos resultados da política do Banco Central em setembro, a saber: em lugar de arrocho, houve emissões brutais, de dinheiro, nada menos de Cr$ 140 bilhões em um único mês, com a base monetária saltando de Cr$ 780 bilhões para Cr$ 920 bilhões. As estatísticas mostravam um fato gravíssimo: com a promessa de arrocho, anunciado para combater a inflação, as taxas de juros dispararam violentamente ao longo de setembro e outubro, chegando na última semana até a estratosférica altura dos 2.200% ao ano, para empréstimos de capital de giro a empresas. Vale dizer – e é isso que a sociedade precisa entender: dizia-se que as taxas de juros estavam disparando por causa do arrocho; e não houve arrocho nenhum. O que houve foi pura e simplesmente uma brutal elevação dos juros, concedida e estimulada pelo Banco Central, com lucros de bilhões de cruzeiros para os jogadores participantes do mercado financeiro: as próprias instituições, as grandes empresas, os grandes aplicadores. No reverso da medalha, houve prejuízos a toda a sociedade brasileira, pois a alta dos juros trouxe de volta ao clima inflacionário, inclusive como conseqüência do aumento real dos custos para as empresas. Frisando: os juros só poderiam ter subido se tivesse havido arrocho, e ele não ocorreu; ao contrário. Logo, tudo o que houve foi especulação e semeadura de mais inflação por parte do Banco central. O presidente do BC, Ibrahim Eris não gosta dessa interpretação. Para ele, houve emissão, sim, mas isso não significa forçosamente um aumento da liquidez, da quantidade de dinheiro disponível dentro da economia. Para mandar o seu recado, o presidente do Banco Central convocou dois grandes jornais muito amigos, com jornalista muito amigos. Deu imensas entrevistas, nas quais sofismou e procurou encobrir a verdade, com grande ajuda dos entrevistadores, que engoliram as respostas falsas – mesmo quando sabiam (e deviam saber, pois são jornalistas especializados) que elas eram falsas. Assim, Eris disse, impunemente, sem ser questionado, que o dinheiro emitido não havia ficado circulando na economia, tinha ido para as reservas dos bancos, e isso significava a manutenção do arrocho. Os jornalistas, e os jornais, calaram. Engoliram. Só que os próprios dados do Banco Central mostravam que o seu presidente não estava dizendo a verdade: as emissões chegaram a Cr$ 140 bilhões e, desse total, apenas Cr$ 40 bilhões foram parar nas reservas bancárias. Os outros Cr$ 100 bilhões ficaram circulando por aí, sim (as cifras, na verdade, são muito maiores, mas essa é uma outra questão, detalhadamente discutida na reportagem de capa desta edição). Mais uma vez, fica claro como o jornalismo pátrio freqüentemente deixa de desempenhar o seu papel ou, pior ainda, faz o jogo dos poderosos, contra os interesses de toda a sociedade. Nesse caso do estouro da base monetária, houve quem escondesse a notícia, deixando de lhe dar qualquer destaque – apesar da importância fundamental do fenômeno, já que política de combate à inflação, neste momento, está centrada exatamente no controle monetário. Se ele se perde, é o combate à inflação que fica ameaçado. Mas, além de esconder a notícia, houve quem abrisse suas páginas para a defesa – sem base nos dados reais – do presidente do Banco Central. Um dos jornais que publicaram sua entrevista teve até, no dia seguinte, a ameaça de um acesso de honestidade para com o leitor e a sociedade. Em editorial, o jornal apontava a falsidade da argumentação do presidente do BC: “Os dados mostram, contudo, que apenas uma pequena parte da expansão da moeda ficou retida na conta das reservas bancárias – Cr$ 40 bilhões – enquanto o restante foi injetado na economia pelo aumento do papel-moeda em circulação”. Por que chamar isso de “ameaça de um acesso de honestidade”? Porque foi só uma ameaça. Além de não dizer claramente que o presidente do BC estava manipulando os dados, ou falseando a verdade, o editorial o perdoa totalmente, logo no trecho seguinte, afirmando que “eventuais (sic) inconsistências (sic) de pormenor (sic) na política antiinflacionária do governo são, sem dúvida, naturais” etecétera e tal. É isso aí, sociedade brasileira: em outro país, a alta dos juros, a volta da ciranda financeira, os prejuízos à política contra a inflação seriam considerados um crime de lesa-sociedade. Aqui, são chamados de “eventuais inconsistências de pormenor” (sic, sic, sic), em um editorial que chega a ser untuoso, de tantos elogios ao presidente do Banco Central. O país já viu, em outras ocasiões, a imprensa silenciar diante de erros e desmandos de ministros e assessores. Muitas vezes, o silêncio tinha uma explicação: havia uma articulação de grupos poderosos, tentando “fritar” um determinando ministro, e endeusar outros ou possíveis substitutos. A ministra Zélia, com tão boa memória, lembra-se disso?



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