O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Biondi, vacina contra vaidade
por Alcides Ferreira

Monografia, Novembro de 1997

Jornalismo Econômico – Depoimentos é uma narrativa, pelas vozes de 12 profissionais do ramo, das experiências que fizeram a história dessa atividade jornalística nas últimas décadas. Dessa forma, o trabalho pretende fornecer elementos de análise e reflexão. Certamente, está aqui um material rico para, por exemplo, o estudante de jornalismo que pretenda se iniciar no segmento econômico. Ou para o pesquisador que queira entender melhor o jornalismo feito no Brasil nessa área. A seguir veja a entrevista com o jornalista Aloysio Biondi.

Alcides Ferreira – Como o senhor vê a cobertura econômica hoje?
Aloysio Biondi – Eu considero essa a fase negra do jornalismo econômico brasileiro, por razões que eu atribuo à desonestidade jornalística. Hoje em dia, quando não tenho tempo de ler todo o jornal, leio as quatro últimas linhas de uma matéria, porque certamente é lá que estará a notícia. A opinião pública está sofrendo uma lavagem cerebral por parte da imprensa e do governo atual.

Hoje, a imprensa mente. Uma coisa é seguir a linha editorial, outra coisa é mentir. Ela noticia que as vendas aumentam no Dia das Mães e no Dia dos Namorados com base em dados obtidos no Serviço de Proteção ao Consumidor. Só que esses números, por sua vez, estão alterados, porque refletem o crescimento da inadimplência. Chegou-se ao ponto de inverter a notícia.

E tem mais, hoje o jornalista ainda pode recorrer à desculpa do computador. Pode alegar que deixou de dar a notícia porque o espaço previsto no programa de computador não foi suficiente. E para o leitor, que se acostuma com as manchetes otimistas, essa boa imagem é a que fica guardada. Hoje, a edição serve pra isso: inverter a notícia e fixar idéias erradas.

Ferreira – E por que se chegou a esse ponto?
Biondi – Eu acho que o jornalismo está assim porque todos os veículos acham que o futuro é a multimídia e estão nas licitações para a telefonia celular. Por conseqüência, todos resolveram ficar quietos. Até a Folha deixa perdida dentro do caderno de economia uma matéria que revela a disparidade das tarifas brasileiras em relação às tarifas de importação de outros países, muito mais elevadas. Essa é uma matéria que precisa ser dada em primeira página. Se há algum interesse por parte do jornal em promover debate, então é preciso dar a informação em manchete, ou em subtítulo, mas tem que ser na primeira página. Deixar a informação solta no meio do caderno de economia é fingir uma independência, fazer de conta que deu a notícia, enquanto, na realidade, o jornal torce para que ninguém leia.

O Estadão chegou a publicar a seguinte manchete: “Dobra o acesso do consumidor ao crédito com o real.” A matéria era baseada em uma pesquisa que mostrava que o grau de endividamento do consumidor havia dobrado. Ou seja, chega-se ao ponto de inverter a informação. Deixaram de dizer que o grau de endividamento é perigoso, uma vez que, daqui a algum tempo, a demanda pode deixar de existir. Ao contrário, preferiu-se transformar isso em mais uma das maravilhas do real. Isso, pra mim, é falta de compromisso com a opinião pública. É uma inversão total.

Ferreira – O que mudou na cobertura de economia depois do Plano Real?
Biondi – Tudo mudou depois do plano. Os dados estão agora na cara das pessoas e elas preferem acreditar nas versões oficiais de tudo. Não se discute se o desemprego é mesmo uma necessidade da modernização ou se é, na realidade, uma conseqüência da importação desenfreada. Todo mundo aceita essa necessidade porque acha que lá fora as coisas também acontecem assim. Antes, as pessoas duvidavam de tudo. Todos eram contra tudo que viesse da ditadura. Hoje, o jornalista vai fazer uma entrevista e não questiona nada. Essa é a pior fase do jornalismo.

Eu sempre discuti a necessidade de independência do jornalista. É verdade que antes havia também os jornalistas que usavam o argumento da ditadura para se acomodar e não polemizar nada. Na realidade, o espaço para brigar, embora restrito, ainda era maior do que os jornalistas costumavam dizer. Eu briguei a vida inteira. Hoje eu tenho pena de vocês.

Ferreira – Você acha que hoje não existe espaço para brigar?
Biondi – Pelo que eu vejo, não há nenhum espaço pra brigar hoje. A linha editorial está definida pelo otimismo, pelo neoliberalismo, não se discute mais. Eu concordo que um jornalista não pode brigar sozinho. Mas, se houvesse uma postura do jornalista um pouco diferente do que estamos vendo, as coisas não estariam como estão hoje.

Ferreira – Os jornalistas deixaram de tomar partido?
Biondi – Assumir uma posição é uma coisa, colocar-se diante da notícia e questioná-la é outra. O objetivo do DCI, por exemplo, não é o de ser contra, mas sim de deixar as coisas claras. Hoje, os jornais dão dez linhas para uma matéria sobre uma reunião do setor de autopeças e uma página inteira para o pronunciamento oficial do senhor (ministro da Fazenda, Pedro) Malan. Os deputados fazem perguntas, encostam esses senhores na parede, mas não sai uma linha no jornal. O que nós estamos vendo aí é antiético, porque o outro lado não tem espaço na imprensa. Não é omitir nada nem tomar partido. É, simplesmente, colocar os dois lados e hierarquizar a notícia.

Ferreira – Qual a razão para essa mudança na linha editorial?
Biondi – O jornalista é muito orgulhoso. Deveria haver uma vacina para o jornalista contra a vaidade. Dizem, por exemplo, que o bom editor é aquele que tem o telefone da casa do ministro. Quando o ministro gostar de mim a esse ponto, alguma coisa vai estar errada. Isso porque ninguém que está no poder gosta do crítico. Um exemplo é a equipe econômica que está no poder hoje. O discurso crítico que antes eles mesmos gostavam de fazer contra seus antecessores se tornou, para eles, radical. Eles acham que têm de fazer aliança pra chegar ao poder e mudar as coisas. E eles trabalham assim, de concessão em concessão. Quer dizer que agora eu vou virar um crápula, fazer um monte de coisas das quais eu discordo. O que é que eu estou garantindo com isso? Não estou garantindo nada!

Ferreira – E no que a vaidade compromete o trabalho do jornalista?
Biondi – A vaidade é perigosa para o jornalista. Sabem porque os jornalistas tinham tanto ódio da Zélia (Cardoso de Melo, ex-ministra da Economia)? Porque, ao contrário dos outros ministros, ela não atendia os colunistas às 17h. O Delfim (Netto, ex-ministro e deputado estadual do PPB-SP), por exemplo, era um mago para manipular jornalista. Ele dizia que ia contar uma notícia só para mim, porque sabia que eu seria ponderado e que tinha conhecimento técnico para não sair escrevendo qualquer coisa. Aí está o perigo da vaidade do jornalista. O jornalista tem que ter consciência de que a fonte gosta dele apenas enquanto lhe convém e de que a fonte tem outros interesses, que não são os dos leitores.

Ferreira – Houve alguma mudança quanto à necessidade de formação técnica para o jornalista nesses anos?
Biondi – O jornalista de economia sempre aprendeu com o dia-a-dia. Em mil jornalistas econômicos, eu não conheço cinco que tenham vindo da área de economia. Acho que o correto para o jornalista de economia é saber trabalhar com números. Não usar nem a versão oficial, nem a versão empresarial das coisas. O melhor é mostrar os números. E se basear no que eles dizem.

Ferreira – Você iniciou sua carreira na Folha de S.Paulo, em 1956. A Folha já cobria economia nessa época?
Biondi – Sim, a Folha tinha um caderno de economia que surgiu bem na época de transição entre o Brasil rural e o Brasil industrializado, na era desenvolvimentista do Juscelino (Kubitschek, presidente). Era um caderno que acompanhava esse processo e que, sob esse ponto de vista, podia até ser considerado moderno. O Estadão, por exemplo, ainda era muito rançoso, e fazia questão de trazer apenas matérias internacionais na primeira página.

