Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 9 de julho de 1998
Sempre otimistas, o presidente FHC e sua equipe prevêem reação da economia e redução do desemprego neste segundo semestre – fenômenos positivos que, segundo eles, seriam acompanhados por melhora nas exportações, redução nas importações e, portanto, queda também no “rombo” da balança comercial. Ou, em outras palavras, reconquista da confiança dos investidores externos, entrada de dólares, salvação do real. Tudo azul. Ou tudo rosa. Nada mais esquizofrênico do que essa visão do Planalto. Para defendê-la, o presidente FHC e sua equipe estão se baseando no comportamento da economia ao longo dos anos, sabendo que, já a partir de agosto/setembro, a indústria intensifica sua produção para atender às encomendas e reposição de estoques do comércio, para as vendas de Natal. Essa é, realmente, a tradição. Mas é evidente, óbvio ululante, que ela não se repetirá neste ano, como qualquer criança não-harvardiana poderá concluir simplesmente olhando ao redor.
Indústria automobilística - Já cortou violentamente a produção, de mais de 200 mil veículos/mês no segundo semestre de 1997, para a faixa de 130 a 150 mil neste ano. Forçou desesperadamente vendas, com juros abaixo de 1% ao mês. Mesmo assim, o setor está com estoques perto das 200 mil unidades, entre fábricas e revendedoras. Daí, as férias coletivas. E mais desemprego, logo, logo não só nas montadoras como nas fornecedoras de peças, componentes, matérias-primas.
Eletroeletrônicos - Em maio, mês do Dia das Mães e perto da Copa, queda de 25% para eletrônicos e de até 40% para a linha branca. A principal empresa do setor faz cortes de pessoal, nestes dias, sufocada por estoques suficientes para quatro meses. Quatro meses.
Roupas - O comércio antecipa liquidações, por causa do encalhe de estoques de roupas de inverno.
Por todos os lados, estoques, cortes na produção, inadimplência do consumidor, mais desemprego. A economia rola ladeira abaixo, a um ritmo incontrolável: nem os setores que o governo FHC aponta como novos “motores do crescimento” escapam. A indústria de máquinas e equipamentos recuou no primeiro semestre (mais uma vez, prejudicada por importações realizadas até por órgãos do próprio governo federal...). E, agora, até o setor siderúrgico vai perdendo terreno para o aço importado.
A saca de café valia R$ 180 no segundo semestre do ano passado, hoje mal chega aos R$ 120. Superprodução, que derruba os preços também do açúcar, do cacau, da soja – e do suco de laranja (os EUA esperam uma safra-monstro da fruta). Só escapam desse quadro baixista o arroz e o feijão (que, aliás, voltou a disparar, exatamente como esta coluna previu), com safras reduzidas graças à falta de apoio, rendendo menos ao produtor. Não há nenhuma contribuição positiva, ao aumento do consumo, a ser dada pela renda agrícola portanto.
O IBGE e o IPEA insistem em prever que o PIB vai crescer neste segundo semestre. Ora, as estatísticas mostram que, para setores de peso, como o automobilístico, o “pico” da produção ocorreu no segundo semestre de 1997. Obviamente, matematicamente, quando for comparada a produção deste ano com a produção do ano passado, haverá um recuo muito mais violento. É matemático. Não há como escondê-lo, manipulá-lo. Além da industria, há o recuo do comércio (10% no primeiro semestre) e da agricultura (safra de apenas 76 milhões de toneladas, contra a previsão de 81 milhões de toneladas – que, atenção, o IBGE vinha usando para estimar o crescimento do PIB...)
É neste semestre que será mais sentido, também, o efeito baixista, sobre o valor das exportações, resultante da queda das cotações do café, cacau, açúcar, soja, suco de laranja. E, ainda, dos metais. Não haverá redução “drástica” no rombo comercial, nas contas com o exterior. Da mesma forma em que a queda na produção e nas vendas vai derrubar a arrecadação de impostos – e agravar o “rombo” do setor público. Para coroar, uma “filigrana estatística” pode inquietar ainda mais os banqueiros e credores internacionais. Como é sabido, o mundo financeiro costuma medir a saúde de um país analisando o “rombo” do setor público e o “rombo” das contas com o resto do mundo, efetuando – ainda – uma comparação com o tamanho do PIB. Isso significa que, se o PIB cair no semestre, automaticamente aqueles “rombos” passarão a representar um percentual proporcionalmente maior. E eles já estão acima dos padrões que os aplicadores toleram ...
Passada a euforia da Copa do Mundo, haverá pouco a comemorar.