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  Aos meus caros jornalistas

Jornal Diário Popular , quinta-feira 11 de maio de 2000


Ontem, foi dia de festa no Planalto. O presidente da República recebeu as lideranças da Contag — Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura, que representa, na verdade, as famílias de pequenos e micro proprietários rurais, que trabalham (daí o nome da entidade) eles próprios sua terra. São 4 milhões de famílias, algo como 20 milhões de brasileiros, que apesar de labutarem de sol a sol obtêm uma renda baixíssima e vivem, em sua esmagadora maioria, com menos de meio salário mínimo per capita por mês.

À noite, no noticiário da TV, os comentários e reportagens se incumbiam de dizer que o governo havia atendido todas as reivindicações da Contag e ‘‘liberado’’ R$ 7,8 bilhões para a agricultura familiar e reforma agrária. E não deixavam de destacar que, enquanto isso, o presidente se recusava a receber os sem-terra, numa demonstração de que quem é ‘‘bonzinho’’, ‘‘bem-comportado’’, como a Contag, consegue atenção do governo. Mas não faltaram também comentários afirmando que o governo não tem dinheiro nem para atender a quem já tem terra, ‘‘como é que vai arrumar para os sem-terra? Não é questão de não querer...’’

Meus amigos jornalistas cometeram alguns erros, enganando involuntariamente a opinião pública. Antes de mais nada, o presidente FHC não ‘‘liberou’’ nada. Na farsa, digo, na festa do Planalto, ele apenas ‘‘prometeu’’ liberar. E as lideranças da Contag, tão felizes em reforçar o coro que pede o sangue do MST na imprensa diária e semanal, sabem muitíssimo bem que o presidente FHC nunca honrou suas promessas para com os pequenos agricultores. Há uns três meses, essas mesmas lideranças estavam promovendo bloqueio de agências do Banco do Brasil — porque o governo não liberou o crédito prometido para os pequenos plantarem. Como há apenas três semanas elas estavam protestando contra os prejuízos dos plantadores de feijão, vendido a R$ 16 a saca no interior — porque o governo FHC, como elas sabem muito bem, não compra mais as colheitas dos produtores, como norma. Ou, há quinze dias, protestavam contra os baixos preços no mercado de arroz, invadido pelas importações da Argentina e Paraguai — porque o governo FHC escancarou o mercado, arruinando também os plantadores de algodão, de trigo e de uva no São Francisco etc. Da mesma forma que o presidente FHC não cumpriu a promessa feita há quatro anos, em junho de 1996, perante as lideranças da Contag, de criar um seguro agrícola para indenizar os agricultores que perdem suas lavouras em desastres climáticos como secas — deixando-os na miséria, forçando-os a vender suas terras e virarem sem-terra. Para finalizar, os caros jornalistas poderiam consultar um livrinho editado pelo Instituto de Terras de São Paulo, do insuspeito governo Covas, sobre os assentamentos feitos pela (pequena) reforma agrária paulista. As famílias assentadas apresentam alta produtividade, sua produção aumentou a arrecadação e tirou prefeituras da falência, ao expandir o consumo e a renda. Quanto essas famílias receberam de crédito por ano, pagos com as colheitas? Na média, R$ 900,00. Por ano.

É essa fortuna que o governo do presidente Fernando Henrique não tem? Ou as prioridades são outras? Aquelas?



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