Era um caderno bem estruturado na Folha, com uma equipe de cinco repórteres especializados. Havia um repórter de indústria, o Moura Marcondes dos Reis, um repórter especializado em mercado internacional de borracha, açúcar e cacau, um especialista em café, o José Guarani Rossini, que veio a ser editor do caderno, um repórter do tipo ecológico, que era chamado, na época, repórter de defesa da flora e da fauna, e ainda um repórter que cobria pecuária.

Havia também na redação o editor, eu, como subeditor, e três copies. E ainda tinha mais um repórter, que cobria mercado financeiro, mas como o mercado era muito insignificante na época, ele fazia apenas matérias sobre crédito, taxa de juros e empréstimo, sem nem tocar em Bolsa de Valores. Matérias sobre Bolsa só apareceram no noticiário em 1970. O nosso time era acostumado a escrever por metro. As matérias eram publicadas em séries de três ou quatro, porque o texto inteiro nunca cabia no espaço de um dia.

Ferreira – Quem dirigia o jornal?
Biondi – O dono da Folha era um advogado chamado José Nabantino Ramos. Ele viajou uma vez para os Estados Unidos e voltou para o Brasil com a idéia de criar um jornal captando dinheiro com a venda das ações do próprio jornal em troca do direito de uma assinatura para o resto da vida. Provavelmente, ele aprendeu isso com os americanos, mas não pensou que no Brasil a história seria outra porque aqui havia inflação. Os custos do jornal foram aumentando e o dinheiro do assinante fundador da Folha nunca entrava. A partir daí devem ter surgido os problemas que o levaram a vender o jornal dez anos depois, para os Frias.

O Nabantino era uma pessoa muito pra frente. Havia o diretor-geral de redação, o Mário Mazzei Guimarães, um homem especializado em agricultura e economia, que tinha uma coluna em que assinava com o pseudônimo de Pedro Leite. Ele recorria a personagens da literatura, como o Macunaíma e o Pedro Artiero, que representavam determinadas figuras em seu texto. O Macunaíma, por exemplo, era o povo brasileiro. O Mazzei era uma figura muito interessante que, talvez, não tenha permanecido à frente de muita coisa porque tinha um problema sério de audição e não assumia. E ele era tão concentrado no trabalho que, mesmo quando estava no mictório, ficava em pé fazendo suas necessidades com um texto na mão.

Ferreira – E era realmente um caderno ou apenas um encarte dentro do jornal?
Biondi – Era um caderno mesmo.

Ferreira – Havia outros jornais que tinham um caderno de economia na época?
Biondi – Não, a Folha era a única. O Estadão tinha a sua sessão de economia, mas que ficava dentro do corpo do jornal e sem o chamado padrão moderno que incluía a cobertura empresarial. O Estadão continuava com a cobertura oficial, sempre informando as últimas medidas tomadas pelo governo. É interessante, porque os acontecimentos após a ditadura parecem um videoteipe do que já aconteceu. Nessa idéia de ouvir menos o governo e mais a sociedade a Folha já era revolucionária.

Ferreira – E esse caderno chegou a ser o mais influente da época?
Biondi – Ah, sim, a Folha passou a ganhar disparado na frente.

Ferreira – E o Jornal do Commercio, do Rio, não era também influente?
Biondi – Eu chefiei o Jornal do Commercio do Rio em 1972 e o João Calmon costumava falar muito de uma fase brilhante do jornal que tinha existido há vinte anos. Mas eu não acompanhei. Eu acho que, como jornal de massa, ninguém cobriu melhor do que a Folha, indiscutivelmente.

Ferreira – Como foi esse trabalho no Jornal do Commercio?
Biondi – Eu entrei como diretor de redação do Jornal do Commercio, do Rio. Talvez esse tenha sido o meu projeto de maior influência, porque o modelo do milagre econômico do Delfim estava estourando e existia uma briga dentro para a sucessão do (presidente Emílio Garrastazu) Médici. O Jornal do Commercio era um jornal pequeno, com uma tiragem de 4 a 5 mil exemplares e, sendo um jornal que circulou na Escola Superior de Guerra, nas alas chamadas nacionalistas, ele teve uma influência no processo da sucessão. Talvez esse tenha sido o meu momento de maior influência, porque, embora eu tenha sido sempre polêmico, esse foi o meu momento de influência política mais direta. O João Calmon me chamou para dizer que tudo estava indo muito bem, que aquela era a melhor fase do jornal, mas que, para o Delfim, quem não era amigo era inimigo e que, portanto, eu não poderia continuar lá.

