[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  O dólar e o foguetório antes da hora

Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 25 de junho de 1996


O governo festeja um saldo positivo na balança comercial em maio, quando as exportações superaram o valor das importações em US$ 300 milhões.

Análises apressadas afirmam que a fase de "rombos" no comércio exterior foi superada. Consequentemente, dizem, a economia poderá voltar a crescer sem criar a necessidade de volumes crescentes de empréstimos externos e risco de subsequente fuga de aplicadores estrangeiros.

As próprias estatísticas oficiais sobre exportação e importação mostram que o foguetório é prematuro _e equivocado.

* Exportações - Após avançarem 11% de janeiro a abril, cresceram apenas 7% em maio, na comparação com 1995. Para o segundo semestre, os resultados serão prejudicados com a queda de preços de produtos com grande peso na exportação: açúcar (safra recorde mundial, confirmada); papel e celulose (recuo de até 50% sobre 1995); suco de laranja e café (a menos que venham as geadas). No caso da soja, empresas (burramente?) anteciparam exportações de janeiro a março.

* Importações - Até maio, caíram 13% sobre 1995. Mas elas vêm crescendo mês a mês: de US$ 3,8 bilhões em março para US$ 4 bilhões em abril e US$ 4,2 bilhões em maio.

A tendência ao crescimento deve ser mantida, pois no começo de 1995 as compras externas caíram temporariamente, devido a freios impostos pelo governo (aumento temporário de alíquotas) e existência de grandes estoques. No caso de automóveis, por exemplo, as importações de maio de 1996 cresceram 50% sobre abril, com US$ 170 milhões.

Outra queda ilusória no último mês: as compras de petróleo, com recuo de 40% sobre 1995 _quando a greve dos petroleiros forçou importações extras.

* Agrícolas - No segundo semestre, o Brasil importará maciçamente produtos agrícolas, a preços elevados: trigo, milho, arroz _e até soja, por causa das exportações "excessivas" de janeiro a março. O rombo na balança comercial persistirá enquanto o governo FHC continuar incentivando a enxurrada de importações de matérias-primas, peças e componentes, que destrói empresas e empregos no país.

Desleal

Empresas brasileiras compram, no exterior, peças, matérias-primas e componentes, recebendo ainda financiamentos para pagar somente daqui a 180 dias. Juros cobrados: 8% a 10% ao ano. Os importadores aplicam esse dinheiro a 30%, 40%, aqui dentro, durante os seis meses. Com a diferença dos juros, "lucram" de 20% a 30% ao ano. Todo mundo quer importar, óbvio.

Misterinho

De janeiro a março, antes mesmo de começar a colheita deste ano, as exportações de soja brasileira deram um "salto", crescendo até 100% em alguns Estados. Pressa estranha dos exportadores, pois a quebra das colheitas mundiais garantia que os preços iriam subir nos meses seguintes.

Pista

Exportar a preços baixos tem sido, tradicionalmente, uma forma de remeter dólares para o exterior de forma disfarçada. Ou de sonegar impostos: o importador paga a diferença de preços "por baixo do pano" e o exportador esconde o lucro.

Fumaças

Os fabricantes brasileiros de papel e celulose tiveram lucros fantásticos nos últimos dois anos, quando os preços dos produtos duplicaram no mercado mundial _e interno. Desde o final de 1995, os preços entraram em queda e voltaram aos níveis normais. Os empresários visitaram o presidente FHC na última semana.

Reverso

O empresário Antonio Ermírio de Moraes exalta a contribuição que São Paulo tem dado às demais regiões do país, ao oferecer empregos aos imigrantes que procuraram o Estado.

Alguns economistas relembram o outro lado da moeda: sem a mão-de-obra abundante e barata trazida pelas migrações, a agricultura e indústria de São Paulo não teriam se capitalizado e crescido tanto ao longo de décadas.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil