quarta-feira 14 de agosto de 1991
Por um momento, tudo parecia indicar que o país estava caminhando para repetir situações bastante conhecidas: previsões de inflação em alta, previsões de novo congelamento, abrindo caminho para a remarcação de preços e – suprema surpresa – coroando tudo, até um prematuríssimo surgimento do processo de fritura do ministro Marcílio Moreira, alvo de boatos de queda, mal completados três meses de sua gestão. Tentando readquirir o controle da situação, o governo agiu duro, e voltou a fixar controles e tabelas para setores que haviam reajustados seus preços exageradamente. Como a experiência dos últimos anos já mostrou, essa volta aos controles de nada adianta em momentos nos quais declina a confiança na possibilidade de controle da inflação. As empresas entram em confronto aberto com o governo, reajustam preços – e pronto. No entanto, mesmo que a observação possa parecer temerária, o fato é que às portas da segunda semana do mês, já eram fortes os indícios de que já havia ficado para trás o pior momento da economia. Não será uma atitude de otimismo exagerado acreditar que as taxas de inflação tendem a uma trajetória cadente, a partir de um futuro próximo. Antes de mais nada, há dados concretos justificando essa previsão. O índice de inflação apurado em São Paulo pela Fipe deu um salto com o descongelamento, a partir de junho, mas entrou em processo de estabilização em junho, com taxas (mensais) de 10,70%; 10,72%, 11,13% e 11,30% a cada quadrissemana do mês. Essa desaceleração permite otimismo por dois motivos principais: as taxas na faixa dos 11% já incorporam a maior parcela da alta da carne, de forte peso nos cálculos; alguns setores já mostravam declínio efetivo das taxas, entre a terceira e a quarta quadrissemanas de julho. Era o caso de fumo e bebidas, com 8,94% e 7,76%; recreação e cultura, 22,46% e 17,15%; roupa masculina, 11,5% e 10,2%. O comportamento das taxas de inflação apuradas pela Fipe, refletindo uma situação sob controle, inegavelmente teve o dom de neutralizar em parte o impacto negativo que o IGP-M de 13% havia provocado junto aos empresários. Comprovado que as taxas de inflação estavam estabilizadas, ficou difícil, para a central de boataria, sustentar as previsões de que, após bater nos 13%, as taxas tenderiam a subir rápida e explosivamente. Melhor prova da mudança de atitude por parte dos empresários: o mercado financeiro entrou em fase de incrível tranqüilidade, pasmaceira mesmo, com as cotações do dólar no black ou do ouro chegando a acusar quedas em alguns dias, em lugar de entrarem em alta firme, como sempre ocorre nos momentos de intranqüilidade diante das perspectivas da economia. Simultaneamente, pesquisa realizada entre 76 empresários pela Câmara Americana de Comércio, de São Paulo, trouxe uma revelação surpreendente. Pelos dados da pesquisa, realizada em julho, a maioria dos empresários se mostrava otimista em relação ao desempenho da economia neste segundo semestre – atitude positiva que não se observava há nada menos de oito meses. Juntando-se todos esses dados, pode-se acreditar que o pessimismo detonado pelo IGP-M passe a ceder espaço a notícias positivas, principalmente em relação à queda da inflação. Há uma conjugação de fatores ajudando a equipe do ministro Marcílio, a esta altura. No ano passado, o descongelamento de preços no Brasil foi tumultuado pela crise no golfo Pérsico, que fez os preços do petróleo dispararem, puxando as taxas de inflação aqui dentro. Este ano, esse risco não existe. Outra pressão inflacionária que contou no começo do segundo semestre de 1990, e hoje não está em cena, corresponde às condições climáticas. O inverno deste ano está extremamente suave, com períodos extremamente curtos de baixas temperaturas, ou mesmo de ocorrência de geadas, que sempre pressionam o custo dos hortifrutigranjeiros. Resultado: roupas e verduras não subiram tanto como em 1990, e já tendem a recuar, à medida que agosto avança. Mas o fator determinante da possível queda da inflação nestas próximas semanas, é a resistência do governo diante das pressões para reindexar a economia, isto é, para adotar a correção automática de preços e salários, de acordo com a inflação observada – e não de acordo com os respectivos custos de cada setor. No ano passado, as altas passageiras de preços das verduras e do petróleo acabaram virando “eternas” dentro da economia, alimentando a inflação, devido à pratica de aumentar preços com base na taxa de inflação do mês anterior. Hoje, é óbvio que a prática de indexação ainda existe, mas já não reina absoluta em todas as áreas e negócios da economia. Balanço final: não há nenhum fantasma pela frente. Basta esperar para conferir essa previsão.