Ferreira – Em 1967, o senhor foi para a Visão. Como era essa revista?
Biondi – A Visão foi uma revista desenvolvimentista, da mística de que o Brasil seria um país enorme, autônomo e independente. Ela surgiu na época do Juscelino, lançada por uma editora norte-americana que tinha revistas dirigidas para a América Latina. O seu slogan era "A revista do homem de negócios", que é a tradução literal do businessman. Ela chegou a ter 250 mil exemplares. Sempre havia uma reportagem de capa sobre uma grande empresa ou um grande investimento. Tinha uma editoria de política nacional, uma de internacional, uma editoria de economia e negócios três vezes maior do que o restante do espaço e de seis a oito páginas de cultura e variedades. O diretor de redação era o Washington Novaes, o secretário de redação, o Zuenir Ventura, e o chefe de arte era o Ziraldo. Eu fui para editar economia, numa fase muito interessante, em que a Veja era uma revista amorfa, pró-ditadura, enquanto a Visão se consolidava como uma revista moderna.

Nós estávamos na época da revolução de costumes, dos Beatles, da revolução sexual e da pílula anticoncepcional. Eu me lembro de uma matéria de capa sobre pílula que foi um escândalo na época. Lá, eu fazia uma matéria de capa a cada 15 dias, sempre muito violentas, contra a política conservadora do Delfim. Estávamos no auge do milagre econômico e todos pensavam que tudo era maravilhoso. Em setembro de 1967, a gente lançou o Quem é Quem na Economia, que era esse tipo de conjunto de balanços de empresas hoje publicados pela Gazeta Mercantil e pela Exame. Em 1968, a revista foi extinta, por pressão da ditadura.

Ferreira – E a Visão foi a primeira a publicar esses balanços?
Biondi – Sim, ela foi a primeira, e a idéia foi um sucesso. Em seis meses, a venda da revista disparou. Mas não disparou só por conta das matérias de economia, mas porque a revista era muito inteligente. Ninguém falava de feminismo, pílula, Cinema Novo naquela época.

Ferreira – Ainda em 1968, o senhor começou a trabalhar na Veja. Como era a revista nessa época?
Biondi – A Veja estava numa fase muito difícil quando eu entrei. Havia alcançado tiragem de 600 mil exemplares no lançamento, mas já tinha caído para apenas 40 mil. A Veja era lida, em grande parte, por gente jovem. A segunda capa da revista foi com a mulher do (líder estudantil) Vladimir Palmeira, a Ana Maria Palmeira, com um grupo pichando muro e em baixo o título “Baderneiros”. A revista era totalmente reacionária na época. Eu fui chamado para fazer uma coluna de serviço sobre mercado de capitais. Trabalhava como freelancer porque, toda vez que alguém pensava em me entregar, o Roberto Civita fazia questão de informar que eu era “persona não grata”.

Quando me chamaram pra cuidar da editoria de economia, eu insisti em dizer pro Roberto Civita que isso não daria certo. Eu avisei que não estaria disposto a falar apenas o que o Delfim queria. E que também não iria fazer a editoria de economia pretendida pela Veja. Essa era a época do auge da crise cambial por causa da recessão, do desemprego e das importações.

Eles tinham mania de dizer que não se podia escrever “economês”. Eu respondia que, no dia em que nós escrevêssemos português, a safadeza iria acabar. As pessoas pensavam, faziam de conta que escreviam, e depois não falavam o que acontecia realmente. Depois houve um empréstimo do Banco Mundial para a construção de um ramal ferroviário que serviria à mineradora Hanna Mining e, nesse acordo, a Central do Brasil sairia com prejuízo para que a Hanna tivesse lucro. Eu resolvi então escrever exatamente essa fase.

Na segunda-feira, o Roberto Civita veio saber porque eu tinha feito aquilo e eu disse que tinha sido a idéia de falar português. Se eu tivesse dito subsidiar, ninguém teria entendido. E o Roberto argumentou que as coisas não precisavam ser bem assim.

