Jornal Gazeta Mercantil , segunda-feira 9 de abril de 1979
O País aguarda para a próxima semana, o arsenal de medidas que o ministro da Fazenda deve acionar para reformular o sistema financeiro, disciplinar a política monetária e, por extensão, combater a inflação. Por mais corretas que essas medidas sejam, Rischbieter terá contra si as resistências de duas áreas: alguns segmentos do mercado financeiro, viciados em raciocínios velhos. E o presidente do Banco Central, Carlos Brandão, um dos criadores do “open market” no Brasil e que, a cada entrevista e a cada declaração, mostra tão obstinada paixão pela especulação financeira, que parece ter havido um equívoco quanto ao cargo para o qual ele foi designado. Brandão nunca demonstra ter consciência de que é presidente do Banco Central de uma Nação, e são os interesses da Nação que ele deve ter em conta. Ele estaria muito melhor, certamente, em um cargo de direção da ANDIMA, ANDIB, Federação dos Bancos, ante sua imensa identificação com a importância do império da especulação financeira.
Dirigentes do mercado financeiro, em entrevistas sobre as novas medidas, já estão afirmando que as taxas de juros, em lugar de cair, devem subir. Vêm aí medidas de contenção, dizem eles, e, lógico, haverá escassez de crédito, criando-se condições para a elevação das taxas. As entidades de classes empresariais precisam orientar as empresas para que não aceitem esse tipo de argumento, que é falso. As intenções do ministro da Fazenda não são no sentido de provocar escassez de crédito, e, sim, evitar que haja, novamente, excesso de recursos dentro da economia, alimentando a especulação e a inflação.
Procura-se, em outras palavras, evitar o que aconteceu nos últimos anos, com as autoridades perdendo o controle da política monetária. Quando o mercado financeiro volta a dizer que as medidas de contenção encarecerão o custo do dinheiro, está repetindo uma cantilena velha e analisando unilateralmente a política adotada pelas autoridades. Como já foi analisado aqui, o governo tomou uma série de medidas para cortar a necessidade de crédito no País este ano – como os cortes no orçamento, a redução nos gastos das estatais e, mais recentemente, a redução nas aplicações do Fundo Nacional de Desenvolvimento (além das medidas tomadas para aumentar os recursos da União através da cobrança do “imposto-calamidade” e a redução nos subsídios à exportação). Assim, depois de cortar a demanda por recursos, por crédito, o ministério da Fazenda está, agora, disciplinando o outro lado, isto é, a oferta de recursos, pois se, apesar das menores necessidades de dinheiro, o fluxo de recursos continuasse o mesmo, as “sobras” iriam, inevitavelmente, para a especulação financeira (e outros tipos de especulação). Em síntese, não há "aperto – mas controle, o que não justifica juros altos.
As análises viciosas do mercado financeiro sobre a inevitabilidade da cobrança de juros altos foram um instrumento “psicológico” para manter o custo do dinheiro a níveis escorchantes, nos últimos anos: as empresas opinião pública eram enganadas pela aparente lógica do argumento e dobravam-se ante a "fatalidade". Espanta, por isso mesmo, que o presidente do Banco Central, Carlos Brandão, repita a cada três dias a afirmação monstruosa de que "as taxas de juros são altas por causa da inflação”, ou “as taxas de juros não podem cair por causa da inflação”. Se o ministro da Fazenda acredita tanto na necessidade de obter a colaboração da sociedade no combate á inflação, com vem dizendo, seria bom que ele lembrasse ao sr. Brandão que ele também faz parte dessa sociedade e que, por sua posição de "autoridade", não pode fazer afirmações levianas, que deseduquem a opinião pública, mantendo o caminho aberto para a especulação — principalmente quando essas afirmações não tem fundamento. 0 sr. Carlos Brandão deve saber — afinal, é um apaixonado pelo mercado financeiro – que nos principais países capitalistas (como o Brasil) raramente as taxas de juros superam o nível da inflação, e ainda assim em poucos pontos percentuais. Mesmo em surtos inflacionários, quando os respectivos governos decidiram elevar os juros para (dentro da teoria monetarista) enfrentar a carestia, essa orientação não foi abandonada: a Inglaterra, com uma taxa de inflação na casa dos 35% há três ou quatro anos, não enfrentou juros superiores a 13/15%. No Brasil é o que se tem visto: para taxas de inflação de 40% ao ano, juros de 60, 70, 80, 90%, cobrados às empresas (se o sr. Brandão estiver interessado, como presidente do Banco central, em uma comparação entre taxas de juros e inflação em outros países, pode solicitar um trabalho técnico elaborado pela Federação do Comércio de São Paulo, no ano passado).
O sr. Brandão repete, ainda, que não há especulação financeira e que o “open” não é especulativo. Seria bom ele ler, nos jornais de sexta-feira, o comportamento do “open” – e do “seu” Banco, isto é, o Central – na véspera: “O custo do dinheiro, ontem, no ‘open market’, foi caro – 8,45% ao mês, em média”... O Banco Central interveio no mercado a termo, dando dinheiro por doze dias (oh, maná!) a 2,80% ao mês, numa ação que foi interpretada no mercado como uma tentativa de neutralizar a tendência de elevação do custo do dinheiro...
O diretor de uma instituição que atua no mercado aberto disse que o alto custo do dinheiro foi um efeito da atuação dos bancos “dealers” (bancos que recebem dinheiro do Banco Central, a 2,80%, para injetá-lo no mercado e reduzir os juros, oh, pepineira!), que tem procurado manter esse nível (8,45%), já que são grandes doadores (isto é, tem o monopólio) de recursos (do Banco Central...). A liquidez de ontem, assegurou, seria suficiente para permitir taxas mais baixas.
Procura-se urgente um presidente do Banco Central que tenha o Brasil e não o "open market" na cabeça. E no coração.