Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 22 de agosto de 1996
A equipe econômica convenceu o presidente da República que é preciso levar a "modernidade" também à agricultura.
Com suas propostas, massacrou os produtores em 1995, e provocou redução nas colheitas deste ano. A lição não foi aprendida.
Os economistas oficiais insistem em seu blablablá teórico, a nova praga que assola (também) a agricultura brasileira.
Suas propostas refletem total falta de visão da realidade do país. Há necessidade de reviravoltas urgentes para que o Brasil aproveite este momento de escassez mundial de alimentos, e utilize a agricultura para gerar milhões de empregos, renda, consumo _e superação da recessão.
O ponto de partida para uma nova política agrícola de longo prazo para o Brasil é a constatação de que o setor, em plena recessão de 1990 a 1993, criou nada menos de 4 milhões de empregos (ver coluna do último domingo).
Ignorando essa realidade, de que as atividades agrícolas no Brasil envolvem de 10 milhões a 12 milhões de pequenos microprodutores, a equipe FHC/BNDES pensa apenas em políticas sofisticadas de "agrobusiness". Na prática, deixam os produtores no desamparo.
Nos EUA, o agricultor é indenizado, por uma seguradora do próprio governo, quando suas colheitas são destruídas por secas, inundações etc. No Brasil? Não.
Somente existe um tipo de seguro, isto é, somente para o agricultor que consegue tomar empréstimos. Se ele perde a colheita, o seguro paga o empréstimo. Ao banco. É seguro para os banqueiros, não para os agricultores.
Há três semanas, o presidente Clinton, dos EUA, criou novo tipo de seguro, que passou a pagar não apenas os prejuízos resultantes de problemas climáticos, mas também eventuais quedas de preços. Os EUA, como a Europa, estão oferecendo garantias totais ao produtor, para estimulá-lo a plantar neste momento.
Por lei, o governo brasileiro é obrigado a comprar as colheitas do produtor, quando os preços estão ruins.
A equipe FHC/BNDES, com a ladainha de "reduzir a intervenção do Estado", simplesmente tem ignorado essa obrigação.
Em 1995, milhões de produtores foram arruinados no Brasil porque o governo não comprou as colheitas, e os preços desabaram.
Para restabelecer a confiança do produtor, o próprio presidente FHC deve proclamar o abandono dessa "política". O exemplo dos EUA e da Europa mostra que essa história de "diminuir a ação do governo" é balela.
Para evitar (novas) sabotagens dos teóricos de sua equipe, cabe ao presidente FHC acompanhar de perto a escolha de fontes de recursos para empréstimos e compra de safras em 1996. Dinheiro existe.
Na própria área oficial, o BNDES, banco estatal, pode rever prioridades, e destinar bilhões à agricultura.
Basta suspender algumas de suas operações, feitas a juros de pai para filho: empréstimos para a construção de shopping centers (só 6% ao ano, mais TJLP), empréstimos a compradores de empresas estatais (que deveriam ser forçados a buscar dinheiro aqui ou no exterior para fazer seus negócios) e outras similares.
Também a CEF e o BB podem parar de "socorrer" banqueiros privados, aplicando bilhões na compra de créditos ou moedas podres. Também o Banco Central pode parar de comprar créditos podres do FCVS _que só venceriam daqui a 15 ou 20 anos, pertencentes a bancos privados.
A experiência mostra que nem os bancos privados nem as seguradoras privadas querem dar apoio aos agricultores por temerem prejuízos. Não adianta, assim, a teoria de "reduzir a atuação do Estado" no setor agrícola. O presidente FHC deve ter a coragem _como Clinton_ de confiar essa ação a bancos estatais. Da União e dos Estados.