Ferreira – Em 71, o senhor trabalhou no Diretório Econômico, do Correio da Manhã. Como foi essa experiência?
Biondi – Eu fui ser editor de mercado de capitais do Correio da Manhã, porque essa era a única área que o Delfim me deixava cobrir. O Diretório Econômico foi um sucesso, embora nós fossemos extremamente cautelosos porque, afinal, estávamos no auge da ditadura. Eram 12 páginas, sendo seis destinadas à cobertura de mercados de capitais. Eu fazia a cobertura de fundos e a análise das ações de diversas empresas, o que me acarretava uma situação muito chata porque, em todo lugar, as pessoas me paravam para saber sobre dicas de investimento.

Ferreira – Como era a sua relação com o Delfim Netto?
Biondi – Hoje a situação ficou até grotesca, porque as críticas do Delfim batem com as minhas. Nós estamos defendendo que é preciso desvalorizar real para exportar, mas a diferença está na argumentação, porque ele não cita a necessidade de se incentivar a exportação. Por incrível que pareça, ele era socialista. No início do governo Costa e Silva, em 1967, eu fui ser editor da Visão, que ficava a cinco quadras do Ministério da Fazenda, e o Delfim foi escolhido ministro. No começo, ele adorava as matérias que eu fazia na Visão. Seis meses depois, ele já estava fazendo a política empresarial mais deslavada. Daí veio a minha filosofia de vida:

“O calor dilata os poros, daí as paixões.”

O poder muda as pessoas. O Delfim já foi extrema esquerda. Ele fazia teatro de periferia. Sua inteligência não foi usada adequadamente em favor da sociedade. Eu tenho até um recorte de uma nota de jornal, de 1968, em que ele diz que o Brasil precisava ou de uma liderança carismática ou de uma ditadura. Para mim, ele teve um papel decisivo ao induzir os militares ao fechamento.

Ferreira – Em 74, o senhor foi para a Gazeta Mercantil. O senhor chegou a participar do seu processo de reestruturação?
Biondi – Sim. Eu entrei em 74 e, em 76, a Gazeta optou por ser um jornal de superestrutura. Foi quando eu resolvi que não deveria ficar. Afinal, eu tinha passado o período 1967 a 1974, o auge da ditadura, tentando discutir a economia brasileira. E, finalmente, quando estávamos chegando a uma abertura lenta e gradual e eu via a possibilidade de discutir poder e concentração de renda, teria que me submeter a fazer matérias sobre a Volkswagen?

Antes a Gazeta era um jornal de economia que preferia discutir um determinado assunto a simplesmente fazer uma transcrição de gravador. Nós sempre introduzíamos dados novos no debate. Porque o que interessa não é o que o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) acha do crescimento de um determinado setor, mas sim o que os números mostram sobre o que está acontecendo com o setor. Para ouvir choradeira a gente manda um boy gravar a entrevista e depois só transcreve. A Gazeta, com a reformulação, voltou a publicar declarações de quem acha que a situação está ruim e de quem acha que a situação está boa sem fazer uma avaliação própria com base em dados. Então, achei que devia sair, e fui para o DCI.

Ferreira – Quanto tempo o senhor ficou nessa primeira fase de DCI?
Biondi – Fiquei dois anos, até 1978. Em 1979, fui ser editor de economia do Jornal da República. Em 1981, voltei para a Folha, como repórter especial, e, em 1983, já estava como editor, na época do Projeto Folha.

Ferreira – O Projeto Folha acarretou alguma mudança à cobertura econômica do jornal?
Biondi – A área de economia não era muito integrada ao restante do jornal, até mesmo porque não gostavam do assunto. Mas as mudanças do Projeto Folha não se refletiram no caderno de economia, porque as preocupações eram com o nível de qualidade e erro zero. Não houve qualquer mudança efetiva no conteúdo das matérias de economia do jornal. Houve, no entanto, a preocupação em começar a ouvir sempre as duas versões de um fato, e não ficar só no lado oficial das coisas.

