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  O II PND e a Realidade - III

Jornal Gazeta Mercantil , sexta-feira 23 de agosto de 1974


Enxergar a realidade do subconsumo

No começo dos anos 70, o “modelo exportador” adotado pelo Brasil começou a provocar críticas de economistas de renome mundial, reconhecidamente simpáticos aos esforços do governo brasileiro em busca do desenvolvimento. Voltaram à tona as críticas de que o rápido crescimento do PIB estava sendo acompanhado por sérias distorções, como a concentração de renda, prolongando-se a marginalização de milhões de brasileiros e frustrando-se a formação de um mercado de massa no país.

A essas críticas em torno do modelo, o ex-ministro da Fazenda, Delfim Neto, apresentava seus argumentos. Em entrevista à revista “Veja”, por exemplo, explicava que a política de exportações de produtos agrícolas tinha por objetivo permitir, exatamente, a formação de um poderoso mercado interno através do crescimento da agricultura.

Numa explicação que, na época, não mereceu a análise devida, afirmava que a agricultura brasileira nos últimos anos apresentava um desempenho modesto exatamente porque o consumo não crescia. A produção agrícola - essa, a base do raciocínio que teria motivado o esforço exportador - estava sendo limitada pela periódica formação de “excedentes”, não consumidos pela população brasileira. Por falta de renda, reconhecia-se.

Mas a solução adotada pelo modelo era incentivar as exportações assegurando a relocação de safras crescentes no exterior. Com isso, seria aumentada a renda da população rural, criando-se um mercado de massa no interior do país e, através de efeitos multiplicadores dentro da economia, também nas áreas urbanas.

O ministro encerrava seu raciocínio ressaltando ser esse o caminho correto, enquanto os críticos - como o professor Hunlington, de Harvard - afirmava que a expansão do mercado interno não se fazia a taxas satisfatórias e nem duradoras, e isso não seria “obtido sem uma paralela redistribuição de renda”.

UM CONTRA-SENSO
A esses críticos, parecia um contra-senso defender-se uma “teoria de excedentes agrícolas”, no Brasil, em lugar de reconhecer-se a “realidade do subconsumo”. Com a renda redistribuída, o consumo de todos os bens - inclusive alimentos - crescia sem a necessidade de depender do mercado externo, com todas as suas implicações, inclusive a persistência do problema da desigualdade social extremada, dentro do país.

A eufórica fase de economia mundial, nos últimos anos, permitiu que o modelo, em termos estatísticos, funcionasse a contento - e a expansão do mercado interno foi artificialmente acelerada através da desmedida expansão do crédito ao consumidor, através das promotoras de vendas e cujas conseqüências agora estão se revelando. A prosperidade mundial trouxe o aumento da demanda de produtos agrícolas e matérias-primas básicas, desde o minério de ferro à celulose - objetos ainda de estocagem especulativa por parte das multinacionais.

O ano de 1974 está revelando a precariedade do modelo apoiado no mercado externo. Finda a especulação, surgem os estoques e os “excedentes”, mundiais de produtos agrícolas - como a carne, a mamona, a soja, o algodão, a lã.

Explica-se, assim, que o II Plano Nacional de Desenvolvimento proponha a formação de um “mercado de consumo de massa” no país - e pretenda chegar a ele através dos caminhos recusados anteriormente. “Na opção” realizada, diz a abertura do capítulo relativo à “Estratégia de Desenvolvimento Social” , o governo não aceita a colocação de esperar que o crescimento econômico, por si, resolva o problema da redistribuição de renda, ou seja, a teoria de “esperar o bolo crescer”. Há necessidade de, mantendo acelerado o crescimento, realizar políticas redistributivas “enquanto o bolo cresce”.

*Por ter saído com uma série de incorreções na edição de sexta-feira última, voltamos a publicar hoje o terceiro artigo da série “O II PND e a Realidade”.



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