Jornal Folha de S.Paulo , domingo 15 de agosto de 1982
Cada vez mais difícil pagar dívida externa
O Brasil precisa conseguir que os banqueiros internacionais lhe emprestem 25 bilhões de dólares por ano, para poder honrar seus compromissos internacionais e evitar uma crise semelhante à que atingiu a Argentina e o Chile.
Com sua dívida externa alcançando os 80 ou 88 bilhões de dólares no final deste ano, o País vive uma dramática situação de dependência do Exterior, diante da carga insuportável dos juros e demais encargos (o chamado "serviço" ) da dívida, que vêm devorando uma parcela cada vez maior das receitas em dólares obtidas com as exportações. Em 1981, os juros e amortizações consumiram nada menos de 18 bilhões de dólares, ou quase 80% dos 23 bilhões de dólares gerados pelas exportações. Isto significa que sobraram apenas 5 bilhões de dólares para o pagamento de todos os demais compromissos, inclusive as importações, no valor de 22 bilhões de dólares, criando-se um "rombo", a ser coberto pelos empréstimos dos banqueiros, de 24 bilhões de dólares em 1981. Já neste ano, a situação é ainda pior, diante da queda nas exportações, de 10% até julho, e nos investimentos estrangeiros, como conseqüência dos problemas da economia mundial.
Estudos confidenciais que vêm circulando em áreas oficiais afirmam que, mesmo sem a atual crise mundial, o Brasil teria dificuldades para pagar sua dívida externa, ou mantê-la. Isto porque o endívidamento não criou as novas fontes de produção e renda que deveriam ajudar a pagar os seus juros e prestações: a dívida cresceu mais depressa que a economia, passando a representar 30% do PIB, em 1981, contra 15% em 1973.
Empresários e economistas defendem a renegociação da dívida antes que os banqueiros imponham uma política recessiva ao País.