Ferreira – E como foi a sua relação com o Cláudio Abramo?
Biondi – Eu não convivi muito com o Cláudio. Na realidade, eu só convivi no jornal. Mas eu posso dizer que, no fim da vida, o Cláudio se aproximou muito de mim. Ele morreu muito amargo. Foi até ironia, porque nós nunca fomos muito próximos e ele foi se aproximar de mim bem no momento em que estava mais triste e solitário, principalmente pela sua condição salarial na Folha. Além disso, não houve lugar para o Cláudio no Projeto Folha. Ele ficou só como articulista. Não houve espaço para ele.

Ferreira – O que o senhor acha da Folha de S.Paulo?
Biondi – Apesar das imperfeições, é preciso reconhecer que a Folha é realmente revolucionária na abordagem de alguns temas. É um jornal que peca por excesso, às vezes, mas temos que considerar que todo revolucionário peca por excesso. Eu acho que há uma linha editorial deliberada de enfrentar tabus. Eu sempre digo que a gente começa a envelhecer quando passa a falar mal do jovem. Mas o jovem conhece menos simplesmente porque tem menos tempo de informação acumulada.

Ferreira – Quem faz a melhor cobertura econômica hoje?
Biondi – De longe, a Gazeta Mercantil. Dos outros jornais, em termos de volume, o Estadão tem mais informação do que a Folha, mas é preciso peneirar as verdades. Inegavelmente, a Folha é muito mais correta, embora também costume dar a notícia de queda de 10% nas compras de supermercado na última página, enquanto uma informação dessas deveria estar na primeira.

Ferreira – O senhor foi um dos primeiros jornalistas econômicos a montar bancos de dados e grupos de pesquisa. O que o levou a isso?
Biondi – Eu nunca confiei nos dados oficiais. E sempre fui obcecado por números. Eu perdi emprego, mas nunca puderam desmentir uma matéria minha. Ao invés de escrever xingando o Delfim, eu preferia mostrar os números. Sempre acreditei que para se fazer matéria de economia é preciso utilizar e saber ler dados econômicos. É por isso que eu fiz meu banco de dados. Os dados não são secretos. Os jornalistas é que não sabem buscá-los. É importante entender os números porque as coisas nunca acontecem exatamente como diz a equipe econômica. A manchete da Folha do último domingo foi “País criou 318 mil empregos este ano”. Essas informações vinham do ministério e eram relativas aos registros em carteira. Só que, no mercado informal, sem registro em carteira, foram criados mais 2 milhões de empregos, além de outros 9 milhões de pessoas que, também segundo a pesquisa, entraram no mercado e não conseguiram emprego. Isso quer dizer que foram criados 318 mil empregos e 11 milhões de desempregados novos. Mas isso não estava no lide da matéria. Pelo fato de não ler números, os jornalistas fazem lides mentirosos. Por isso, em todo lugar que eu chegava, fazia questão de montar um banco de dados. Quando interessa, eu gosto de fazer uma comparação com o mês anterior e para isso preciso dos dados armazenados. Uma avaliação pode ser positiva ou negativa de acordo com a base de cálculo sobre a qual os números são considerados. Um crescimento das vendas, por exemplo, pode parecer maior se comparado a um período de paradeira, anterior à implantação de um novo plano econômico.

Ferreira – E como o senhor fazia quando não tinha computador?
Biondi – Eu arquivava esses dados em pastas, classificadas por assuntos.

Ferreira – O senhor ganhou um Prêmio Esso. Qual foi o tema da matéria?
Biondi – Foi em 1967, quando eu estava na Visão. Ganhei um Prêmio Esso de Informação Econômica que, por incrível que pareça, se chamava “Brasil a caminho do deserto”. A matéria tratava de uma política que previa inserções no Imposto de Renda para quem reflorestasse e que, ao mesmo tempo, permitia a derrubada de mata nativa para a plantação de eucaliptos, a fim de que se formasse uma floresta homogênea para a indústria de papel. Então, na verdade, era uma política que não visava a reflorestar, mas sim devastar. Era, portanto, uma matéria de meio ambiente, que criticava a política de incentivos ao desmatamento. Ganhei outro Prêmio Esso quando estava na Veja com quatro matérias sobre como usar incentivos fiscais aplicando o dinheiro no reflorestamento.



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